A técnica nas pelejas medievais

A técnica nas pelejas medievais

Olá de novo galera! Hoje o PaleoNerd tem companhia de um amigo muito especial, Luis Nase, também historiador (estudou comigo na Unesp-Assis/SP) que escreveu o artigo de hoje sobre as Pelejas Medievais. Vamos lá:

Queridos amigos fanáticos pela História, venho convocar vocês todos para uma discussão acerca da cavalaria medieval, confrontos, ou até mesmo disputas conhecidas popularmente por “justas”…

Lá na velha corrente historiográfica aprendemos durante muito tempo que o cavaleiro medieval ia para as batalhas trajado de sua armadura “completa”, pesada, que limitava em muito os seus movimentos. Essa cultura do cavaleiro medieval engessado, mais parecido com um Robocop, perdurou durante vários anos como uma visão “oficial” da história das cavalarias. Não precisamos ir tão longe para perceber que essa mentalidade invadiu cada vez mais âmbitos de nossas vidas, seja em filmes, seja em desenhos, ou até mesmo em jogos de role playng game. Essa visão sempre trazia o guerreiro europeu como um poderoso gigante, porém lento em sua movimentação….

O Role playing Game (RPG) é uma manifestação da cultura nerd e serviu de base para as estruturas dos universos que vocês veêm hoje em jogos como Skyrim, Diablo III, The Wicher e tudo mais!

Alguns livros e teses defendem que a grande vantagem dos muçulmanos durante as cruzadas foi o fato de terem uma mobilidade maior do que os cavaleiros cristãos. Mas, antes de continuar essa discussão, vamos tentar entender melhor o que foram as Cruzadas. Afinal de contas, se este é um local voltado para a história de guerras, não há maneira melhor que não seja contextualizar o debate.

Representalção gráfica tridimensional computadorizada do cerco à Jerusalem.

Representalção gráfica tridimensional computadorizada do cerco à Jerusalem.

As cruzadas foram expedições militares organizadas diretamente pela Igreja Católica. O objetivo alegado na época foi o de recuperar a Terra Santa das mãos dos turcos seljúcidas. Contudo, na verdade, houve uma série de fatores que contribuíram para o surgimento desse movimento. Um dos motivos foi que as autoridades não sabiam o que fazer com aquela superpopulação europeia que, por não encontrar uma ocupação na sociedade, acabava por procurar caminhos obscuros de ganhar a vida. Tal fato contribuiu para o aumento da marginalização.

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Por sua vez, a nobreza feudal tinha o interesse em conquistar novas terras e para ser mais específico, as cidades mercantilistas como Gênova e Veneza queriam ampliar seus negócios até o Oriente – berço das especiarias. Desta maneira, podemos notar que havia vários motivos para começar uma guerra e nenhum deles poderia ser tão nobre quanto morrer em nome de Deus. Agora, faltava apenas inventar um inimigo que fosse capaz de reunir esta massa desesperada em torno de um objetivo; no caso, um inimigo que ameaçasse a fé cristã: os exóticos muçulmanos.

Para ter uma ideia do quanto o movimento foi mais político do que religioso, a primeira cruzada (que nem é considerada oficialmente) foi a das crianças e dos mendigos. Neste sentido, podemos dizer que houve uma “limpeza” nas cidades europeias, que tentavam dar cabo do problema da miséria social por meio do envio de toda esta “escória” para o combate, para morrerem em nome de uma fé. Em troca, à estes bravos “guerreiros” a Igreja Católica oferecia suas indulgências – pecados o perdão de seus pecados passados e futuros.

“...Me engana, mas não me chama de idiota...”

“…Me engana, mas não me chama de idiota…”

No fim desta empreitada, é claro que os cruzados acabaram por tomar um verdadeiro “pau-dobrado” dos muçulmanos. Mas, voltando à questão do cavaleiro…

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Mas será tudo isso a visão mais correta?

Algumas teorias afirmam que o nobre cavaleiro, ao ser derrubado de sua montaria, apresentava uma grande dificuldade ao levantar-se, sendo assim uma presa fácil aos “infiéis”. Isto porque, a falta de mobilidade do europeu era considerada pelos historiadores como um fator fundamental para que os árabes explorassem algumas de muitas brechas em suas armaduras e viessem a executar seu oponente.

Será que pensar assim não seria restringir (ou diminuir) a capacidade dos mouros em enxergar estratégias de guerras – na qual já foi comprovado que Saladino era um exímio especialista? Além disso, apoiar esta teoria, não seria rebaixar os cristãos a meros imbecis? Não seria atribuir a derrota das cruzadas à incapacidade européia, deixando de lado todo o brilhantismo das táticas militares muçulmanas? Talvez esta seja uma visão canalha e distorcida da história, mas – infelizmente – isso ocorre muitas vezes; e mais ainda em anos eleitorais.

De qualquer forma, essa mentalidade eurocêntrica, difundida ao longo dos anos, acabou por interferir também no mundo dos games. Fato que se tornou um problema, a partir do momento no qual passou a enfiar estas ideias (completamente distorcidas) nas cabeças de nossas amadas criancinhas – que, inclusive, éramos nós mesmos!

Sabe...eu adoro falar de games!

Sabe…eu adoro falar de games!

Pincelada histórica:

No longínquo ano de 1985 saiu nos arcades, talvez o jogo de plataforma mais difícil de todos os tempos: Ghosts ´n Goblins.

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Esse simpático joguinho, lançado pela Capcom (famosa pelos 375 jogos que compõem a série Street Fighters), traz a historinha de um cavaleiro medieval que enfrenta demônios para salvar a nobre princesa. Mas, o engraçado – pra não dizer outra coisa – é perceber que todos os adversários são retratados como demônios e monstros.

Essa era a visão apresentada no jogo e, se pararmos para olhar como historiadores têm muito a ver com a visão que o europeu tinha de todos que fossem diferentes, alheios à sua cultura. Isso porque, todos os estranhos eram demonizados. Foi com essa mentalidade que os “heróis” europeus partiram para terras desconhecidas lutar em nome de um deus e apanharam vergonhosamente. Mas não por infelicidade própria, mas sim pela competência dos adversários.

Observação:

A visão europeia do mundo é tão bem propagada e acabamos por cair nela, mesmo involuntariamente que, quando nos denominamos latino americanos, estamos por utilizar um termo que os europeus criaram para se referir a nós. Ou seja, refletimos a forma como eles nos enxergam, uma extensão, um apêndice da Europa.

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Por esses dias, em minhas andanças pelos becos escuros da internet, me caiu um vídeo sobre os embates medievais.  Produzido pela Universidade de Veneza, em parceria com o Museu Nacional de Idade Média. Peço perdão se demonstro equivocado em minha tradução, mas deixo o link aqui para vocês.

Esse vídeo me trouxe uma luz acerca dos embates medievais.

Ele apresenta várias ações de combate, onde os atores trajavam armadura no melhor estilo “full plate mail”, armadura completa. Vários movimentos foram realizados (inclusive polichinelos e ações como levantar-se, subir escadas, corrida, dentre outras) sem haver grande prejuízo a movimentação do cavaleiro. Tudo foi realizado de maneira que o movimento pareceu o mais natural possível, ou seja, as armaduras medievais não traziam grande prejuízo à movimentação dos nobres cavaleiros.

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Outro ponto relevante foi a presença de armas curtas no combate corpo a corpo. Se bem que Ghosts n´goblins já apresentava essa característica do cavaleiro medieval. Entretanto, arremessar espadas? Não….

Além de sua espada longa, ou em cima do cavalo com sua lança, o “herói” medieval apresentava armas de combate corpo a corpo como adagas, ou espadas curtas. Utilizavam também técnicas de combate desarmado.

Sem mais delongas…

Se esse trabalho veio para mudar toda uma historiografia em relação aos combates medievais já não sei dizer. Pelo menos ele veio semear uma dúvida acerca do tema. Uma arma para combater o eurocentrismo.

Um ponto a ser debatido, até mesmo por você, caro leitor.

Portanto, contribua também com sua opinião!

Na pior das hipóteses os cristãos terão de procurar novas justificativas para legitimar sua vergonhosa derrota nas cruzadas….

Esse foi um desabafo de um nobre cavaleiro medieval com lepra…..

Um abraço à todos e obrigado pela paciência….

Sobre o autor:

Luiz Nase (Médio)
Professor de História formado pela Unesp de Assis. Cinéfilo de coração.
Co-fundador do SarjetaCast, podcast voltado para o roleplayng game (RPG).. (http://sarjetarpg.com.br/)
Co-fundador do DonnaRita, blog de artesanato e entretenimento… (http://www.donnarita.com.br/)

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About the Author

PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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