Quem quer ser Kamikaze?

Quem quer ser Kamikaze?

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), milhares de pilotos japoneses fizeram o sacrifício final em nome de seu país, tornando-se, basicamente, homens-bomba voadores. Mas o que fez esses homens tão dispostos a sacrificar suas vidas de tal maneira? Eles foram realmente voluntários envolvidos pela propaganda de guerra ou foram forçados? Além disso, por que o exército japonês utilizou desta tática no final das contas?

Pra início de conversa, os militares japoneses estavam na pior, já que anteriormente haviam sido detonados pelos Aliados e enfrentavam grande escassez de armamento e pessoal. Além disso, os inimigos contavam com tecnologia de guerra da qual o Japão não dispunha.

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Aeronave japonesa atingida antes de atingir navio Aliado. Fonte

Pra se ter uma ideia, em junho 1942, o Japão perdeu mais tripulantes do que tinham conseguido treinar em um ano inteiro pouco antes do início da guerra. O treinamento rápido e adequado de novos pilotos com a guerra “comendo solta” simplesmente era INVIÁVEL! Sacou o sufoco? Isto resultou na convocação de pilotos inexperientes (entre 17 e 20 anos, geralmente) para operação de aeronaves já obsoletas e aí já viu: massacre à vista!

Além disso, para a cultura milenar japonesa, é preferível a “morte honrada” do que ser pego e derrotado pelo inimigo. O que isso significa? Na obra Kamikaze Diaries de Emiko Ohnuki-Tierney, o autor revela suas memórias registradas durante a guerra e declara que uma das primeiras coisas que aprendeu como um “estudante de soldado/piloto”, como se auto-denomina, foi o suicídio caso fosse completamente cercado pelo inimigo:

“…use seu dedo para puxar o gatilho (do rifle) enquanto aponta a arma precisamente sob o queixo para que a bala mate-o instantaneamente. Use esta técnica caso encontre-se preso em uma caverna ou em uma trincheira cercado pelo inimigo. Além disso, a fuga (caso saísse vivo) seria tratada pelos colegas de farda com o mesmo rigor: um tiro pelas costas, já que era considerado inaceitável ser capturado pelo inimigo ou acovardar-se da luta…”

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Piloto Kamikaze recebe as homenagens antes de seu último vôo, 1945. Fonte

Embora a ideia de enviar pilotos em missões suicidas seja em grande parte atribuída ao Capitão Motoharu Okamura, não há registros de pilotos japoneses intencionalmente lançando seus aviões contra o inimigo antes da iniciativa de suicídio de um piloto em 1944. Contudo, com base neste conceito de honra e dada a situação japonesa como anteriormente citado, o exército japonês passou a lançar mão deste tipo de ação conhecida como “kamikaze” caso a aeronave já estivesse muito danificada durante a batalha a ponto de não conseguir voltar à base. Bom, daí já que vai cair, que caia em cima do inimigo, né?

O termo “kamikaze” é entendido como “vento divino”, nome anteriormente dado a um tufão lendário que ajudou a parar uma invasão mongol durante o século 13.

Okamura deu a ideia e o vice-almirante da marinha japonesa, Takijiro Onishi foi responsável pela criação do primeiro esquadrão de pilotos kamikazes. Onishi teria solicitado a seus superiores a permissão da criação um esquadrão suicida, a qual foi concedida com uma condição: recrutar apenas voluntários. Anunciado o recrutamento, 23 pilotos se voluntariaram prontamente e a partir daí muitos outros também, a ponto de haver mais voluntários que aviões, na proporção de 3 x 1.

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Meninas da escola Chiran em homenageiam piloto kamikaze com ramos de cerejeira (tradição japonesa). A aeronave parte com bomba de 250kg em Okinawa em 12 de Abril de 12945. Fonte

Maaas esta é a versão do exército japonês. Segundo relatos de alguns pilotos sobreviventes, eles eram “forçados” a se voluntariar em nome do Império Japonês. Yukio Seki, que comandou o primeiro esquadrão dos 23, em um dos registros de suas memórias disse:

“o futuro do Japão é sombrio, uma vez que o exército obriga a morte de um dos seus melhores pilotos…Eu não vou para esta missão pelo o imperador ou pelo Império…Eu vou porque me obrigaram”.

afinal, como eram convencidos a entrar no programa kamikaze?

Como observado no artigo de Mako Sasaki, “Aqueles que tornaram-se um piloto Kamikaze – e como se sentem em relação a sua missão suicida”, publicado no The Concord Review, alguns homens foram recrutados para o programa por meio de um questionário simples, composto por uma única pergunta de múltipla escolha: “Você deseja sinceramente/não deseja ser envolvido em ataques kamikazes?”. Tudo o que deviam fazer era circular a resposta escolhida. Os soldados eram livres para declararem que não desejavam participar, porém, eram obrigados a assinar seus nomes.

Como aponta Sasaki , a pressão sobre os homens jovens para fazer algo por seu país durante esse tempo foi significativa e a ameaça de retaliação caso negasse era bastante real. Pior: havia potencial retaliação não só ao soldado, mas também à sua família ou até mesmo a própria família poderia o rejeitar, por desonra e covardia. Ou seja, era na prática “optatório”, se é que me entende….

Pilotos posam com filhote poucos dias antes de suas missões. Três dos 5 desta foto têm 17 anos, os demais 18 e 19 anos. Da esquerda para direita: Tsutomu Hayakawa, Yukio Araki, Takamasa Senda back row Kaname Takahashi, Mitsuyoshi Takahashi. 1945. Fonte

Mas veja por outro lado: nem todos os kamizaes morriam! [na primeira tentativa]. Segundo o manual de treinamento, caso o alvo não fosse localizado (por exemplo sob más condições climáticas), o piloto poderia retornar à base e tentar novamente em outra oportunidade, afinal seria uma pena perder a vida à toa sem alcançar o objetivo de atacar o inimigo e morrer honrado, um desperdício. Além disso, quando se trata de termos práticos do exército, seria um combatente e um avião a menos no escasso esquadrão…

É importante lembrar que, embora o voluntariado fosse praticamente compulsório, a grande maioria dos pilotos que atuaram como kamikaes o fizeram com grande sentimento de honra e genuinamente acreditavam que esta seria uma maneira de evitar a derrota do Japão. Como Ichizo Hayashi declarou em uma carta que ele escreveu em abril de 1945, poucos dias antes de sua morte:

“Tenho o prazer de ter a honra de ter sido escolhido como membro de uma Força de Ataque Especial que está no seu caminho para a batalha, mas não posso deixar de chorar quando eu penso em você, mamãe. Quando reflito sobre as esperanças que você tinha para o meu futuro … Eu me sinto tão triste que eu vou morrer sem fazer nada para lhe trazer alegria. “

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Bárbara Gascó

Olá, terráqueos!

Sou Bárbara Gascó, conhecida também como Barbrão por minha conhecida habilidade em várias esferas, tipo faz-tudo =) e esposa do Sr. Denis Gascó, PaleoNerd.

Sou Arquiteta e Urbanista e atuo na área desde 2012. Paralelamente, escrevo sobre Arquitetura+História e, como única representante do sexo feminino neste navio pirata, pautas acerca de questões sobre Feminismo e Igualdade de gêneros.

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