O Reino Enterrado pelo Tambora

O Reino Enterrado pelo Tambora

Lembram quando falei que 2015 foi o ANO SEM VERÃO aqui no site essa semana?

Em 1980 a notícia de que trabalhadores de uma madeireira estavam trazendo à tona fragmentos de cerâmica e ossos em uma região próxima de uma pequena aldeia, chamada Pancasila, na ilha de Sumbawa que fica situada na Indonésia. Além disso, começaram a ser encontradas moedas e partes de madeira carbonizada, enterrados sob uma espessa camada de depósitos vulcânicos. Tudo isso foi encontrado numa região bem próxima do nosso conhecido vulcão Tambora, cuja erupção implicou a ocorrência de quedas na temperatura pela Europa e até América do Norte.

Cinzar vulcânicas deixadas pela erupção do Monte Tambora, em 1815. FONTE: PAstHorizons.com

Cinzar vulcânicas deixadas pela erupção do Monte Tambora, em 1815. FONTE: PastHorizons.com

Contudo, somente em 2004 houve uma iniciativa de uma pesquisa detalhada sobre a região, encabeçada pelo vulcanológo islandês Haraldur Sigurdsson que, pela Universidade de Rhode Island resolveu rastrear a região de florestas próxima ao vulcão com um Radar de Penetração no Solo (em inglês, “Ground Penetrating Radar”). Esta tecnologia faz uso de um método geofísico, no qual os pulsos de radiação eletromagnética do radar são lançado em microondas de frequência UHF/VHF e interpretados por um receptor de “radio spectrum”. A partir disso é possível formar uma imagem dos materiais e formas que estão nas profundesas do solo. Com isso, a equipe identificou a presença de uma casa completamente enterrada, sob 2 a 3 metros de depósitos piroclásticos de fluxo e de onda. Materiais que resultam da nuvem piroclástica, a qual é constituída por fluidos e compostos de gases que se movem em alta velocidade (até 160 Km/H), com uma temperatura de aproximadamente 1500 ºC.

Imagem que demonstra o funcionamento do Radar de Penetração no Solo (GPR) FONTE: MALAGS.COM

Imagem que demonstra o funcionamento do Radar de Penetração no Solo (GPR) FONTE: MALAGS.COM

Com impressionante poder destruidor, estes fluxos piroclásticos viajam rente ao solo, de forma que acompanham o relevo do território, envolvendo árvores, edifícios e destruindo toda a vida que estiver em seu caminho. Foi justamente esta nuvem que atingiu as cidades de Pompéia e Herculano, durante a erupção do Vesúvio, no século 79 d.C. e possibilitou a formação de um dos mais impressionantes sítios arqueológicos que conhecemos. Este mesmo processo ocorreu na região próxima ao Tambora, onde havia uma cidade desconhecida pelos pesquisadores e preservou a forma de vigas e pisos feitos em bambu, além de artefatos que incluem porcelana chinesa, ferramentas de ferro e taças de cobre.

Corpo preservado pela nuvem piroclástica que atingiu Pompeia. FONTE

Corpo preservado pela nuvem piroclástica que atingiu Pompeia. Você pode até duvidar, mas esta foi uma pessoa atingida pelo vulcão. FONTE

A descoberta da equipe de Sigurdsson desencadeou uma série de escavações formais a partir de 2006 e que estão ativas até os dias de hoje, sob a liderança do Instituto de Arqueologia Bali, o qual é dirigido pelo Dr. M. Geria. Durante o ano de 2008, a casa reconhecida com auxílio do radar foi finalmente descoberta e, no seu interior, foram encontrados um esqueleto masculino, com uma caixa de tabaco feita em cobre amarrada à sua cintura. Além disso, os pesquisadores encontraram uma lança cerimonial ao seu lado e adornos fixados ao esqueleto, como anéis com pedras preciosas, um bracelete e um grande colar de pêndulo feito em bronze.

Objetos encontrados nas escavações de Tambora; Quebrador de nozes, um bule de chá, um anel de prata . FONTE

Objetos encontrados nas escavações de Tambora; Quebrador de nozes, um bule de chá, um anel de prata . FONTE: National Geographic

Em 2009 foi descoberta mais uma casa carbonizada, que resguardava um corpo deitado do lado de fora, sob os escombros vulcânicos. É possível perceber que esta pessoa tentou proteger sua cabeça com o braço. Já no ano de 2011, os restos de uma nova habitação foram descobertos e sua escavação ainda está em andamento.

Corpo encontrado em 2009 nas escavações. FONTE PastHorizons.com

Corpo encontrado em 2009 nas escavações. FONTE PastHorizons.com / Foto Rik Stoetman

Esta sociedade completamente desconhecida por nós sofreu os efeitos diretos do vulcão de Tambora, por estar próxima de sua caldeira e, os avanços das pesquisas levam os arqueólogos à sugerirem que este lugar foi habitado por uma elite que prosperou por meio do comércio. A estudiosa pela Universidade de Bristol (Bristol University – U.K.) e membro da equipe de escavações Emma Johnston afirma que: “A evidência histórica apoia esta teoria, já que os Tamboranos historicamente eram conhecidos nas Índias Orientais por seu mel, cavalos, corante vermelho e sândalo. O design e a decoração dos artefatos sugerem que a cultura Tamborana estava ligada ao Vietnã e Camboja.”

Com isto, os pesquisadores procuram obter mais informações acerca do reino enterrado, cuja população é estimada em 10.000 pessoas, e poderem entender melhor de que forma o comércio era realizado com as populações próximas. Neste mesmo sentido, a continuação da pesquisa propiciará uma compreensão mais ampla sobre os detalhes a respeito dos últimos instantes desta sociedade.

Referência inicial: PopularArchaeology.com

COMENTÁRIOS

Desembuche aqui:

Share this:

About the Author

PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

View all posts by PaleoNerd

Leave a Reply