Abu Simbel: o templo movido!

Abu Simbel: o templo movido!

Abu Simbel corresponde a dois templos egípcios dedicados aos deuses do Sol Amon-Re e Re-Horakhte, construídos no sul do atual Egito durante o governo do faraó Ramsés II (1279 a.C – 1213 a.C). Estes monumentos arquitetônicos marcavam a zona de fronteira com a Núbia, ao sul do que os historiadores costumam definir como o Novo Império, e conta com quatro estátuas majestosas. O templo foi construído por Ramsés II na antiga Núbia, que escolheu construir um templo dedicado a si mesmo no local onde haviam duas grutas consagradas ao culto das divindades locais. Este fato tinha o objetivo de reafirmar o fato de que Núbia pertencia ao Império Egípcio.

Com aproximadamente 20 metros de altura, as figuras sentadas de Ramsés estavam recostadas sobre a face rebaixada do penhasco, ao lado da entrada principal do templo. Além disso, é composto por três salas consecutivas que se estendem por 56 metros no interior do precipício e tão decorados com estátuas osírides do rei (nas quais ele é representado como o deus da vida, morte e ressurreição, Osíris, segurando o cajado e mangual). Nas paredes estão pintadas referências à vitória de Ramsés II na Batalha de Kadesh, contra os invasores hititas, por volta de 1274 a.C.

interior do templo de Abu Simbel. Percebam as estátuas osírides do rei.

Estátuas osirides do rei no interior do Templo de Abu Simbel. A representação do rei na posição de Osíris servia para reforçar seu caráter divino, enquanto o cajado e o mangual representavam o poder político e militar, centralizados nas mãos do governante. FONTE

O grande templo tem quatro estátuas colossais esculpidos em rocha, presas à parede do penhasco, que retratam Ramsés II, sentado com a coroa dupla da Baixa e Alto Egito. Uma curiosidade interessante sobre o templo é que durante somente dois dias do ano (22 de fevereiro e 22 de outubro) os primeiros raios do amanhecer conseguem penetrar toda a extensão do templo e iluminar o local onde está situado o mais íntimo santuário do templo, com estátuas de Ramsés II e mais 3 deuses. O mais “louco” é que a luz ilumina apenas 3 das estátuas, enquanto mantém a quarta (o deus do submundo) na escuridão.

Camara central do templo de Abu Simbel. Percebam que o quarto deus, da esquerda, permanece nas sombras.

Camara central do templo de Abu Simbel. Percebam que o quarto deus, da esquerda, permanece nas sombras. FONTE

Este fato reforça a impressionante capacidade de engenharia civil dos construtores egípcios, assim como o enorme conhecimento que tinham sobre matemática e astronomia. Ademais, ao norte do templo foi construído um templo menor dedicado à Nefertari, em adoração à deusa da fertilidade Hathor. Esta construção foi adornada com estátuas do rei e da rainha que medem cerca de 10 metros!

Os templos foram esculpidos em um penhasco de arenito na margem oeste do Nilo (atual Kuruskū) e foram encontrado pela expedição arqueológica organizada pelo pesquisador suíço Johann Ludwig Burckhardt, no ano de 1813. Todavia, as explorações do local começaram somente 5 anos depois, sob coordenação do egiptólogo Giovanni Battista Belzoni.

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Entrada do templo principal de Abu Simbel. Aos pés das estátuas (para ser mais exato entre suas pernas) foram esculpidas pequenas figuras que representam seus filhos, sua esposa (Nefertari) e sua mãe Muttuy (também conhecida como Mut-Tuy ou a rainha Ti). Na face sul do templo, podem ser notadas inscrições feitas por mercenários gregos, durante o século VI a.C.. Pois é! Não é de hoje que um bando de tonto costuma escrever seus nomes em templos e estátuas. Fonte

No artigo “A HOMERIC PUN FROM ABU SIMBEL” (algo do tipo “Um trocadilho homérico de Abu Simbel”) o Professor Associado de História Clássica e Antiga da Universidade de New England (Austrália), Matthew P.J. Dillon, afirma que apesar de já existirem contato entre gregos e egípcios durante o período micênico, desde o século VII a.C estas relações se inteintensificaram. Mas, faça um “favorzim” para o “tiu” e não esquece que no período anterior Era Cristã o tempo é contado por nós em ordem decrescente, ou seja, o século VII a.C (700 a.C.-601 a.C) é mais antigo que o século VI a.C (600 a.C.-501 a.C) – e assim por diante.

#ÉSEMPREBOMLEMBRAR! (se você quiser saber mais sobre os micênicos leia outro texto meu, que fala sobre os Guerreiros de Micenas)

Como eu estava falando, o professor Dillon afirma que o Egito era um destino “turístico” para o qual viajavam governantes (como Sólon), aventureiros (como o Heródoto, que é considerado pai da História, Geografia e Antropologia), comerciantes e até mercenários! Neste último caso, estes soldados foram contratados pelo egípcio Psamético I, para realizar um bem-sucedido golpe de estado e tomar o poder, durante o início século VI a.C. Estes gregos, enquanto estavam acampados neste local decidiram entalhar o nome deles nas pernas das colossais estátuas de Ramsés II.

Inscrições realizadas nas pernas das estátuas de Abu Simbel,  por mercenários gregos, em 591 a.C.

Inscrições realizadas nas pernas das estátuas de Abu Simbel, por mercenários gregos, em 591 a.C. FONTE: steven sklifas photography

Segundo este artigo, que foi publicado pela Universidade de Colônia (Alemanha), muitos destes “graffitis” eram apenas nomes com referências à sua etnia ou patronímico (um apelido de família, cuja origem se encontra no nome do pai ou de um ascendente masculino) como “Helesibios, o Teiano” ou “Python, filho de Amoibichos”. Abaixo, deixo a transcrição traduzida do texto, que revela a mais longa inscrição encontrada:

Inscrição-abu-simbel

“Quando o Rei Psamético veio à Elephantine/Isto foi escrito por aqueles que, com Psamético, filho de Theokles/Navegaram e vieram para Kirkis, tanto quanto o rio nos permitiu;/Potasimto comandou os não-nativos, e Amasis, os egípcios;/Archon, filho de Amoibichos VI, nos escreveu e Pelekos, filho de Oudamos VII”. A inscrição é Dórica e apresenta autoria de duas pessoas como responsáveis. O mais interessante é que a presença desses registros foi importante para auxiliar os arqueólogos a decifrarem melhor a história do alfabeto grego. FONTE: Universität zu Köln (Universidade de Colônia)

Em meados do século XX, o governo egípcio decidiu realizar a construção de uma hidrelétrica  passa suportar a crescente demanda por energia do país e, para tanto, precisou criar a represa de Al-Sadd al-ʿĀlī (em inglês Aswan High Dam). Com custos que atingiram a soma de 1 bilhão de dólares esta obra ameaçava submergir diversos templos (dentre eles o de Abu Simbel) e, por esta razão, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) decidiu promover um projeto junto com o governo egípcio, com objetivo de salvar este importante lugar histórico.

Em 1950, intelectuais do mundo todo deram início a reuniões com intuito de propor alguma solução para o problema. Dentre as ideias, estas pessoas pensaram em tentar construir uma redoma de vidro, que transformasse o lugar num aquário – algo que não daria muito certo, já que o arenito seria decomposto pela água. A segunda opção era mover os templos (SIM, MOVER TUDO PARA OUTRO LUGAR!) e, para isso, foram colocadas diversas ideias para realizar este feito sem danificar o templo. Por fim, estes pesquisadores chegaram à conclusão de que seria necessário desmontar todos os templos e levar peça-por-peça para a parte superior do desfiladeiro. P¨&% IDEIA LOUCA!!!!

Modelo em escala que mostra o lugar original do templo. Todo este complexo foi levantado a 60 mestros, para não ser inundado pela construção da represa.

Modelo em escala que mostra o lugar original do templo. Todo este complexo foi levantado a 60 mestros, para não ser inundado pela construção da represa. FONTE: WikiMedia

Em 1959 os membros da UNESCO deram início a uma campanha para angariar fundos para o projeto, que só teve início em 1963. Desta forma, reuniram uma equipe internacional de engenheiros e cientistas com o financiamento de mais de 50 países, os quais deram início à transferência de mais de 16.000 blocos para um patamar que ficava 60 metros acima do templo. Cada um dos pedaços foi catalogado para possibilitar a reconstrução da estrutura.

O primeiro passo envolveu remover 300.000 toneladas de pedras que ficavam sobre o templo para poder dar início à desmontagem dos tijolos e realizar cortes nas estátuas e nas paredes, que não poderiam ser erigidas por completo por causa do risco de ruírem no processo. Para isso, os cortes foram realizados com serras, que eram manuseadas por dois homens, e os pedaços foram transportados em caminhões por um longo caminho para evitar trepidações. Tudo “beeem devagarzinho”, para não dar M*&¨%.

Fotografia de 1966 que demosntra a reconstrução do templo, em seu novo lugar. à direita, vemos a face de uma das estátuas que havia sido cortada.

Fotografia de 1966 que demosntra a reconstrução do templo, em seu novo lugar. à direita, vemos a face de uma das estátuas que havia sido cortada. FONTE

MANO! As proporções deste feito são ENORRRRRMES!!! Vocês conseguem imaginar isso??

O templo menor, de Amada, foi transposto de forma diferente porque já estava bem danificado pelo tempo. Por este motivo, os engenheiros decidiram “amarrar” tudo e reforçar a base do templo com vigas de concreto, para poderem levar o templo todo de uma só vez para outro lugar. Para mover o templo, foi construída uma ferrovia, na qual o templo seria puxado a uma velocidade de 125 metros por dia!

Para piorar a situação, a construção da represa estava em andamento e a cheia do Nilo começou a inundar outros templos como o da deusa Philae e construções romanas que existiam na região. Por este motivo, para remover estas construções, uma equipe de mergulhadores que soltaram cada pedacinho do templo com martelos e cinzéis. Depois disso, eles utilizaram bexigas de ar que levavam os pedaços para a superfície – tudo isso com uma péssima visibilidade dentro da água.

Como a construção estava originalmente situada sob uma montanha, foi necessário reconstituir esta paisagem sobre o templo. Para isso, os pesquisadores criaram um enorme domo, sobre o qual as 300.000 toneladas de pedras da montanha foram cuidadosamente recolocadas. FONTE

Como a construção estava originalmente situada sob uma montanha, foi necessário reconstituir esta paisagem sobre o templo. Para isso, os pesquisadores criaram um enorme domo, sobre o qual as 300.000 toneladas de pedras da montanha foram cuidadosamente recolocadas. Detalhe do processo, na década de 1960 e como o templo está hoje.

O processo de reconstrução do templo de Abu Simbel só teve início em janeiro de 1966 e contou com a contrução de um enorme domo de concreto, sobre o qual foi reacomodada a montanha de pedras que recobria o templo, para parecer que ele nunca havia sido movido. Um enorme problema para a reconstrução eram os ventos desérticos, que dificultavam o trabalho dos guindastes. Além disso, foi necessário construir uma estrutura de encaixe em concreto para recolocar a face das estátuas que, posteriormente tiveram as áreas de corte recobertas com cimento.

A transposição dos templos que ficavam na região só foi concluída em janeiro de 1968 (20 meses após o prazo determinado) e a construção da hidrelétrica foi concluída em 1970. Quase dez anos depois, todos estes monumentos foram designados coletivamente um Património Mundial da UNESCO e transformados no Museu da Núbia e Aswam, que fica a céu aberto, reunindo os templos de Abu Simbel, Philae, Amada, Derr, Ouadi Es Sebouah, Dakka, Maharraqah, o templo de Talmis, ak-Kartassi, o templo de Beit el Quali.

Vista aérea do complexo de templos de Abu Simbel, em Aswam, Egito. FONTE: SkyTamer.net

Vista aérea do complexo de templos de Abu Simbel, em Aswam, Egito. FONTE: SkyTamer.net

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Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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