9 de Julho e a Revolução Constitucionalista de 1932

9 de Julho e a Revolução Constitucionalista de 1932

Feriaaaadoooo, friozinhooooo, uma galera indo viajar e outros só querendo morgar debaixo das cobertas. Tá certo…mas você sabe porque raios é feriado no Estado de São Paulo? É nessa hora que todo mundo responde(?) “Revolução Constitucionalistaaaa” mas o que foi, por que e como aconteceu essa que ficou também conhecida como a Guerra Paulista?

Fonte: DeviantArt / Imagem: Vonge

Fonte: DeviantArt / Imagem: Vonge

WTF IS “REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA”?

Na data de hoje, 9 de julho, iniciou-se o levante armado no Estado de São Paulo, contra o regime governamental instalado no Brasil a partir da Revolução de 30, denominado Governo Provisório em que Getúlio Vargas, em uma manobra política (também chamada de Golpe e sobre o qual já falamos neste post) que derruba o sistema em vigor até então, chamado de “República Velha”, apelidado de “República do Café com Leite”, lembrou? A também conhecida como “Guerra Paulista” durou até outubro do mesmo ano e foi o último conflito armado ocorrido no Brasil até agora.

Veteranos da Constitucionalista de 1932 em parada do dia 9 de julho de 2013

Veteranos da Constitucionalista de 1932 em parada do dia 9 de julho de 2013 FONTE

Por que?

Como dito anteriormente, em 1930 Getúlio Vargas instaurou um Governo Provisório e nomeou interventores para governar os Estados. Já haviam se passado dois anos deste modelo de governo e os fazendeiros de café e demais representantes da elite paulista, insatisfeitos com a situação, organizaram um movimento de insurreição que visava derrubar Getúlio Vargas do poder, eleger democraticamente um novo governador para o Estado e a proclamação de uma nova Constituição brasileira, esta que viria a ser a Constituição de 1934.

Segundo o Professor Mestre Heraldo Galvão (e um grande amigo do PaleoNerd, em entrevista para o site Notícia da Manha“A Revolução Constitucionalista ocorreu pelo fato da oligarquia paulista, mais poderosa do país na época, sentir-se prejudicada pelo Governo de Getúlio Vargas, pois este havia cancelado a Constituição de 1891 por meio de um golpe. Vale ressaltar que a Primeira República (1889-1930) foi um período em que ocorreu o domínio político-eleitoral das oligarquias paulista, mineira e gaúcha, que participavam das fraudes eleitorais a partir da política do café-com-leite, da política dos governadores, do coronelismo, dos currais eleitorais, do voto de cabresto, entre outras questões. Com a intenção de recuperar sua importância política em âmbito nacional e de lutar por uma nova constituição para o país, multidões passaram a se reunir em São Paulo para protestar contra o governo Vargas e os tenentes que o haviam apoiado. De protestos pacíficos, as manifestações passaram a radicalizar-se, chegando à luta armada. Mesmo sendo derrotado pelas tropas de Vargas, o movimento foi importante para a reconstitucionalização do país em 1934, alterando, assim, os rumos da política nacional até 1937, ano em que ocorreu o golpe do Estado Novo, com reflexos até a atualidade”.

E como foi?

No total, foram 87 dias de combates de 9 de julho a 4 de outubro de 1932, com um saldo oficial de 934 mortos, embora estimativas não oficiais reportem até 2200 mortos. São Paulo, depois da revolução de 32, voltou a ser governado por paulistas e, dois anos depois, uma nova constituição foi promulgada, a Constituição de 1934.

Constitucionalistas entrincheirados. Como um resquício das práticas de combate da Grande Guerra (1914-1918) as trincheiras ainda eram utilizadas na década de 1930. FONTE Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo

Constitucionalistas entrincheirados. Como um resquício das práticas de combate da Grande Guerra (1914-1918) as trincheiras ainda eram utilizadas na década de 1930. Segundo a Assembleia legislativa do Estado de São Paulo: ” As Medalhas da Constituição, maior láurea outorgada pelo Legislativo paulista, foram entregues a Dom Fernando Figueiredo, bispo diocesano de Santo Amaro, ao desembargador Álvaro Lazzarini, ao médico Jorge Michalany, aos oficiais da Polícia Militar coronel Res. PM Edilberto de Oliveira Melo, coronel Res. PM Niomar Cyrne Bezerra e coronel PM Luiz Eduardo Pesce de Arruda. Também foram agraciados com a medalha os seguintes batalhões da Polícia Militar: 3º BPM-I, 4º BPM-I, 6º BPM-I e 2º BPM-M.” FONTE Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

Em 23 de maio de 1932, dia que posteriormente ficou conhecido como o Dia do Soldado Constitucionalista, ocorreu o estopim da revolta devido à morte de 4 jovens (5, na verdade) na região da Praça da República, no centro da cidade de São Paulo, durante manifestações contrárias ao governo de Getúlio Vargas em que tentaram invadir a sede da Liga Revolucionária (grupo de apoio getulista) e foram “gentilmente” recebidos à balas. Estes quatro jovens foram

  • Mário Martins de Almeida,
  • Euclides Miragaia,
  • Dráusio Marcondes de Sousa e
  • Antônio Camargo de Andrade.
Cartão_Postal_do_MMDC

Cartão postal que fazia referência à comemoração da Constitucionalista de 1932. O uso da figura destes quarto jovens foi uma tônica na propaganda paulista deste período.

As iniciais de seus nomes formam a sigla M.M.D.C., que passou a ser nome do grupo civil responsável pela organização da insurreição paulista que alistava e treinava os voluntários, com representações em vários pontos do Estado. Desde o início, o movimento contou com o apoio da maçonaria paulista, através de suas lideranças e de seus membros como Pedro de Toledo, Júlio de Mesquita Filho (que dá nome hoje à Universidade Paulista – UNESP), Armando de Sales Oliveira, Ibrahim de Almeida Nobre e outros.

Um quinto jovem, Orlando de Oliveira Alvarenga, ferido na mesma ocasião morreu três meses depois. Recentemente, seu nome foi incluído entre os jovens mortos e, em seu reconhecimento, a sigla passou a contar com mais uma inicial e corrigida para M.M.D.C.A.

Durante as batalhas, os paulistas chegaram a organizar uma campanha que incentivava a população a doar ouro para a causa. As coletas da campanha "ouro para o bem de são paulo" eram utilizados para compra de bens necessários para o exército. Este fato é algo muito presente na memória das famílias paulistas.

Durante as batalhas, os paulistas chegaram a organizar uma campanha que incentivava a população a doar ouro para a causa. As coletas da campanha “ouro para o bem de são paulo” eram utilizados para compra de bens necessários para o exército. Este fato é algo muito presente na memória das famílias paulistas. Fonte: DinizNumismática.blogspot.com.br

Tal como em outras guerras, a propaganda teve grande importância no sentido de promover a causa, gerar apoio e principalmente atrair voluntários. A campanha do MMDC contou com vasta propaganda, por meio de cartazes, panfletos e mesmo cartões postais, tais como a imagem a seguir.

Cartas de campanha para alistamento da Revolução de 1932

Cartas de campanha para alistamento da Revolução de 1932 Fonte: JornalGGN.com.br

Ok, o movimento ganhava cada dia mais força, apoio e voluntários por todo o Estado e, como dito anteriormente, em 9 de julho começaram as batalhas. A princípio, recebemos apoio dos nossos vizinhos de Minas Gerais e Mato Grosso (então Estado de Maracaju) e do Rio Grande do Sul, o mais bem armado. Contudo, de última hora, o governador Riograndense virou a casaca, manooooo!!! Além de declinar o apoio, aliou suas tropas às do Getúlio!!! Pode issoooo, Arnaldo?! =O E ainda piora: mais tarde, Minas Gerais também passa apoiar as tropas Getulistas e aí foi um verdadeiro “mato sem cachorro”…

São Paulo estava cercado, sem apoio de outros Estados, sem fornecimento de armamento e enfrentava grande escassez de recursos, então a saída foi encontrar alternativas. Sabe como é… “a necessidade é a mãe da invenção”!

Durante o conflito, os  engenheiros da Politécnica da USP construíram diversos blindados! Este é um trem blindado, feito por eles. FONTE Centro de Instrução de Blindados General Walter Pires

Durante o conflito, os engenheiros da Politécnica da USP construíram diversos blindados! Este é um trem blindado, feito por eles. FONTE Centro de Instrução de Blindados General Walter Pires

Então, os engenheiros da Politécnicas da USP e do INPE em apoio às tropas, passaram a desenvolver armamentos alternativos e veículos blindados. Uma engenhoca que veio a calhar para as tropas paulistas foi a “matraca”, que produz o som similar à metralhadora com o intuito de espantar as tropas inimigas, mesmo sem uma bala sequer.

A cavalaria foi muito presente nos combates da Constitucionalista de 1932. Aqui podemos ver um voluntário paulista montado, que segura a bandeira dos revolucionários. FONTE

A cavalaria foi muito presente nos combates da Constitucionalista de 1932. Aqui podemos ver um voluntário paulista montado, que segura a bandeira dos revolucionários. FONTE

Os combates duraram 4 meses e, embora tenham lutado com muita honra e força de vontade a situação das tropas paulistas era precária e não é surpresa que tenham sido derrotadas. Contudo, seus objetivos tenham sido alcançados (mesmo que um ano mais tarde) como a proclamação da Constituição de 1934.

rzt_8550

A Revolução Constitucionalista de 1932 foi introduzida no imaginário popular paulistano como um exemplo de luta contra o governo opressor de Vargas. Por este motivo, tudo que está ligado a este evento histórico hoje tem grande valor entre colecionadores. Nesta foto, vemos os pôsteres da época, enquadrados como parte da coleção do Publicitário Ricardo Della Rosa, que foi neto de dois ex-combatentes. Sua conta com mais de 700 peças. Em entrevista para o site de notícias G1, durante 2013, Della Rosa afirma: “Não é uma coleção glamourosa. Ser colecionador de artigos da revolução de 32 é uma coisa muito mais de dedicação do que de preço.” Imagem Raul Zito

 Para maiores informações, vocês podem acessar o site do Arquivo do Estado de São Paulo que é bem legal também!

Ricardo Della Rosa posa para fotografia com capacete e bandeira do exército Constitucionalista nas mãos. Ao fundo, podemos ver outros objeto, cartazes e insígnias de uniforme. FONTE G1 / Imagem: Raul Zito

Ricardo Della Rosa posa para fotografia com capacete e bandeira do exército Constitucionalista nas mãos. Ao fundo, podemos ver outros objeto, cartazes e insígnias de uniforme. FONTE G1 / Imagem: Raul Zito

Até mais, pessoal o////

COMENTÁRIOS

Desembuche aqui:

Share this:

About the Author

PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

View all posts by PaleoNerd

Leave a Reply