Os guerreiros de Micenas: a origem dos gregos

Os guerreiros de Micenas: a origem dos gregos

A civilização micênica é considerada pelos historiadores uma das influências diretas para a formação dos aspectos sócio-culturais da Grécia Antiga. Isto porque, por volta de 1500 a.C., esta sociedade entrou em um largo processo expansionista e conquistou as regiões do Mar Egeu, Creta e o Mar Negro.

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Maquete (ou o tal Diorama) que representa o sítio arqueológico da cidade de Micenas.

Maquete (ou o tal Diorama) que representa o sítio arqueológico da cidade de Micenas.

Tal fato deu origem a um processo de aculturação (historiadores sentando a lenha em 3,2,1…) e favoreceu a organização de uma cidade que, além do imperialismo, desenvolveu práticas comerciais marítimas e teve próximo contato com os mercadores fenícios. Este contato cultural possibilitou a formação do alfabeto fonético grego (caracterizado pela inserção das vogais), o qual facilitou a organização das práticas comerciais desta civilização.

A Armadura micênica de Dendra

A famosa armadura de Dendra, encontrada na região do Peloponeso. Fonte: www.ancient.eu

A famosa armadura de Dendra, encontrada na região do Peloponeso.
Fonte

Durante a década de 1970, um achado arqueológico, na pequena cidade grega de Dendra, deixou os arqueólogos especialistas e batalhas em estado de polvorosa. Uma armadura completa, feita em placas de bronze foi recuperada de um túmulo que remontava à cultura micênica e oferecia informações muito mais completas sobre o sistema de batalhas que marcaram a Era do Bronze.

Micenas e sua origem

Entre historiadores e arqueólogos existe um claro consenso de que a civilização grega resulta a origem de grande parte das estruturas sociais e culturais do Ocidente, entretanto, pouco se costuma falar sobre a origem deste fantástico povo situado na região dos Balcãs e sobre os primeiros povos que vieram a se estabelecer nestas diversas ilhas, em busca de sobrevivência. Uma região em grande parte inóspita, marcada pela presença de vulcões e entrecortada pelo Mar Egeu, na qual o cultivo de olivas e parreiras passou a ser praticado em larga escala e, posteriormente, veio a propiciar o enorme desenvolvimento comercial de seus habitantes.

A primeira organização de um grande grupo humano veio a ser encontrado na milenar cidade de Micenas, fundada por imigrantes aqueus na região do Peloponeso. Uma península no sul da atual Grécia, que se encontra naturalmente protegida pela cadeia de montanhas das colinas de Argolide (fato dificultava a ocorrência de invasões) e cujo solo resulta extremamente fértil devido à deposição de elementos advindos da atividade vulcânica. Fato que tornou o solo escuro da região rico em “pó de rocha” e possibilitou o estabelecimento de um pH equilibrado e fortificou as plantas, umas vez que foi associado com a matéria orgânica, assim como diminuiu a ocorrência de pragas nas plantações.

Fundação: História e mitologia

Situado em uma colina com cerca de 50 m de altura, o centro urbano micênico era o ponto de comando para uma área de aproximadamente 15 Km e representou um dos pontos iniciais para a organização social grega.

No sítio arqueológico de Micenas podemos encontrar um povoamento cuja origem remonta a cerca de 1900 a.C., quando a tribo dos aqueus se estabeleceu nesta região e deu início a um processo de sedimentação, após expulsarem os agrupamentos Pelágios  que ali viviam. Desde então construíram uma poderosa fortificação, cercada por enormes muralhas na qual oficinas do palácio real chegaram a reunir aproximadamente 400 artesãos destinados a produzir cobre e bronze

A Porta do Leão, que marca a entrada para Micena.

A Porta do Leão, que marca a entrada para Micena.

Todavia, segundo a mitologia helenística (ou grega, se preferirem) aponta que a cidade teria sido fundada por Perseus, que nomeou o lugar após a bainha de sua espada (mykes) cair ao chão – fato por ele considerado um bom presságio. Outro mito aponta que o nome viria, na verdade no momento em que este mesmo herói teria encontrado uma fonte de água potável próximo a um cogumelo (mykes). Assim Perseu deu continuidade a sua dinastia, que teve fim com Eurytheus, o qual teria desafiado Hércules a realizar os famosos 12 trabalhos.

Mapa da Grécia Antiga. Ao lado direito você pode ver um "zoom" da região do Peloponeso, que revela Micena ao leste de Coríntio.

Mapa da Grécia Antiga. Ao lado direito você pode ver um “zoom” da região do Peloponeso, que revela Micena ao leste de Coríntio.

Por volta de 1450 a.C, este grupo desenvolveu um poderoso comércio marítimo após conquistar a decadente civilização minoica da ilha de Creta – a qual se recuperava de um terremoto. Conhecidos como grandes navegantes, este povo contribuiu com seus conhecimentos sobre astronomia, forja e escrita para a construção da civilização creto-micênica, que deu início a um processo de conquista imperialista sobre a região de Creta, do Mar Egeu e, por fim, do Mar Negro.

Esta história pode ser encontrada no conto épico de Homero, a Iliada, no qual a batalha de Tróia é descrita, com aspectos fantásticos típicos da mitologia grega, como a maior já presenciada pelo homem. De qualquer maneira, esta cidade é sempre indicada como dotada de enorme riqueza de Micenas. Fato que é corroborado pelos 15 kg de objetos feitos em ouro, retirados posteriormente do sítio arqueológico, assim como os resquícios de navios afundados, que sugerem uma enorme rede de comércio que envolvia contato com os egípcios, mesopotâmios e antigos povos da região da Itália.

Ainda segundo a Ilíada, os sucessores do semideus Perseus teriam sido membros da dinastia fundada por Atreu, cujo filho Agamemnon se pretendeu rei de todos as tribos Archaean – que contavam com o Eólios, Jonios e Dórios. Tendo governado aproximadamente em 1250 a.C., este rei marcou o início do processo de decadência deste povo, ao liderar uma expedição até Tróia, para recapturar sua rainha cativa: Helena. Fato que, na verdade, estaria muito mais relacionado ao interesse imperialista dos creto-micênicos, em obter terras férteis, controle sobre rotas comerciais, busca por metais preciosos e aprisionamento de escravos.

De qualquer forma, esta civilização entra em declínio, após a guerra de Tróia que, por deixa-la enfraquecida, possibilitou a conquista do seu território pelos dórios, que contavam com a avançada tecnologia do ferro. Tal fato causou o que os historiadores chamam de a Primeira Diáspora Grega e resultou em um processo de ruralização, o qual acarretou uma nova organização social, pautada nas comunidades gentílicas.

O Sítio arqueológico

Os primeiros estudos arqueológicos na região começaram em meados do século XIX, pela iniciativa da Archelogical Society of Athens (1841) e foram continuados por Henrich Shiliemann que, em 1876, descobriu os magníficos tesouros do cemitério circular de Atreus.

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Foto publicada no site especializado ancient.eu, por Mark Cartwright, em 2012 que revela a entrada de um dos túmulos de Atreus

Contudo, as escavações demonstraram que a cidade tem uma história muito mais antiga do que é descrito na literatura grega e revelaram cerâmicas e túmulos datadas de 2100 a.C., que contavam com objetos importados de ilhas próximas. A acrópole – grande fortificação da cidade, onde viviam os membros da elite desta sociedade – parece ter sido construída em 1600 a.C. e contava com cerâmica de altíssima qualidade, pinturas murais e grandes túmulos com formato arquitetônico similar aos que quais haviam sido encontrados por Shiliemann.

Durante o apogeu desta cidade, em 1400 a.C. percebemos a construção do primeiro grande complexo de palácios sobre três terraços artificiais, além da construção de um longo corredor com 36m de comprimento e 6m de altura, que marcava a entrada da acrópole. Este corredor era uma forma de defesa, onde qualquer invasor precisaria percorrer esta distância sob intensa saraivada de flechas, para atingir o interior da construção.

O Cemitério Micênico de Dendra ocupa a porção sudoeste de uma pequena colina da cidade e suas escavações tiveram inicio na primavera de 1926, pelo arqueólogo Axel W. Persson e, pelos anos seguintes, diversos pesquisadores se dedicaram a explorar este espaço e obtiveram importantes informações a respeito do processo de sepultamento, assim como sobre a complexa estrutura social deste povo pré-homérico. Nestes lugares foram recolhidos objetos como jóias, pedras preciosas, armas, fementas e utensílios feitos em ouro, prata, cobre, vidro alabastro, marfim e outras pedras semi-preciosas.

Entrada do sítio arqueológico de Dendra.

Entrada do sítio arqueológico de Dendra.

Táticas de Guerra

Datada entre 1450 e 1400 a.C, esta armadura foi encontrada em um complexo de tumbas, situado na cidade de Dendra, próximo à Micena, e surpreendeu os pesquisadores por sua composição complexa, dotada de diversas partes. Estas, apresentavam resquícios de couro no seu interior, assim como furos de 2mm -pelos quais possivelmente uma tira de couro era passada, como forma de uní-las. Tal tipo de armadura é denominado PANOPLY.

Ao que tudo indica, esta armadura de infantaria estava destinada à defesa de golpes de balanço (com armas como espadas ou adagas) do que para golpes perfurantes como os de lança, conforme afirma o militar italiano, veterano no Beirute, Andrea Salimbeti. Neste sentido, este autor indica que esta armadura conta com um peso entre 15kg e 18 kg.

Contudo, outras escavações (como na cidade de Thebas) parecem indicar a existência de outras formas para esta armadura, que poderia ter apenas uma ombreira utilizada pelo guerreiro, assim como versões que cobrissem áreas menores.

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Desenho feito pelo ilustrado Igor Dzis para um artigo produzido por Andrea Salimbeti, em parceria com Raffaele DÁmato, em uma edição da revista ANCIENT WARFARE (2009).

Da esquerda para a direita podemos perceber três armaduras diferentes do modelo de Dendra, encontradas em sítios arqueológicos em Thebas. Com base em muitos documentos imagéticos da antiguidade, este autor procura reconstruir o funcionamento da guerra deste período histórico e contrapões perspectivas de profissionais, da área, que falam sobre o uso de armaduras de couro. Ao mesmo tempo, existem resquícios que indicam a inserção do material em bronze nas armaduras de couro, como forma de aumentar a proteção de regiões específicas.

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A imagem apresenta, também fragmentos de espadas, lanças cerâmicas e machados de outras cultura. Fonte: National Museum of Transylvanian History e Wikimedia Commons

 À esquerda podemos ver uma espada de bronze micênica, encontrada em Dumbrãvioara, na Romênia.

Além disso, as armaduras contavam com um elmo feito em tiras de couro, revestido com desntes de javali e, como meio de defesa básico, estes soldados contavam com a curta espada de uma mão (e, por vezes, a longa lança) sem nunca abrirem mão de seu escudo.

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Espada e lanças micênicas.

As lanças variavam em seus tipos de pontas devido a funcionalidade para lançamentos ou golpes de perfuração à distâncias. A espada cruciforme apresenta lugares na empunhadura onde eram introduzidos marfim, ossos ou madeira para revestir o metal.

Nesta ordem, as armaduras de bronze tiveram uso largo a partir do século XV a.C. dentre os povos pré-homéricos e eram muito mais eficientes que suas antecessoras lorigas de couro. Um símbolo de prestígio, este material sofreu melhorias que o transformaram em uma armadura menor e mais cômoda para seus usuários e suas formas variavam conforme a necessidade dos mesmos. Por isto, estes soldados de elite apresentavam proteções completas, como a apresentada no inicio, ou mesmo proteções que cobriam um ombro, os dois ombros (conhecida como yuaha) ou toda parte do peitoral.

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Espadas curtas micênicas

Em um período onde as batalhas eram feitas por uma infantaria corajosa e bem preparada, as armaduras eram elemento imprescindível para possibilitar a vitória contra invasores. Seja como for, o sistema de armadura com placas de metal estava longe de ser abandonado e, com o passar dos séculos viria a sofrer novas modificações, para atender a necessidade de seus usuários em batalha, assim como protegê-los nos variados campos de batalha

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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