Amores que marcaram a História Adriano e Antínoo – TODO MUNDO AMA!

Amores que marcaram a História Adriano e Antínoo – TODO MUNDO AMA!

A história de Adriano e Antínoo é repleta de mistérios e lendas que reforçaram a sua presença na memória do Ocidente  e foi apropriada como importante referência histórica do imaginário de comunidades homosexuais. Isto porque este conto é um dos poucos que valoriza o amor incondicional entre dois homens, os quais se entregaram de corpo e alma numa relação, sem jamais esconderem suas orientações sexuais.

Esta história se passou durante o segundo século da era cristã e foi protagonizada pelo imperador romano Adriano, que esteve responsável pelo governo deste vasto império em seu momento de maior extensão territorial  e teve seu nome vinculado a importantes medidas de governo como ter organizado as províncias imperiais, compilado o primeiro esboço de leis chamado Edito perpétuo (o qual serviu de base para a criação do porsterior Codice Jurus Civilis, de Justiniano) e incentivado a arte, filosofia, literatura educação. Além do mais, procurou oferecer estrutura à práticas agrícolas, cuja produção seria destina às províncias imperiais, onde seriam comercializadas.

A Vila Adriana é um grande jardim utilizado pelo imperador como um retiro e repleto de estátuas, retábulos e edificações que honamentam com espelhos d´água.

A Vila Adriana é um grande jardim utilizado pelo imperador como um retiro.

Adriano é considerado um dos imperadores da Dinastia Nerva-Antonina, que governou entre 96 e 193 e ficou marcada como o apogeu do Império Romano, uma vez que a grande habilidade administrativa destes condutores foi acompanhada por práticas políticas conciliatórias, que os aproximaram do Senado e favoreceram enorme desenvolvimento comercial. Por este motivo, estes homens ficaram conhecidos os imperadores adotivos, devido a maior parte de seus membros terem sidos legalmente adotados por seus antecessores – como foi o caso de Adriano, que teve Trajano como seu guardião.

Close up de estátua em bronze que representa o Imperador Trajano, no Museum of Anatolian Civilizations (Ankara - Turquia)

Close up de estátua em bronze que representa o Imperador Trajano, no Museum of Anatolian Civilizations (Ankara – Turquia)

A prática da adoção era muito comum entre os governantes romanos e contava com enorme valor político, já que o apadrinhado deveria dar continuidade ao governo de seu tutor. Para citar um exemplo de prática da adoção, podemos apontar Júlio Cesar que assumiu seu sobrinho, Caio Otávio Augusto, o qual é considerado o  governante responsável por dar início ao período imperial romano, Ademais, Augusto procurou identificar sua imagem de imperador como devoto e estudioso das artes, da mesma forma que a vinculou ao culto de Apollo. É importante lembrar que não havia nada mais sagrado para o romano do que o MOS Maiorum (“costume ancestral”), que coloca a tradição como baluarte da relação familiar/afetiva e reflete na constante busca por honrar o nome de seu  patre – “pai”.

Otávio Augusto foi o primeiro imperador de Roma e ficou conhecido por associar  o título "divino" (Augustus) aos títulos do imperador. Além disso, o historiador Paul Veyne relacionou a prática da política do  "Pão e Circo" (Panis et Circensis" a este governante. Nesta imagem ele se encontra retratado como Pontífex Maximus,

Caio Otávio Augusto foi o primeiro imperador de Roma e ficou conhecido por associar o título “divino” (Augustus) aos títulos do imperador. Além disso, o historiador Paul Veyne relacionou a prática da política do “Pão e Circo” (Panis et Circensis” a este governante. (12 a.C. – Museo Nazionale Romano)

De qualquer forma, o primeiro contato entre Adriano e Antínoo teria ocorrido em 123 d.C, quando o imperador já contava com 47 anos – período em que decidiu introduzir a moda do uso de barba e romper com a tradição estética estabelecida por Julio César.- durante uma viagem por Claudinópolis. Momento em que Antínoo foi adotado como pajem da Corte Nicomedia e levado para Roma, onde passou a realizar estudos.

Contudo, segundo apontam alguns entusiastas da história deste casal, somente em 128 os dois teriam se apaixonado, em meio a uma longa viagem pela Grécia, Ásia Menor e Norte da África. Desde então, Adriano e Antínoo eram sempre vistos juntos até que, em 130, o corpo do jovem pajem é encontrado no Nilo e levado até o imperador – tudo que se sabe é que uma embarcação estava em falta no ancouradouro.

Estátua em mármore que representa ANtínoo como Dionísio, no Museu do Vaticano. A beleza deste personagem sempre foi muito exaltada na História.

Estátua em mármore que representa Antínoo como Dionísio, no Museu do Vaticano. A beleza deste personagem sempre foi muito exaltada na História.

A morte de Antinoo é envolta é grande mistério e, com o passar do tempo, foram construídas diversas hipóteses sobre sua morte, como por exemplo, ter sido vítima de um ataque de piratas do Nilo, ou ter sido presa de sua própria falta de habilidade em navegação. Outros autores, ainda indicam que o pajem estaria passando por uma depressão – fato que sugere a prática do suicídio.

Seja como for, este fato trouxe enorme tristeza para seu amante, que decidiu elevá-lo à condição de divindade e ordenou a cunhagem de moedas com a efígie do jovem e, finalmente, a construção de uma cidade em homenagem ao seu amado. Com o passar do tempo, o virtuoso Adriano terminou, segundo os relatos, a desenvolver profunda depressão e agir de forma errática, que era acompanhada por acessos de fúria. Algo que refletiu em pesada perseguição aos seus adversários políticos, ordenar o assassinato de familiares acusados de traição e a repressão violenta de revoltas. Como foi o caso de uma revolta judaica, 134, que terminou com o massacre de 1000 povoamentos e a construção de um templo politeísta romano sobre o local onde estivera o Templo de Salomão.

O Teatro Marítimo é uma parte especial dentro da Villa criada por Adriano, onde este governante costumava passar horas em reflexão.

O Teatro Marítimo é uma parte especial dentro da Villa criada por Adriano, onde este governante costumava passar horas em reflexão.

Em 138 Adriano faleceu em Nápoles e a história de seu amor com Antínoo continuou a ser lembrada pelas pessoas até que, durante o século IV o patriarca da cidade de Alexandria, Atanásio (295-373) realizou um discurso, no qual considerava a relação entre os amantes “antinatural”, assim como o culto à Antínoo um ato de idolatria e, por esta razão, uma heresia a ser perseguida. Até então, a prática homossexual não costumava ser repreendida da forma como o é até hoje.

Tanto que, segundo o Museu Britânico, estas representações podiam ser encontradas em grande quantidade na forma de cerâmicas, lâmpadas de terracota e pinturas em prédios privados e públicos. Tais obras retomam a cosmogonia da mitologia grega, como resultado da influência da estética hedonista. Além disso, o uso de representações do ato sexual é parte constante nos registros encontrados. Portanto, não fique chocado com a imagem a seguir (se é que há um motivo):

Destalhe da famosíssima Taça Warren, do período romano, que retrata, com cenas íntimas, o mito de amor entre Erástenes e Eromenes.

Detalhe da famosíssima Taça Warren, do período romano, que retrata, com cenas íntimas, o mito de amor entre Erástenes e Eromenes.

Todavia, este evento jamais seria completamente esquecido e foi retomado em diversos períodos, por autores, intelectuais e contos populares. Como foi o caso dos teóricos absolutistas Jean Jaques Bossuet que aponta esta relação como “abominável”. Já Maquiavel viu na forma de governo de Adriano um modelo de virtude para “O Príncipe”. Em 1951, a autora francesa Marguerite Youcenar escreveu um romance de livre interpretação chamado “Memórias de Adriano”, no qual cria romance focado nesta intrigante relação amorosa.

Estátua de Adriano descoberta há pouco tempo na Turquia, restaurada pelo arqueólogo belga Marc Waelkens. Fonte:    Cornucopia Magazine http://www.cornucopia.net/magazine/articles/the-man-who-rescued-hadrian/

Estátua de Adriano descoberta há pouco tempo na Turquia, restaurada pelo arqueólogo belga Marc Waelkens. Fonte: Cornucopia Magazine

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PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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2 Comments

  1. O Casal Homoafetivo: esta “novidade” antiguíssima! | diversidade100fronteiras
    O Casal Homoafetivo: esta “novidade” antiguíssima! | diversidade100fronteiras2 years ago

    […] Esta história se passou durante o segundo século da era cristã e foi protagonizada pelo imperador romano Adriano, que esteve responsável pelo governo deste vasto império em seu momento de maior extensão territorial  e teve seu nome vinculado a importantes medidas de governo como ter organizado as províncias imperiais, compilado o primeiro esboço de leis chamado Edito perpétuo (o qual serviu de base para a criação do porsterior Codice Jurus Civilis, de Justiniano) e incentivado a arte, filosofia, literatura educação. Além do mais, procurou oferecer estrutura à práticas agrícolas, cuja produção seria destina às províncias imperiais, onde seriam comercializadas.” (http://paleonerd.com.br/2015/06/11/adriano-e-antinoo-todo-mundo-ama/) […]

    • PaleoNerd
      PaleoNerd2 years ago

      Valeu por apontar a referência! =D