Achado não é roubado?

Achado não é roubado?

Durante o ano de 2004, investigadores alemães encontraram um machado mesopotâmico ao apreenderem um negociante, conhecido por vender antiguidades no mercado negro. A arma foi reconhecida como parte do sítio arqueológico da cidade-estado de Ur – atual cidade de Tell el-Mukayyar, no sudeste do Iraque.

Machado mesopotâmico, encontrado na Alemanha.

Machado mesopotâmico, encontrado na Alemanha. A moeda é para você ter uma ideia do tamanho real dele, viu!?

Sobre a Mesopotâmia

A Mesopotâmia compreende a região situada entre os rios Tigre e Eufrates, no Oriente Médio, e constam entre as mais antigas organizações de Estado conhecidas pelos historiadores.  Uma região que, há milhares de anos, era marcada pela ocorrência de terras férteis, favorecidas pelas abundantes cheias sazonais destes complexos hídricos – por este motivo, a região recebeu esta denominação que pode ser traduzida do grego arcaico como “[terra] entre dois rios”.

Com suas nascentes situadas na região que compreende o atual Estado da Turquia, estas fontes de vida atravessam o Oriente Médio (para ser mais exato a Síria, Iraque e Iran) e desembocam no Golfo Pérsico. Fato que possibilitou o desenvolvimento de civilizações complexas, pautadas na agricultura irrigada e em uma intensa rede de comércio; conforme podemos ver no mapa baixo.

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Formada pelo agrupamento de cidades-estado – dotadas de autonomia política e econômica – esta reginão é considerada o berço de toda cultura do homem, uma vez que situam-se os mais antigos registros da escrita (pautada na caligrafia cuneiforme), assim como de histórias como a famosa “Epopéia de Gilgamesh”. Dentre as principais civilizações, podemos citar os Sumérios que foram responsáveis pela construção dos primeiros Zigurattes da região , há cerca de 5000 anos atrás.

Com uma cultura muito bem organizada, os sumérios eram governados por um líder militar e religioso denominado Patesi, que eram entendido como representante das divindades naturais e se mantinham nessas enormes construções, de onde governavam com o apoio de uma elite sacerdotal. Neste sentido, os Zigurates, terminavam por configurar como o centro religioso, político, administrativo e financeiro de cidades como Ur, Uruk, Nippur e Lagash.

Perspectiva panorâmica do Zigurate de Ur, em uma fotografia apresentada pela Enciclopédia Irânica.

Perspectiva panorâmica do Zigurate de Ur, em uma fotografia apresentada pela Enciclopédia Irânica.

Destes lugares esta elite enviava ordens e se comunicava por meio de pequenas tabuletas de argila com símbolos que variavam entre risco e cunhas. Esta forma de comunicação era utilizada, inclusive, para pequenos envios de recados e convites entre populares e, por este motivo, revela que a disseminação de informações era muito mais abrangente e refinada do que se costuma pensar, quando se trata a respeito deste período.

“Carta” envidada pelo alto sacerdote Lu´enna ao rei da cidade-estado de Lagash, informando-o da morte de seu filho (o príncipe) em combate. Datado de 2.400 a.C., este material foi encontrado em Telloh (atual Girsu), no Iraque, em uma escavação supervisionada por Gaston Cros, de 1904. Hoje a “carta” se encontra no Departamento de Antiguidades Orientais do Museu do Louvre. Fotografia por Marie-Lan Nguyen, disponível na Wikimedia Commons.

“Carta” envidada pelo alto sacerdote Lu´enna ao rei da cidade-estado de Lagash, informando-o da morte de seu filho (o príncipe) em combate. Datado de 2.400 a.C., este material foi encontrado em Telloh (atual Girsu), no Iraque, em uma escavação supervisionada por Gaston Cros, de 1904. Hoje a “carta” se encontra no Departamento de Antiguidades Orientais do Museu do Louvre. Fotografia por Marie-Lan Nguyen, disponível na Wikimedia Commons.

Entretanto, diferente do que muitos podem pensar, esta região estava longe de ser um paraíso pacífico, mas sim entrevado palco de batalhas constantes, no qual diversos povos – como os Acadianos, Assírios, Babilônicos e Persas – lutaram por obter o controle político e econômico da região; prática que recebeu a denominação de IMPERIALISMO e, marca a existência humana até os dias de hoje.

Por este motivo, as escavações arqueológicas costumam encontrar armas e armaduras construídas com a tecnologia do bronze em meio a enorme quantidade de potes de cerâmica, selos comerciais, esculturas, sementes e ossos. Pode parecer incoerente, mas a análise do material orgânico fossilizado nos sítios arqueológicos, apesar de muito trabalhosa, tem sido a maior fonte para o entendimento a respeito do clima e mudanças ocorridas no território, durante este período tão distante.

Uma cultura refinada

Para que possamos entender o como a cultura destes povos era refinada, deixo abaixo, a imagem de um selo acádio (um dos povos mesopotâmicos que se apropriou de aspectos culturais sumérios – inclusive a religiosidade) que era utilizado para lacrar os potes de cerâmica, comercializado pelos povos. A marca do selo em um pote ou vaso apontava quem era o comerciante proprietário do material contido e, às vezes apontava o destinatário do produto.

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Selo acadiano (acompanhado da impressão em argila) que apresenta, no centro o deus-sol Shamash (Utu para os sumérios) nascendo no horizonte ao leste, com raios saindo de seus ombros. Ele segura uma serra na mão para cortar as montanhas – ou como simbolismo ao seu papel de juiz . à esquerda de Shamash está Ishtar (ou Inanna, para os sumérios) ao lado de uma árvore e, possivelmente, o herói Gilgamesh com seu arco e um leão. Na parte superior esquerda de Shamash podemos ver um pássaro (talvez Anzu que, de acordo com um conto, roubou a Tabuleta do Destino) e Ea (em sumério Enki), cuja natureza ligada à água é indicada pelos peixes que escorrem de seus ombros. Por fim, à direita de Ea está o mensageiro divino de duas faces Isimud e, na parte superior esquerda o nome e título da pessoa que seria o proprietário do selo, em escrita cuneiforme. Fonte: British Museum

Selo acadiano (acompanhado da impressão em argila) . Fonte: British Museum

Este selo que apresenta, no centro o deus-sol Shamash (Utu para os sumérios) nascendo no horizonte ao leste, com raios saindo de seus ombros. Ele segura uma serra na mão para cortar as montanhas – ou como simbolismo ao seu papel de juiz . À esquerda de Shamash está Ishtar (ou Inanna, para os sumérios) ao lado de uma árvore e, possivelmente, o herói Gilgamesh com seu arco e um leão. Na parte superior esquerda de Shamash podemos ver um pássaro (talvez Anzu que, de acordo com um conto, roubou a Tabuleta do Destino) e Ea (em sumério Enki), cuja natureza ligada à água é indicada pelos peixes que escorrem de seus ombros. Por fim, à direita de Ea está o mensageiro divino de duas faces Isimud e, na parte superior esquerda o nome e título da pessoa que seria o proprietário do selo, em escrita cuneiforme.

Arqueologia e Guerra

Segundo a agência de notícias Reuters, o material foi entregue aos pesquisadores do Roman-Germanic Central Museum (RGZM), os quais perceberam evidências que sugerem que esta arma foi roubada de um museu ou de sítio de escavação.

A explicação mais plausível para este fato está relacionada com o enorme caos gerado pela invasão norte-americana no Iraque (em 2003), movida pelo desejo de retaliação aos atentados terroristas de World Trade Center, assim como pelo enorme interesse econômico dos EUA sobre as reservas de petróleo presentes na região. Neste sentido, esta situação favoreceu a ocorrência de uma enorme quantidade de saques destas antiguidades, que eram retiradas dos museus e sítios arqueológicos para serem entregues em mãos de colecionadores dispostos a pagar verdadeiras fortunas por estes objetos no mercado negro.

Soldados norte-americanos sobem as escadarias do Zigurate de Ur.

Soldados norte-americanos sobem as escadarias do Zigurate de Ur.

O caso destes objetos arqueológicos chamou a atenção dos investigadores alemães, quando um antigo vaso de ouro foi colocado para leilão por uma tradicional casa, chamada Gerhard Hirsch Nachfolger, como pertencente à Idade do Ferro, em Roma. Tal fato gerou um debate entre especialista que, após analisarem o objeto, concluíram ser, na verdade, mesopotâmico.

Segundo o ex embaixador do Iraque na Alemanha Alaa Al-Hashimy, em 2009 para o jornal especializado The Art Newspaper,  a Alemanha acabou por se transformar em um centro receptor de todo este material ilegal que, por apresentar uma engessada legislação, torna muito difícil que estes objetos sejam reconhecidos como roubados e devolvidos à nação de origem. De qualquer forma, após o início do processo judicial pelo retorno do vaso de ouro, surgiram indícios de que outros 28 artefatos da Mesopotâmia foram contrabandeados do Iraque para a Alemanha.

Foto do sítio arqueológico da Babilônia, retirada por membros do exército norte-americano quando invadiram uma das casas do ditador Saddam Hussein. A foto foi tirada desde a sacada da casa de Hussein e, na parte inferior, podemos ver um Humvee

Foto do sítio arqueológico da Babilônia, retirada por membros do exército norte-americano quando invadiram uma das casas do ditador Saddam Hussein. A foto foi tirada desde a sacada da casa de Hussein e, na parte inferior, podemos ver um Humvee

Soldado norte-americano, com fragmento de pedra marcado por inscrições em escrita cuneiforme. Fonte: The Iraq War & Archaeology

Soldado norte-americano, com fragmento de pedra marcado por inscrições em escrita cuneiforme. Fonte: The Iraq War & Archaeology

Todavia, segundo o blog The History Blog, foram necessários 7 anos de trâmites burocráticos para que, finalmente, o machado apontado no início do texto fosse entregue nas mãos do, então embaixado do Iraque em Berlin, Hussain M. Fadhlalla al-Khateeb. Já, no ano de 2012, o jarro de ouro e outras 44 relíquias mesopotâmicas foram devolvidas ao Iraque em uma cerimônia oficial, no Ministério de Assuntos Externos da Alemanha.

Algo que é pequena parte, perto dos milhares de objetos que foram roubados do Museu Nacional do Iraque – 10.000, segundo afirma o diretor geral do museu, Amira Eidan – e se encontram espalhados por países como Grã-Bretanha, Estados Unidos e Canada. Algo que não será deixado de lado, conforme afirma o chefe do departamento de recuperação de artefatos históricos do Iraque Abbas al-Quraishi:

“We are heading in coming months to retrieve Iraqi artifacts from Britain, from the United States of America, and Canada … we will follow Iraq’s antiquities wherever they are,”

PaleoNota do autor: Este artigo teve publicação autorizada, também no site História Militar Online. Lá vocês podem encontrar muitas informações interessantes sobre guerras de todos os perídos, portanto, acessem!

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About the Author

PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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