França [carioca] Antártica – 1558-1559

França [carioca] Antártica – 1558-1559

A primeira coisa a dizer: França Antártica foi a denominação dada pelos franceses, quando estabeleceram um povoamento na região da Baía de Guanabara (RJ) em meados do século XVI. – E NÃO UMA CERVEJA!

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A esquadra de Duclerc alinhada na baía de Guanabara: sem resistência das forças locais. FONTE: FAPESP

Os séculos XVI e XVII no Brasil não foram nada tranquilos para os conquistadores portugueses. A formação da União Ibérica (que uniu os impérios português e espanhol sob a regência de Felipe II, da Espanha) e o processo de conquista das terras do Novo Mundo refletiam diretamente sobre a situação política, militar e econômica das colônias. Em poucas palavras, a coisa não estava fácil para os portugueses!

No Brasil, a instauração do Governo Geral, em 1530, dividiu o território nas famosas CAPITANIAS HEREDITÁRIAS e distribuiu-as entre nobres portugueses que se prontificassem a investir enormes quantias de dinheiro para explorar as novas terras. Denominados donatários, estes homens recebiam dois  documentos importantes: a carta de doação (conferia o direito de administrar e explorar as capitanias) e forais (leis que garantiam os direitos e deveres dos donatários).

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Capitanias hereditárias (Luís Teixeira. Roteiro de todos os sinais…, ca. 1586. Lisboa, Biblioteca da Ajuda FONTE: WIKIMEDIA

Estabelecidos em terras desconhecidas, os donatários eram incumbidos de defender a terra, criar vilas, distribuir lotes de terra (chamados sesmarias), exercer a autoridade jurídica sobre a sua capitania e garantir um continua extração de pau-brasil. Além disso, era preciso lutar contra os indígenas rebeldes, incentivar a busca por metais preciosos e defender a terra.

Eram funções que não acabavam mais e tudo ficava ainda mais tenso com as constantes tentativas de invasões de esquadras inimigas de piratas ou organizadas por Estados europeus, para obter o controle da exploração das novas terras.

Para entender melhor de que maneira ocorria o apoio financeiro e militar de reinos da Europa à corsários (piratas) na costa brasileira, o principal órgão de pesquisa do país – FAPESP – apoiou a pesquisa de uma equipe liderada pelo professor Jean Marcel Carvalho França da UNESP – Franca. Neste sentido, a equipe conseguiu elaborar poderosa defesa para a ideia de que  o suporte dado por reinos europeus à estes piratas pode ser interpretada como uma forma utilizada para contestar a divisão do Novo Mundo realizada  somente entre Portugal e Espanha.

JEAN MARCEL CARVALHO FRANÇA - FONTE: Revista Galileu

JEAN MARCEL CARVALHO FRANÇA – FONTE: Revista Galileu

Por meio da análise de documentos sobre personagens e momentos específicos, que marcaram o fim do século XVI e a primeira metade do século XVII, estes pesquisadores encontraram exemplos de expedições organizadas com o objetivo de invadir regiões coloniais e saquear navios ibéricos. Como foi o caso do inglês Thomas Cavendish (conhecido como “franco ladrão dos mares”) que realizou diversas incursões pela costa brasileira, ou a série de invasões holandesas à Capitania de Pernambuco. Mas, para nós, interessa agora entender um pouco melhor sobre a invasão dos franceses nesta região.

Como podemos perceber a presença de estrangeiros era uma constante na colônia, devido as dificuldades que os portugueses tinham em patrulhar a costa brasileira e, por esta razão, encontramos diversos vestígios sobre a presença de franceses na região do Cabo Frio, onde costumavam manter a velha prática do escambo com seus aliados Tamoios e Tupinambás.

Representação do ato da antropofagia entre tupinambás. Gravura de Théodore de Bry, 1562

Representação do ato da antropofagia entre tupinambás. Gravura de Théodore de Bry, 1562 FONTE: WORDPRESS

Como o “malandrinho” Nicolas Durand de Villegagnon, que desde meados do século XVI, passeava por nossa costa e retornava para seu país com enormes lucros em pilhagens. Em 1555, com apoio real e uma tripulação composta por presidiários que se voluntariavam para este tipo de trabalho, Villegagnon conquistou a Baía da Guanabara (RJ), com objetivo de fundar uma poderosa base militar e colonizar as terras do Novo Mundo. Em seguida, ordenou a construção do Forte Goligny – nomeado em homenagem ao seu superior hierárquico Gaspar de Coligny –  estabeleceu o que ficou conhecido como a França Antártica.

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Pintura de Gaspar de Coligny – FONTE: HENRI IV: Le règne interrompu

Gaspard de Coligny foi um nobre e corsário que havia organizado uma expedição de protestantes hungueontes (religiosos de orientação calvinista) no Brasil, a qual deixara a cargo de seu amigo pessoal e colega de marinha, Nicolas Durante de Villegaignon. Todavia, conflitos sobre interpretações da doutrina calvinista entre o último e seus hóspedes, levaram-no a expulsar o grupo e executar os que ficaram. Posteriormente, esse mesmo cara do cavanhaque aí liderou um uma revolta hungeonte, contra o domínio espanhol na Holanda, entre 1562-1575. A Holanda só veio declarar a independência alguns anos depois, em 1581. Em outro post explicaremos melhor sobre o processo de independência da Holanda acerca do comércio açucareiro no Brasil.

Fundação da Cidade do Rio de Janeiro: Mem de Sá entrega as chaves da cidade ao alcaide e nomeia o Senado da Câmara o mais pessoal da administração. FONTE: WIKIPEDIAAcima, a representação da conhecida (e grande! 2mX3m) pintura de Antônio Firmino Monteiro, “Fundação da Cidade do Rio de Janeiro”, na qual Mem de Sá entrega as chaves da cidade ao alcaide e nomeia o Senado da Câmara o mais pessoal da administração. O quadro foi realizado entre 1855 e 1888, quando o país passou por um importante momento de formação de um ideário nacional.  FONTE: WIKIMEDIA

Mem de Sá, o Governador Geral na colônia neste período ordenou a retirada dos franceses em 1559 estes o atendessem. A partir de então, o Governador designou seu sobrinho, Estácio de Sá, para reunir o apoio das tropas tupi-guaranis e expulsar seus adversários. A participação dos indígenas foi fundamental para a vitória portuguesa, algo que é uma ironia, já que Mem de Sá ficou conhecido por ter desenvolvido uma grande política de terror entre as tribos – como forma de agradecimento, talvez… ¬¬.

2012092597519Gravura “Batismo”, encontrada em artigo que conta a história do nome dado à este lugar. FONTE: O GLOBO

De qualquer maneira, Estácio de Sá ordenou a construção da Fortaleza de São João, aonde viria a ser fundada a futura cidade de São Sebastião, no Rio de Janeiro.

Este, meus caros, é apenas um exemplo das lutas que marcaram a história do Brasil Colonial e espero que este texto ajude vocês a perceberem que a nossa história está repleta de interessantes situações que nem imaginamos! Por isso, não podemos querer dizer que temos uma história chata ou (pior) menos importante do que as intrigas apresentadas durante as aulas de História Geral.

O que nos falta é ver a garotada realmente ingressada em aprender sobre isso para começar a fazer os próprios filmes e jogos que tanto gostamos de ver. Se pegássemos só o Além do Butim, já poderíamos fazer um jogo muuuito melhor que “The Order” ou uma série muito mais “louca” que Piratas do Caribe.

Pensen nisso!

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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