O Rei “Sem Noção” e a Carta Magna

O Rei “Sem Noção” e a Carta Magna

A Magna Carta completa esta semana 800 anos, considerada um dos mais importantes documentos da história e serviu de inspiração para milhares de pessoas! Mas, você sabe porque essa birosca é tão importante!?!

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Pintura que representa o rei João sem terra, apresentada no teaser de chamada para exposição da Biblioteca Britânica

Bom, galera, para podermos entender a “relevância” (falei bonito hein!) deste documento histórico, é preciso lembrar que no século XII a Inglaterra passava por um processo de fragmentação do poder político e sob o governo de um Rei muito impopular, apelidado de João Sem Terras (você já já vai entender o porquê) que havia assumido o posto de seu irmão Ricardo I que estava ausente, no período das Cruzadas.
O então rei Ricardo I (também conhecido como Coração de Leão) tinha saído para dar um “rolê” na 3ª Cruzada (1189-1192) junto com os reis da França e do Sacro Império Romano. Sabe como é, matar uns mouros, reconquistar Jerusalém e saquear umas cidades. Acontece que, para isso, ele decidiu esvaziar os cofres do reino e juntar “O” exército inglês!
No meio dessa viagem, ele acabou arrumando uma “indisposição” com o rei do Sacro Império (seu exército saqueou uma cidade nos reinos de seu aliado…), chegou a Jerusalém e conseguiu até ficar conhecido como um herói. Contudo, na viagem de volta, uma tempestade forçou seu barco a aportar no território do Sacro Império e o bonitão acabou sendo preso por 1 ano e 4 meses. Ao retornar à Inglaterra depois de cumprir a pena, decidiu partir logo em seguida para defender as fronteiras com a França, onde morreu em batalha.
One of four surviving copies of the 1215 Magna Carta. This copy is one of two held at the British Library. It came from the collection of Sir Robert Cotton, who died in 1631. In 1731, a fire at Ashburnam House in Westminster, where his library was then housed, destroyed or damaged many of the rare manuscripts, which is why this copy is burnt.

Uma das cópias da Magna Carta (1215), que se encontra na British Library. FONTE: WIKIMEDIA

A memória de Ricardo como um paladino da justiça e da verdade (quem joga RPG entendeu!)  ficou muito presente em função da lenda de Robin Hood que, depois de surgir nessa época, nunca mais foi esquecida. Para quem não conhece a história, Robin Hood foi um salteador (palavra chique para bandido de beira de estrada) justo e honrado que teria vivido durante o período de ausência de Ricardo I, quando os senhores locais governavam como bem entendiam. Por este motivo, este herói roubava dos ricos para distribuir as riquezas entre os mais pobres.

Uma história tão conhecida só poderia ir parar no cinema. E foi o que aconteceu!
Em 1938 foi criada a primeira vesão cinematográfica com o título “As Aventuras de Robin Hood” que fez um BAITA SUCESSO com as super sequências de batalhas do bonitão e sorridente Errol Flyn, que até mesmo a Disney fez uma versão animada desse conto e, mais recentemente, foi lançado o filme. Em 1973, o grande mestre das animações norte-americanas Wallt Disney criou a animação “Robin Hood”, na qual João é representado como um leão (em referência ao seu irmão) mimado, egoísta e ganancioso.
Fonte: Trak.TV

Fonte: Trak.TV

Depois disso, em 1991, este papel serviu passou para as mãos do galã (hoje ele é um velhão para vocês, mas o cara já foi TOP de Hollywood) Kevin Costner e, finalmente, em 2010, o papel foi interpretado por Russell Crowe, em uma versão que tentar ser mais “realista” nas representações de indumentária e batalha medieval. De qualquer forma, é bom lembrar que ROBIN HOOD NUNCA EXISTIU!
Cena de Robin Hood, de 2010. Olha aí o bonitão com uma indumentária que revela uma loriga de couro - proteção muito utilizada por arqueiros medievais por ser mais leve e não impedir os movimentos.

Cena de Robin Hood, de 2010. Olha aí o bonitão com uma indumentária que revela uma loriga de couro – proteção muito utilizada por arqueiros medievais por ser mais leve e não impedir os movimentos. Afinal, se você já jogou algum RPG, sabe que não dá pra ficar com uma FULL PLATE, sendo um arqueiro… dã!

Em meio a tudo isso, este rei ficou quase DEZ ANOS longe do seu reino e este fato possibilitou o fortalecimento do poder de nobres barões (senhores feudais), os quais não gostaram nadinha da ideia do irmão mais novo do rei ser colocado no poder. Tanto que colocaram-no o apelido de “João Sem Terra”, por causa deste irmão mais novo de Ricardo não ter direitos legais sobre o trono, ou seja, era herdeiro de TERRA NENHUMA!
E aí que tá o problema: quando João herdou o poder real, logo começou a tomar atitudes desmedidas (“sem noção”) como ordenar a prisão e execução de seu rival político – seu sobrinho. Além disso, decidiu aumentar os impostos existentes e criar novos impostos para sustentar uma vida de luxo, sem a menor preocupação com seus vassalos. E qualquer um que se colocasse contra ele seria duramente reprimido. Fato que rendeu à João Sem Terra, outro apelido popular de “Bad King John” (algo do tipo “O Mau Rei João”)
Cena da animação criada pela Biblioteca Britânica, com narração de nada menos que o Doutor em História Medieval e membro da antiga trupe de artistas Monthy Phyton Terry Jones

Cena da animação criada pela Biblioteca Britânica, com narração de nada menos que o Doutor em História Medieval e membro da antiga trupe de artistas Monthy Phyton Terry Jones. A imagem satiriza as medidas opressoras de João Sem Terra.

Sobre esse momento de revoltas e batalhas entre João e os nobres ingleses, existe um filme bem legal (leia-se SANGRENTO!) chamado Sangue e Honra, que poderia até ajudar a compreender alguns aspectos da vida medieval, já que mostra toda a tensão dos cercos, tão comuns nas batalhas que aconteciam neste período. Este filme você pode encontrar lá no NETFLIX (olha o jabááá!) e, se você não conhece história de cercos, procure um pouco sobre a história da Tomada de Granada, durante a Reconquista Espanhola – um período sobre o qual você pode encontrar outro filme, também no NETFLIX, chamado El Cid. Mas esse filme ficara para uma outra hora.
 

1955:  A man looks at one of the first documents published by the United Nations, The Universal Declaration of Human Rights.  (Photo by Three Lions/Getty Images)

1955: Homem olha para a Declaração dos Direitos Humanos (Photo by Three Lions/Getty Images)

Em meio a esse contexto, os nobres ingleses decidiram reunir suas forças e ir atrás de João para “por ordem no galinheiro”! Enfim rendido por seus adversários, João assinou a famosíssima Magna Carta, que é considerada uma das fontes históricas mais importantes da história internacional e símbolo da liberdade, já que em seu conteúdo constam os princípios de que todos, inclusive o Rei estão submetidos à Lei e ecoaram através dos tempos. Como podemos ver no  7º Artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, (criada na Conferência de São Francisco, de 1949, adotada pela ONU) o qual prevê que “Todos são iguais perante à lei e têm direito, sem qualquer distinção, à igual proteção da Lei. Todos têm direito à igual proteção contra qualquer discriminação que viole à presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação”. 
Até mesmo a Declaração de Independência dos Estados Unidos teve enorme influência sobre o processo de luta pela independência nas colônias do mundo todo. Algo que com certeza não passou pela cabeça de João Sem Terra.
Representação de João sem terra, na animação de Walt Disney

Representação de João sem terra, na animação de Walt Disney

Agora, vamos entender mais um pouco melhor a Carta Magna
Este documento é importantíssimo devido ao seu caráter de liberdade e igualdade. Além disso, foi o primeir documento a prever um julgamento justo à todos os homens livres – o que não adiantava muito, já que a grande maioria da população inglesa era composta por servos, os quais eram literalmente presos à terra, ou seja, não podiam sair das terras onde viviam e não contavam com os “direitos dos homens livres”. Contudo, o malandrinho do João, após assinar o documento, conseguiu anulá-lo com o Papa Inocêncio III e entrou em guerra novamente com seus adversários, até que foi morto em batalha. Esse foi tarde, heim!
Após isso, seu filho Eduardo III foi entronado com apenas 14 aninhos e, a Carta Magna foi reescrita por três vezes durante o tempo, até ser finalmente incorporada à leis inglesas e se tornar um poderoso símbolo da liberdade e igualdade!
E se você quiser saber um pouco mais, deixo o link de uma animação especial, feita pela British Library!

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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