Por dentro dos navios negreiros

Por dentro dos navios negreiros

O Brasil, assim como outros países das Américas, teve uma economia colonial baseada no uso da mão de obra escrava africana, num sistema de produção que ficou denominado PLANTATION e se caracterizou por:

– latifúndios (grandes propriedades de terra)
– prática monocultora destinada à exportação
– uso de mão de obra escrava africana
Neste sentido, junto com a produção açucareira, o tráfico de escravos concorria como importante prática na economia portuguesa. Uma curiosidade: os portugueses eram considerados o melhores neste trágico comércio.
Rugenda

‘Navio negreiro’ – Rugendas (1830) Fonte

A ilustração de Rugendas é talvez uma das imagens mais conhecidas sobre a forma de transporte de escravos e revela a enorme quantidade de pessoas que ficavam confinadas nestes espaços úmidos e escuros, por até 2 meses de viagem, numa travessia do Oceâno Atlântico.
maquete em corte transversal ao navio

Corte transversal em maquete de um navio negreiro, no Museu Nacional de História, da cidade de São Francisco (EUA)

Estes mercadores contavam uma taxa de mortalidade entre 5% e 25% do total de escravizados transportados – um valor que era considerado baixo para os padrões da época – e com acesso à diversos fornecedores destas almas, que eram definidas em documentos como “peças”. Além disso, a prática do escravismo era corroborado pela Igreja que, considerava estas pessoas como inferiores e desprovidas de almas, o que daria legitimidade ao empreendimento. Isto porque os europeus, segundo a antropologia, desenvolveram ações que visavam “desumanizar” os povos conquistados, como forma de justificar suas invasões, que muitas vezes eram acompanhadas por verdadeiros massacres.
Desta forma, esta triste prática foi muito recorrente em meio à economia mercantilista que relacionava colônias e metrópoles, nas quais seres humanos eram reduzidos à condição de animais e transportados sob péssimas condições de higiene – fato que favorecia a disseminação de doenças e infecções. Assim, TODOS os europeus ligados ao comércio de escravos (inclusive holandeses e ingleses) procuraram elaborar manuais didáticos sobre qual seria a melhor disposição das “peças” nos navios de transporte, com detalhadas ilustrações e instruções.
planta do navio - melhor diposição

Plano de disposição dos escravos idealizado para o navio Brooks, que foi construído em Liverpool. Fonte

De acordo com publicação veiculada pela BBC, recentemente foram encontrados num navio naufragado na costa da África do Sul artefatos que confirmam que esta teria sido uma embarcação utilizada para o transporte de pessoas escravizadas. Dentre esses objetos, há algemas, barras de ferro utilizadas como lastro e um bloco de polia de madeira e que serão exibidos pela primeira vez no Iziko Slave Lodge, museu da Cidade do Cabo.
Especialistas dizem que o lastro de ferro é uma evidência de que o navio foi usado para transportar escravos já que era frequentemente usado como contrapeso, porque os seres humanos não pesam tanto quanto outros tipos de carga.
arqueologia subaquática

Arqueologia subaquática no navio São José. Fonte

 Acredita-se que este navio teria sido o transporte de mais de 400 pessoas escravizadas de Moçambique a caminho do Brasil e que cerca da metade tenha morrido no naufrágio, sendo muito provável que os sobreviventes tenham sido revendidos no mercado de escravos da Cidade do Cabo. 🙁
O navio São José foi descoberto por caçadores de tesouros na década de 1980, mas foi só em 2010 que os pesquisadores perceberam que era um navio negreiro. Desde então, o mergulho em torno do navio foi mantido em segredo, a fim de proteger o local.

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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