GEN PÉS DESCALÇOS e a II Guerra Mundial

GEN PÉS DESCALÇOS e a II Guerra Mundial

HADASHI NO GEN (em portugês traduzido como “Gen Pés-Descalços”) é uma animação que conseguiu trazer um contexto histórico de forma didática e tocante para o universo dos desenhos animados, ao dar vida ao mangá de mesmo nome, criado por Keiji Nakazawa. Publicado Brasil pela Conrad Editora, entre os anos de 2000 e 2001, GEN PÉS-DESCALÇOS chegou já aclamado pela crítica e conta com 10 milhões de cópias vendidas pelo mundo!

Keiji Nakazawa, em foto da década de 1980, já com o poster de uma das adaptações de Gen Pés-Descalços ao fundo.

Keiji Nakazawa, em foto da década de 1980, já com o poster de uma das adaptações de Gen Pés-Descalços ao fundo. FONTE: JapanFocus.org

Esta animação é uma auto-biografia do autor, que faz a emocionante retomada do período de encerramento da Segunda Guerra Mundial, ao contar a história de um garoto comum que vivia as privações da economia de guerra, com sua família em Hiroshima. Além da miséria que marcou o Japão durante este processo, o Keiji Nakazawa retrata justamente o período em que a cidade foi completamente destruída com o ataque norte-americano com a bomba atômica. Fato que, seguido pelo bombardeio de Nagazaki resultou na rendição incondicional deste país, marcando a completa derrota dos países do Eixo para o grupo de Aliados, em 1945.

Nascido em 1939 (o ano em que teve início a Segunda Guerra Mundial), Keiji Nakazawa era filho do pintor e pacifista Harumi Nakazawa, que realizava protestos contra a guerra, até ser preso pelo governo japones. Isto porque, em meio à mentalidade nacionalista japonesa da epoca, este tipo de atitude era absolutamente condenável e toda esta situação fez com que Nakazawa e sua família fossem tratados por seus vizinhos como traidores da pátria. Infelizmente, o Japão deste período também sofria com os impactos por mim já citados do Período entre Guerras (1918-1939) e sofria com a acensão de uma forma de nacionalismo agressivo.

Poster japonês criado para a Exposição Nacional de Defesa e Recursos, ocorrida em 1938, na cidade de Himeji. FONTE: Pinktentacle

Poster japonês criado para a Exposição Nacional de Defesa e Recursos, ocorrida em 1938, na cidade de Himeji. Esta exposição tinha o objetivo de reunir capital para investimentos em tecnologia, no período que precedeu a Segunda Guerra. FONTE: Pinktentacle

Tal situação refletiu no caminho político desta nação, que tentava expandir sua economia por meio do imperialismo (imposição militar, política e econômica sobre regiões conquistadas), fato que levou o Imperador Hirohito a se aproximar da Alemanha nazista por meio do Pacto Anti-Comintern, que estabelecia a união dos países na luta contra o Comunismo e automática declaração de guerra contra a U.R.S.S.. Posteriormente, estas nações viriam a formar o EIXO – grupo formado por estes dois países e a Itália fascista, com objetivo de invadir e conquistar o mundo.

Se você ainda não entendeu bem sobre o que estou falando, basta lembrar que  a Segunda Guerra Mundial foi considerada uma continuação das disputas imperialistas da Grande Guerra (1914-1918) e lançou nações de todo o planeta no maior conflito armado da História, deixando como  resultado, números assustadores como aproximadamente 55 milhões de mortos (dentre as quais contabilizamos o massacre de 5 milhões de judeus em um processo que ficou denominado como o HOLOCAUSTO) e mais de 30 milhões de feridos e inválidos. Com gastos contabilizados de aproximadamente 1 bilhão e 300 milhões de dólares, esta guerra empurrou os países do mundo por uma generalizada crise econômica e destruiu diversos territórios pela Europa, Africa e Ásia.

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REvista japonesa de 1939 que revela soldados distribuindo doces entre crianças chinesas. As invasões do Japão sobre a China envolveram enorme violência e intolerância com os grupos conquistados. Contudo, o governo financiava meios de comunicação para criarem a imagem do exército como libertador da opressão comunista sobre o povo. FONTE: Printerest

Com apenas 6 anos de idade, Keiji vivia em Hiroshima quando o ataque da bomba atômica, no dia 6 de agosto de 1945 terminou por destruir sua família ao assassinar seu pai, sua irmã mais velha e seu irmão mais novo. O garoto só sobreviveu por estar mais distante do epicentro da explosão (cerca de 1,2 km), protegido por uma construção. De qualquer forma, ele foi forçado a viver  roubando alimentos e revirando entulhos para poder vender o metal e vidro que encontrava para auxiliar sua mãe, que estava grávida.

Em meio a esta sofrida existência, o jovem garoto encontrava alivio para tanta tristeza lendo as obras de Usamu Tezuka (tido como o “pái do manga” no Japão) e seu interesse pela ilustração o fez buscar trabalho como auxiliar de um pintor de anúncios – o que lhe ofereceu conhecimentos técnicos de desenho. Posteriormente, o autor viria a dizer que sua rotina consistia em pintar anúncios pela manha, desenhar mangás no fim da tarde e assistir a três filmes seguidos no cinema da cidade.

O mangá Shin Takarajima (New Treasure Island), de Osamu Tezuka é considerado por Keiji Nakazawa como o quadrinho que o fez ficar fascinado pelo universo do mangá. IMAGEM: Ciriloblog INFORMAÇÃO: The Comics JournalO mangá Shin Takarajima (New Treasure Island), de Osamu Tezuka é considerado por Keiji Nakazawa como o quadrinho que o fez ficar fascinado pelo universo do mangá.
IMAGEM: Ciriloblog INFORMAÇÃO: The Comics Journal

Na década de 1960, o autor decidiu se mudar para Tóquio, em busca de um novo começo para sua vida e realizou sua primeira publicação com Shōnen gahō (“Boys’ Illustrated”). Contudo, foi a partir da década de 1970 que Keiji decidiu retomar sua história como sobrevivente do massacre de Hiroshima por meio obras como  “Aru hi totsuzen ni” (“Suddenly, One Day”), que conta a história de um rapaz que sorbevive ao bombardeio e depois descobre que desenvolveu leucemia ou Ore wa mita” (“I Saw It!”), a qual foi o primeiro trabalho a falar sobre sua experiência de ter vivido tamanho terror.

Sequência em que o protagonista e sua mãe olham, impotentes, o incendio consumir sua casa, com familiares  presos entre os escombros.

Sequência em que o protagonista e sua mãe olham, impotentes, o incendio consumir sua casa, com familiares presos entre os escombros. O termo PÉS-DESCALÇOS é utilizado em referência à memória do autor, que passou por esta situação sem um sapato que protegesse seus pés dos escombros.

Neste sentido, GEN PÉS-DESCALÇOS começoua ser  veiculada em junho de 1973, como uma série auto biográfica, nas paginas da então conhecida revista japonesa Weekly Shōnen Jump. Contudo, a Crise do Petróleo, deste ano, causou grande aumento no custo do papel e, por este motivo, a revista optou por excluir algumas matérias – dentre elas, a história de Keiji Nakazawa.

Foi somente em 1975 que, finalmente, os capítulos do mangá Barefoot Gen foram publicados (em uma série que durou 10 anos!), na revista  Kyōiku hyōron (“Education Critique”), quando contou com a aclamação da crítica. A partir de então, esta história recebeu adaptações para teatro, animação, seriados de teve live-action (que são muito comuns no Japão) e até mesmo uma ópera!

Equipe de atores que participaram na série "live-action" da História de Gen Pés-Descalços

Equipe de atores que participaram na série “live-action” da História de Gen Pés-Descalços. Fonte: Hatenablog.com

Esta animação, logo que foi lançada, passou a ser largamente veiculada em escolas do ensino fundamental com o objetivo de ensinar às criaças sobre a sôfrega reconstrução de seu país após a guerra. Entretanto, sofreu diversas reclamações dos pais, que consideraram-na “traumatizante” para seus rebentos [¬¬]. Por este motivo, em sua auto-biografia, Nakazawa a faz a seguinte afirmação sobre este fato: “Eu esperava que as crianças que assistissem a animação ficassem traumatizadas e aprendessem a desprezar a bomba atômica.”

Desta maneira, esta animação retrata os efeitos das privações da economia de guerra sobre as famílias de Hiroshima, assim como a miséria que rasgou o Japão durante este processo. Keiji Nakazawa delineia o período em que esta cidade ficou completamente destruída com o ataque norte-americano. Contudo, é importante lembrar que, após dois dias os EUA realizaram um segundo bombardeio atômico, desta vez sobre a cidade de Nagazaki. Fato que resultou na rendição incondicional da “terra do sol nascente” e marcou a completa derrota dos países do Eixo para o grupo de Aliados, em 1945.

É esta triste história de luta, sofrimento e superação que Nakazawa nos convida a conhecer por meio de seu alter-ego, ou seja, um personagem que Keiji criou para contar a história de SUA PROPRIA EXPERIÊNCIA. Em 2012, Keiji faleceu em decorrência de cancêr no pulmão, diagnosticado cerca de um ano e meio antes.

Keiji repousa sobre sua mesa de desenhos. FONTE: The Comics Journal

Keiji repousa sobre sua mesa de desenhos. FONTE: The Comics Journal

Por causa de todo esse emaranhado de informações que envolvem esta narrativa, é preciso estar atento ao momento histórico que a acompanha, e, desta forma poder entender melhor o tom de crítica à mentalidade nacionalista e dogmática dos japoneses, durante a Segunda Guerra. Além disso, o conhecimento histórico pode nos ajudar a compreender o impacto de toda esta destruição sobre os seres humanos que habitava esta região e tentavam encontrar um meio de RECOMEÇAR suas vidas.

A trama de Gen Pés-Descalços nos faz sentir ainda mais angustiados, quando os personagens começam a descobrir os efeitos da radioatividade e os efeitos gerados por esta força invisível que destruía as vidas dos que estavam ali. Uma animação pesada, mas que deve entrar na nossa “listinha de filmes” para nos ajudar a refletir sobre o tamanho das atrocidades que somos capazes de realizar, assim como nos lembrar da poderosa capacidade de continuar, apesar de todas as adversidades.

Gen olha perplexo a destruição deixada pela bomba.

Gen olha perplexo a destruição deixada pela bomba.

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About the Author

PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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