A Pompéia do Front Ocidental

A Pompéia do Front Ocidental

 

 

 

 

 

No ano de 2012, arqueólogos franceses realizavam trabalhos de escavações para averiguar a possibilidade de construir uma estrada na região da Alsácia, que atravessaria a cidade francesa de Carspach. Apesar de soar para nós estranho, é muito comum na Europa a prospecção arqueológica antes da realização de qualquer tipo de construção de grande porte – inclusive se realizadas em pequenas cidades distantes das capitais – assim como podemos considerar extremamente comum o fato destes estudiosos encontrarem materiais em regiões como esta; já que Carspach foi parte do “Front Ocidental”, durante a Primeira Guerra Mundial.

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A descoberta de uma “câmara do tempo” da Primeira Guerra Mundial

 

Arqueólogo que, com muito cudado e paciência, remove as camadas de terra que cobrem o abrigo soterrado, na Região próxima à cidade de Carspach.

A grande surpresa, no entanto, reside no fato destes pesquisadores terem encontrado cadáveres 21 soldados alemães em perfeito estado de conservação em restos de uma trincheira que foi soterrada pelo ataque de uma bomba aliada! Fato que levou o redator Graham Smith, do sítio on line Daylymail.com, a chamar o sítio arqueológico de “A Pompéia do Front Ocidental” – em referência ao sítio arqueológico romano, situado na Itália.

Sobre a “Grande Guerra”

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Mapa que procura fazer uma representação humorística da Europa acerca dos conflitos nacionalistas que marcaram a Primeira Guerra Mundial

Entendida como o primeiro conflito de caráter global, a Primeira Guerra Mundial foi resultado de rivalidades imperialistas entre as maiores potências econômicas da Europa, que disputavam com “unhas e dentes” o controle colonial sobre regiões da África e Ásia, com objetivo de obter acesso irrestrito às fontes de matéria-prima e ampliar seus mercados consumidores. Por este motivo, este conflito passou a ser chamada pela imprensa da época, como a “Grande Guerra”.

Aliado a estas tensões geradas pelas práticas monopolistas do Capitalismo Financeiro, insurgente em meados do século XIX, podemos citar a grande explosão do nacionalismo na Europa, assim como a agressiva mentalidade beligerante que marcou muito de toda produção cultural desta época. Fato que esteve engendrado em um sistema de alianças, pautado em acordos de mútua defesa entre estas potências e recebeu a denominação de “Paz Armada”, ao envolver uma intensa corrida armamentista entre os membros da Tríplice Aliança (Alemanha, Império Áustro-Húngaro e, posteriormente, Itália) e a Tríplice Entente (formada pela França, Inglaterra e, somente depois, Rússia).

Jornal da época, preservado pela explosão que soterrou a trincheira.

Jornal da época, preservado pela explosão que soterrou a trincheira.

Dentre os fatores que concorreram para a ocorrência da Primeira Guerra Mundial, resulta especialmente interessante para esse artigo, o revanchismo francês com relação aos alemães, devido à derrota sofrida pelos primeiros no conflito denominado Guerra franco-prussiana (1871-1876), o qual envolvia a luta pela disputada região da Alsácia-Lorena – rica nas principais matérias-primas que possibilitavam o desenvolvimento industrial destas potências imperialistas – os minérios de ferro e carvão. Esta é exatamente a região onde os arqueólogos franceses realizaram este interessantíssimo achado!

Contudo, o estopim da guerra veio, na verdade, da região do Leste Europeu, na qual o nacionalismo regionalista (que ficou conhecido como pan-eslavismo) era incentivado pelo governo russo, enquanto a Alemanha e o Império Austro-Húngaro contribuíam para o aumento das tensões, em função de interesses imperialistas sobre a região dos Balcãs, que passava por um processo de desfragmentação devido a crise do Império Turco-Otomano.

Toda esta situação teve seu ápice no dia 25 de julho de 1914, quando o herdeiro do trono austro-húngaro Francisco Ferdinando decidiu ir à Sérvia, com intuito de dissuadir as tensões entre insurretos e o governo aliado que estava no poder. Uma ação mal calculada que, na verdade, foi interpretada pelos membros da célula terrorista Mão Negra como um ato de afronta e os levou a incumbir um jovem de 19 anos chamado Gavrilo Princip a empunhar uma pistola FN, modelo 1910 (calibre 32) em meio à multidão e, alvejar Ferdinando e sua mulher, Sofia.

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Esquerda: Detalhe da pistola FN 1910, utilizada por Garvrilo, no assassinato do príncipe e sua mulher. Direita:Trajes usados por Francisco Ferdinando e o sofá onde ele foi recostado antes de morrer, ainda com marcas de sangue, são exibidos no Museu da História Militar em Viena, na Áustria. Abaixo: Carro utilizado pelo herdeiro do império áustro-húngaro, em 1918.

 

Este fato levou o Império Áustro-Húngaro a declarar guerra contra a Sérvia e, por consequência, forçou o posicionamento das grandes potências a agirem em defesa de seus respectivos aliados. Algo que deu início a primeira fase da guerra, também conhecida como Guerra de movimento, na qual os exércitos realizaram velozes ofensivas no intuito de obter melhor posicionamento para estabelecer um front de batalha.

Capacete encontrado no sítio arqueológico de Carspach

Capacete encontrado no sítio arqueológico de Carspach

Todavia, nos interessa o período da Guerra de Trincheiras, que compreendeu as anos de 1915 à 1918, quando os países membros da Tríplice Entente ( França, Inglaterra e Rússia) passaram a compor o grupo dos “ALIADOS”, junto com o Japão, Romênia e Grécia, enquanto a Tríplice Alianca (formada pela Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália) formaram o grupo das “POTÊNCIAS  CENTRAIS”, junto com o Império Turco-Otomano e a Bulgária.

A partir de então, as batalhas estariam divididas entre o Front Ocidental, no qual uma série de trincheiras separavam os dois exércitos Desde Nieuwport (ao norte), passando por Reims, Verdum e terminando em Pfetterhouse (mais ao sul), conforme mostra o mapa a seguir:

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O caso de Carspasch

A cidade de Carspasch está situada justamente importante região da Alsácia e foi lançada em meio ao turbilhão desta guerra já desde os primeiros momentos, quando era previsto uma invasão alemã sobre a França, segundo o Plano Shlieffen, que previa a conquista deste território em meras seis semanas. Contudo, a guerra não teve seu desenvolvimento rápido como o esperado e terminou por chocar toda a população europeia com sua longa duração e inimaginável poder destrutivo.

No ano de 1918, 34 membros do 94º Regimento Reserva de Infantaria, da 6ª Companhia do exército alemão estavam situados próximos à cidade de Carspash, em uma trincheira que sofreu o bombardeio de minas aéreas francesas, as quais penetraram o subsolo do lugar e derrubaram a parede lateral do abrigo em dois pontos, matando todos os soldados asfixiados sob uma montanha de lama.

Entretanto, treze membros do regimento se encontravam em um túnel de cerca de 92m de comprimento, que se localizava a quase 6m de profundidade da superfície, em um espaço dotado de capacidade para abrigar 500 homens e preparado com 16 saídas. Além disso, o lugar era equipado com aquecimento, conexões de telefone, eletricidade, camas e sistema de encanamento de água.

Detalhes que revelam uma arma com empunhadura preservada (à esquerda) e bolsa (à direita)

Detalhes que revelam uma arma com empunhadura preservada (à esquerda) e bolsa (à direita)

A maior parte destes soldados foi descoberta em posição sentada sobre um banco de madeira, já outro deles estava deitado sobre sua cama ao passo que o último foi descoberto em posição fetal após, possivelmente, ter sido jogado por um lance de escadas pelo impacto da explosão. Junto aos corpos, foram encontrados objetos pessoais com impressionante qualidade de preservação como botas, capacetes, garravas de vinho, óculos, carteiras, canos, maços de cigarros e livros de bolso.  Além disso, é possível notar a presença de partes da madeira do assoalho, escadas e paredes perfeitamente resguardados do tempo, assim como a surpreendente presença do esqueleto de uma cabra. Fato que pode ser explicado pelo fato de provavelmente o animal ser mantido pelos soldados dentro da trincheira como importante fonte de leite fresco.

Trincheira alemã perto Aspach com nichos construídos e escudos blindados. FOTO – H. Hildenbrand, col T. Ehret, Ehret Stuttart em 1988, p 125.

Trincheira alemã perto Aspach com nichos construídos e escudos blindados. FOTO – H. Hildenbrand, col T. Ehret, Ehret Stuttart em 1988, p 125.

A escavação do sítio arqueológico ficou sob coordenação do especialista em arqueologia e responsável pelo Departamento de Arqueologia da Universidade do Reno (França)  na região da Alsácia e Lorena, Michaël Landolt que, em reportagem para Dailymail, afirmou que a possível explicação para o ótimo estado de conservação do material resulte do soterramento ter ocorrido em questão de segundos e terminado por impedir a entrada de ar, água ou luz. Com isso, este espaço se transformou em “câmara do tempo” e, por manter até mesmo a posição em que se encontravam as vítimas, levou os pesquisadores a retomarem a referência história da cidade de Pompéia; na qual a erupção do vulcão Vesúvio estabeleceu um isolamento e preservou tudo que havia na cidade.

Coldre preservado

Coldre preservado

“Objetos de metal estavam enferrujados, a madeira em boa condição e nós encontramos páginas de jornal que ainda podiam ser lidas. O couro estava em boas condições, também, ainda flexível.” (Michaël Landolt, em entrevista para Dailymail)

Durante o processo de escavação, todos os itens foram levados para um laboratório para serem limpos, examinados e, em seguida, foram acondicionados em um Museu. Os corpos dos combatentes, por sua vez, foram entregues para a Comissão Alemã de Túmulos de Guerra e se encontram no cemitério de Guerra, na cidade em Illfurth, onde permanecerão a não ser que os familiares sejam encontrados para realizar o requerimento de repatriamento dos corpos.

Desfecho do conflito

Trincheira alemã e abrigo na Alta Alsácia que, segundo Landolt, revela a técnica de construção que combina madeira, possivelmente placas de metal e lona. Photo H. Hildenbrand, Stuttgart dans Ehret 1988, p. 125, fig. 1

Trincheira alemã e abrigo na Alta Alsácia que, segundo Landolt, revela a técnica de construção que combina madeira, possivelmente placas de metal e lona. Photo H. Hildenbrand, Stuttgart dans Ehret 1988, p. 125, fig. 1

A Grande Guerra chegou ao fim em novembro de 1918, quando o Kaiser Guilherme II renunciou e os membros do governo da República de Weimer, então instalado no poder, assinaram o Tratado de Versalhes, em 1919. Com isto, a Primeira guerra Mundial deixou o solde de cerca de 9 milhões de mortos e 30 milhões de feridos, fato que causou enorme trauma à todos os envolvidos e ficou reificado nos 14 pontos do Plano de Paz, proposto pelo então presidente norte-americano, Woodrow Wilson, o qual defendia a ideia de estabelecer uma “paz sem vencedores”.

Além da destruição, este conflito impulsionou um enorme desenvolvimento tecnológico que, infelizmente, demonstrou a capacidade do homem e desenvolver novos meios de ceifar vidas em grande escala. Contudo, este foi apenas o início de um século marcado por enorme quantidade de contendas e foi denominado, pelo historiador Eric Hobsbawn, como uma ERA DOS EXTREMOS.

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Panorama do cemitério de Illfurth

Nomes dos soldados: Musketeer Martin Heidrich, 20, Private Harry Bierkamp, 22, and Lieutenant August Hutten, 37,

Estima-se que mais de 165.000 Commonwealth soldiers are still unaccounted for on the Western Front.

Até mais, cabeçudinhos!

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Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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