Anatomia na Idade das Trevas

Anatomia na Idade das Trevas

No século II, um romano etnicamente grego chamado Galeno tornou-se médico para dos gladiadores. Seus vislumbres do corpo humano através de feridas desses guerreiros, combinados com dissecções sistemáticas de animais, tornaram-se a base da medicina islâmica e europeia durante séculos. Textos de Galeno sobre Anatomia não seriam desafiados até o Renascimento, quando dissecações humanas – muitas vezes em público – tornaram-se populares. Contudo, os médicos na Europa medieval não eram tão negligentes quanto parece, como indica a análise da mumificação do crânio dissecado mais antigo da Europa.

O espécime, pertencente a uma coleção particular, será exposto em breve no Museu de História da Medicina em Paris. Consiste numa cabeça humana os ombros com a parte superior do crânio e cérebro removidos. É possível notar marcas de mordidas de roedores e trilhas de larvas de insetos, que deterioraram um pouco a face. As artérias são preenchidas com um composto vermelho “cera de metal” que ajudaram a preservar o corpo.

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Para os especialistas que avaliaram a peça, a preparação do corpo tendo em vista sua conservação foi surpreendentemente avançada para a época da peça que, para a surpresa dos pesquisadores, é remanescente do Século III, como indica a datação por radiocarbono. Esta é uma época conhecida por “Idade das Trevas” na Europa, em que o caráter científico dessas experiências era altamente controverso e visto como heresia, pecado e bruxaria. Na verdade, segundo o pesquisador Philippe Charlier, médico e cientista forense do Hospital Universitário de R. Poincaré, na França, este espécime sugere conhecimentos anatômicos surpreendentes durante este período de tempo. “Suponho que o preparador não fez isso apenas uma vez, mas várias vezes, para ser tão bom nisso.”

Museu parisiense de História da Medicina.

Museu parisiense de História da Medicina.

É importante ressaltar que as veias e as artérias foram preenchidas com uma mistura de cera de abelha, cal e mercúrio. Isso teria ajudado a preservar o corpo, bem como dar o sistema circulatório. Esta descoberta é de fato muito importante do ponto de vista histórico e arqueológico em relação ao desenvolvimento científico na “Idade das Trevas”, sobre a qual há poucos registros acerca do estudo da anatomia, tratada como proibida nessa época.

Assim, supõe-se que este corpo não teria sido apenas dissecado e descartado mas sim preservado, possivelmente para a educação em Medicina. A identidade do homem, no entanto, está perdido para sempre. Ele poderia ter sido um prisioneiro, uma pessoa institucionalizada, ou talvez um mendigo cujo corpo nunca foi reivindicado, de acordo com os pesquisadores da revista Arquivos de Ciências Médicas.

A mumificação é uma prática conhecida há milenios e os egípcios são considerados o melhores nessa arte. Aqui vemos cabeças de múmias egípcias que foram expotas na exibição Mummies of the World, organizada pelo Maryland Science Centre, nos EUA. FONTE: Wahshington Post

A mumificação é uma prática conhecida há milenios e os egípcios são considerados o melhores nessa arte. Aqui vemos cabeças de múmias egípcias que foram expotas na exibição Mummies of the World, organizada pelo Maryland Science Centre, nos EUA. FONTE: Washington Post

Mitos da Idade Média

Os historiadores do século XIX referem-se à Idade das Trevas como uma época de analfabetismo e barbárie, geralmente identificada como o período entre a queda do Império Romano e meados da Idade Média (para alguns, inclusive, a Idade das Trevas não terminou até o 1400, com o advento do Renascimento). Contudo, alguns historiadores modernos vêem a Idade Média sob uma pesrpectiva diferente, uma vez que projetos de pesquisa de longo prazo foram capazes de esclarecer algumas dessas afirmações e descobriram que o período medieval não era tão ignorante, no final das contas.

“Houve considerável progresso científico no final da Idade Média, em especial a partir do século 13 em diante”, disse James Hannam, um historiador e autor de “A Gênese da Ciência: Como a Idade Média cristã lançou a Revolução Científica” (Regnery Publishing, 2011).

Aqui vemos uma múmia produzida no século XVIII, na Europa Central e se encontra na Universidade de Warwick, Hungria. FONTE: ArchaeologyNewsNetwork

Aqui vemos uma múmia produzida no século XVIII, na Europa Central e se encontra na Universidade de Warwick, Hungria. FONTE: ArchaeologyNewsNetwork

Segundo Hannam, durante séculos os avanços da Idade Média foram esquecidos. Nos séculos 16 e 17, tornou-se um “modismo intelectual” citar fontes gregas e romanas antigas em vez de cientistas da Idade Média. Em alguns casos, isso envolveu até mesmo falsificação. O matemático renascentista Copérnico, por exemplo, baseou sua pesquisa sobre o movimento da Terra em Jean Buridan, um padre francês que viveu entre cerca de 1300 e 1358. Entretanto, Copérnico teria creditado a fundamentação científica de seus estudos ao antigo poeta romano Virgílio. Grande parte desse “crédito seletivo” resultou de sentimentos anti-católicos por protestantes, devido à Cisma da Igreja em 1500. Como resultado, ainda segundo Hannam, houve muita propaganda negativa sobre como a Igreja Católica estava impedindo o progresso humano.

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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