Hércule Florence: pai da fotografia brasileira

Hércule Florence: pai da fotografia brasileira

Surgida em meio ao atribulado período de crescente urbanização e industrialização na Europa do século XIX, a fotografia se desenvolveu como um dos principais instrumentos para constituição de uma imagem que fosse capaz de colocar a nascente burguesia industrial em pé de igualdade com as tradicionais camadas dominantes destas potências imperialistas.

Neste sentido, Nicéphore Niépce, em 1826, deu inicio a uma grande corrida entre diversos inventores, que buscavam transpor as imagens naturais em papel de forma duradoura. Entretanto, pouco se fala sobre o contemporâneo a estes homens, Hércule Florence, que desenvolveu em 1833 estudos voltados à realização de impressões fotossensíveis. Na Vila de São Carlos (atual cidade de Campinas), este brilhante intelectual desenvolveu a técnica denominada por ele Poligrephye.

"Vista de uma janela no Le GRas", de Nicéphore Niépce, de 1826 ou 1827. Esta é uma versão melhorada, feita pelo suíço Helmut Gersheim (1913-95) e se encontra na Harry Ransom Humanities Research Center, da Universidade do Textas. Niépce levou 8 HORAS PARA CONSEGUIR ESSA FOTO!!!

“Vista de uma janela no Le Gras”, de Nicéphore Niépce, de 1826 ou 1827. Esta é uma versão melhorada, feita pelo suíço Helmut Gersheim (1913-95) e se encontra na Harry Ransom Humanities Research Center, da Universidade do Textas. Niépce levou 8 HORAS PARA CONSEGUIR ESSA FOTO!!!

Nascido na França, Florence chegou ao Brasil em 1824 e logo começou a trabalhar na livraria e tipografia do fundador do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, Pierre Plancher. Mas sua inquietação e curiosidade o levaram a participar, posteriormente, da conhecida Expedição Langsdorf que (com incentivo financeiro do czar Alexandre I) partiu desde o Rio de Janeiro com objetivo de mapear e estudar a inóspita região do interior de São Paulo, Mato Grosso, passando pelo vale do Amazonas e província do Pará.

Hércule Florence Fonte: FOCUS ESCOLA DE FOTOGRAFIA

Hércule Florence
Fonte: FOCUS ESCOLA DE FOTOGRAFIA

Apesar dos resultados desastrosos, como a morte de diversos membros da esquipe e a perda da sanidade por Langsdorff, esta viagem ficou conhecida como a primeira expedição científica a atravessar uma grande extensão de mata virgem e atingir a região da foz do Amazonas.

Com base nos vastos manuscritos deixados por este intelectual, que se definia como “um inventor no exílio”, o mestre em ciências da Comunicação pela USP, Erivam Oliveira exalta a criatividade que conduziu este homem por experimentos de impressões com sais de prata e ouro, assim como seus estudos, desde em 1831, em associação com Corrêa de Mello sobre o uso da urina como agente redutor dos sais de prata. Descoberta fundamental pois, por não reagir aos efeitos da luz, Florence terminou por concluir a função do hidróxido de amônia como um agente fixador na realização de imagens e, por fim, desenvolver a técnica da câmara escura pouco antes de seus contemporâneos europeus.

Vista de uma fazenda de café, durante o fim do século XIX, capturada em aquarela por Hércule Florente. FONTE

Vista de uma fazenda de café, durante o fim do século XIX, capturada em aquarela por Hércule Florente. FONTE

 Tudo registrado com riqueza em seus diários e em correspondências que trocava com grandes intelectuais tanto do Brasil como da Europa e foi assunto da pesquisa de Boris Kossoy, o qual terminou por publicar a obra “A Descoberta isolada da fotografia no Brasil”, em 1976. Todavia, apesar de seus esforços por obter reconhecimento o deste personagem como parte significante na história da fotografia no mundo, Kossoy obteve parco reconhecimento (e até desmerecimento) por parte da comunidade acadêmica internacional.

Imagem produzida por Hércules Florence na ocasião da expedição Landsdorff, em 1849

“O Salto de Itu”. Imagem produzida por Hércules Florence na ocasião da expedição Landsdorff, em 1849 FONTE

Um exemplo foi o caso do professor e doutor pela Universidade de São Petersburgo, Boris Komissarov que, em um estudo sobre a Expedição Langsdorf (da qual Hercule Florence participou) afirma que Florence teria visitado a França durante o ano de 1835, sugerindo que os estudos deste intelectual tivessem sido influenciados por um possível contato com notícias sobre Daguerre e Talbot. Perspectiva que é rechaçada por Oliveira, o qual busca relatos da família de Florence e suas cartas ao diretor da Academia Imperial de Belas Artes (Félix Taunay) para corroborar a verossimilhança dos estudos feitos por Hércules desde 1831.

De qualquer forma, ainda somos forçados a ter em conta o dia 19 de agosto de 1839 como a data “oficial” do surgimento da fotografia, quando a Academia de Ciências de Paris – após uma longa negociação com Louis Jacques Mandé Daguerre, pela sessão dos direitos autorais de sua invenção ao Estado francês – realizou o pronunciamento de que o daguerreótipo estava disponível ao público. Técnica que consiste em chapas de cobre ou placas esmaltadas em prata cuidadosamente polidas (e sensibilizadas no vapor de iodo) e precisava uma exposição com cerca de 20 a 30 min para que a imagem pudesse se fixar na placa.

Mulher sorrindo, por Samuel Root, New York, (1854) FONTE: Daguerreotype Archive

Mulher sorrindo, por Samuel Root, New York, (1854). Estes retratos são pequenos para caber no bolso e, naquela época, virou moda andar com um desses, entre a burguesia!
FONTE: Daguerreotype Archive

Depois de ler sobre Florence, fiquei super interessando em saber mais sobre ele e, por fim, acabei descobrindo que seu túmulo se encontrava justamente aqui na cidade de Campinas! Por isso, dei uma passada no famoso cemitério de Campinas que, como todo cemitério fica numa Avenida da Saudades e tirei algumas fotos das homenagens que ficam sobre seu túmulo.

Hercule florence tumulo

De qualquer forma, a técnica fotográfica teve seu desenvolvimento em um processo coletivo, no qual membros da pequena burguesia se transformaram nos primeiros fotógrafos da história com diversos processos de registro e impressão, muitos dos quais não tiveram longa duração devido o fato de não serem reprodutíveis. Este texto, por sua vez, busca fazer uma respeitosa referência a este que foi o NOSSO PAI DA FOTOGRAFIA.

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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