Série – Call the midwife

Série – Call the midwife

Call the Midwife (Chame a parteira, em português) é uma série inglesa produzida e exibida pela BBC1 na Inglaterra e distribuída mundialmente através do amado, idolatrado, salve-salve Netflix. Apesar de seu público-alvo ser o feminino, principalmente por abordar a íntima relação das enfermeiras-parteiras e mulheres em trabalho de parto, a série atrai a todos os públicos devido ao seu caráter humano, histórico e social. Esta série que é um grande sucesso na Europa já conta com 4 temporadas (3 no Netflix) e destaca-se por sua ambientação no período pós Segunda Guerra Mundial e sua abordagem quanto a aspectos das políticas de saúde pública e “parto humanizado”.

A série é baseada nas memórias de Jennifer Worth e se passa em Londres de 1957 quando Jenny, enfermeira-parteira recém-formada, passa a atender na comunidade de East End, região portuária e precária da cidade. Fica surpresa ao saber que em seu novo trabalho passará a viver num convento Anglicano (lembra da Reforma Anglicana?), Nonnatus House e trabalhará ao lado das freiras-parteiras em atendimento à mães que vivem em situação precária de saúde, higiene, desnutrição, etc.

Entre um parto e outro, fatos do cotidiano dessa época são relatados ao longo da série e aqui vamos destacar 5 aspectos históricos deles. Vou fazer meu máximo para evitar spoilers porque vale a pena assistir, ok?

políticas de bem-estar social dos anos 50

O acompanhamento de saúde oferecido pelas midwives era gratuito, sob um sistema governamental chamado National Health Sevice (NHS) recém-instalado no Reino Unido que fazia parte do pacote de Bem-estar Social. Inclusive, em alguns episódios você pode perceber a transição do serviço particular para o gratuito em que alguns pacientes chegam a desconfiar das enfermeiras, acreditando que cobrariam pela assistência. Por muitos anos, antes da implantação do NHS pelo governo, as parturientes sem condições financeiras tinham seus filhos sem nenhum ou pouco acesso à ajuda médica (na raça mesmo e por isso era alta a taxa de complicações e mortes em partos). Devido ao seu trabalho, as midwives eram muito respeitadas pela comunidade e seus serviços reconhecidos como de suma importância para o nascimento dos bebês assim como para a manutenção da saúde dessas pessoas que viviam em péssimas condições, o que reforçado pela série.

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Aulas pré-natais para as mães enquanto as crianças desenham. Fonte

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Enfermeiras a caminho do trabalho, de bike! Fonte

bombas remanescentes da guerra

Neste período imediato ao fim da Segunda Guerra, a Europa está em plena reconstrução: as cidades que foram bombardeadas passam a reconstruir aquilo que foi destruído e restaurar as construções mantiveram-se em pé. Entre uma escavação e outra não era surpresa encontrarem bombas, hora lançadas durante ataques aéreos durante a Guerra. Durante a série, uma dessas bombas é encontrada na região do convento e a área é isolada por questões de segurança até que seja desativada por especialistas.

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Uma das cenas do episódio em que a área do convento é isolada em razão da bomba. Fonte

Na verdade este ainda é um fato comum na Europa, claro que não tão recorrente quanto na época, onde por vez ou outra são encontrados remanescentes da Guerra, como aponta esta notícia de maio deste ano em que Londres foi evacuada na região do estádio de Wimbley por este motivo.

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Bomba da década de 40 encontrada em Londres, em maio passado. Fonte

os veteranos – Traumas físicos e psicológicos

A região de East End na década de 50 é conhecida por ter sido uma comunidade de sobreviventes de Guerra e por isso já se pode imaginar que por ali haviam muitas pessoas que passaram por experiências traumáticas. Ao longo dos episódios, algumas histórias são contadas como a do veterano idoso que vivia isolado em seu apartamento (sua esposa e filho morreram na Guerra) em péssimas condições de saúde e higiene e úlceras nas pernas devido à ferimentos mal tratados. A enfermeira Lee (protagonista) passa a ser responsável por prover cuidado às suas úlceras e, a partir de suas visitas regulares, conseguem criar afinidade. Assim, Lee passa a gentilmente fornecer cuidados psicológicos ao veterano e chega até a levá-lo a uma reunião do seu antigo regimento, o Scots Guards.

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Cena da série em que a enfermeira Lee atende o veterano. Fonte

Em outro episódio, a enfermeira Mount cuida do sensível veterano da Guerra do Japão em que sofreu vários danos físicos e psicológicos no período em que ficou em um campo de prisioneiros. Curiosamente, ambos tem uma história em comum em ter experimentado e sobrevivido aos horrores de ser um prisioneiro de guerra.

Paralisia infantil (Polio) e TUBERCULOSE

A série também aborda acerca de doenças e tratamentos que eram comuns neste período. Por exemplo, houve uma grande epidemia de Polio na Inglaterra durante a década de 50 e a Poliomielite (inflamação da medula espinhal) foi a doença infantil mais temida na época já que sua causa e cura eram desconhecidos e inexplicavelmente acometia milhares de crianças com grande rapidez.

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Personagem durante tratamento da Pólio. Fonte

O tratamento incluía o uso do “pulmão de aço”, como mecanismo de fortalecer os músculos do pulmão que eventualmente sofriam paralisia assim como os demais músculos do corpo e até mesmo, de acordo com a necessidade do paciente, capaz de realizar uma “respiração forçada” através de diferença de pressão atmosférica.

Os pulmões de aço. Fonte

Os pulmões de aço. Fonte

A vacina que previne esta doença somente foi descoberta em 1953 pelo médico e pesquisador norte-americano Jonas Salk em parceria com Albert Sabin que inclusive foram ganhadores de um Prêmio Nobel por seu feito. Sendo assim, as crianças nascidas até 1955 (quando a vacina passou a ser aplicada em humanos) estavam sujeitas à epidemia, aterrorizando a população. Atualmente a poliomielite é considerada erradicada graças à esta vacina.

A tuberculose, também altamente contagiosa, atingiu muitas pessoas nessa época. Contudo, as pesquisas avançaram bastante em relação à esta doença e o diagnóstico mais rápido e preciso através do raio-x. O tratamento passou a ser realizado por meio de antibióticos (estreptomicina) de longo prazo. Por esta razão, os enfermos eram internados em clínicas especializadas em tuberculose, chamadas “sanatoruims“, geralmente localizados afastados da cidade em condições favoráveis à recuperação.

Quando uma das freiras é acometida por tuberculose e interna-se em um "sanatoruim". Fonte

Quando uma das freiras é acometida por tuberculose e interna-se em um “sanatoruim”. Fonte

WorkHouses

Ahhhhhh, as Workhouses….Lugar lindo de se viver #sqn ¬¬ Em um dos episódios, um casal de idosos é tratado pelas enfermeiras e passam a contar relatos dos tempos em que viviam em uma Workhouse quando crianças.

As casas de trabalho têm seu embrião no início da Era Moderna em 1601 com a Lei de Assistência aos Pobres mas sua disseminação se deu a partir da Segunda Revolução Industrial do século XIX, quando, reunia este “exercito de reserva”, em espaços confinados à espera de uma “oportunidade” de trabalho. Isto porque havia a necessidade de um grande contingente de mão de obra nas fábricas e esta era uma solução encontrada pelos ingleses para lidar com muitos desabrigados e órfãos, apoiados na teoria malthusiana. Mas, como se pode imaginar, a realidade é que isso não passava de mais uma forma de estabelecer o trabalho compulsório.

Projeto arquitetônico de uma Workhouse. Fonte

Projeto arquitetônico de uma Workhouse. Fonte

Basicamente, as casas de trabalho (em tradução livre e entendido também por asilo) eram instituições em que os pobres e crianças órfãs recebiam abrigo, alimentação e uma “oportunidade de trabalho”. Foi uma prática de cunho privado com apoio do Governo que, na prática, tirava as pessoas da rua que em troca de casa e comida deveriam trabalhar para a indústria.

A vida em uma casa de trabalhos não era fácil, especialmente para as crianças. Fonte

A vida em uma casa de trabalhos não era fácil, especialmente para as crianças. Fonte

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As casas de trabalho teriam a guarda legal dos órfãos até terem idade para trabalhar, por volta dos 14 anos. Fonte

Além disso, estas workhouses não abrigavam apenas os desprovidos de renda ou família mas também era usada como “depósito” para pessoas com doenças mentais ou com algum tipo de deficiência. Segundo relatos da época, “as pessoas viviam em constante temor de que fossem acometidos por alguma doença ou acidente e que fossem levados a este tipo de instituição, onde maridos eram separados de esposas e mulheres de seus filhos”.

Ainda de acordo com relatos, nos dormitórios chegavam a dormir mais de 70 pessoas lado a lado em camas super estreitas de sacos de juta. O aquecimento era mínimo, mesmo no rigoroso inverno. Os “internos” tinham suas cabeças raspadas de maneira a evitar piolhos, as refeições deveriam ser feitas em absoluto silêncio e tinham autorização de sair do local (com autorização, claro) apenas para procurar emprego, ir a um funeral ou casamento. Poderiam deixar de viver nas instituições quando quisessem, mas isso normalmente só acontecia quando um parente encontrava um outro trabalho para eles.

Acho que já deu pra vocês entenderem que as casa de trabalho eram o inferno na Terra e que este sistema basicamento erodiu a dignidade humana dessas pessoas.

O grande sucesso desta série se explica justamente pela qualidade de pesquisa e fidelidade aos aspectos mais determinantes do pós-guerra, muito além das ambientações dos cenários e dos figurinos – que também são excelentes. Por isso que foi mencionado no início do texto que esta série é capaz de abranger todos os públicos. E aí, o que acharam?

Espero que eu possa ter dado pra vocês um breve parâmetro sobre esse período tão cheio de detalhes e mudanças de paradigmas! Até mais!

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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