O “ZAP ZAP” do Iluminismo

O “ZAP ZAP” do Iluminismo

Historiadores da Universidade de Stanford usaram tecnologia digital para desenvolver um software que fosse capaz de reconstruir a “rede de contatos” (network) de correspondência do Iluminismo, que conectava autores como Locke, Voltaire e Rousseau. Se você não “tá ligado” em quem foram esses caras ou não faz a mínima ideia do que foi o Iluminismo, dá uma olhada no texto “Os ‘Baladeiros” Iluministas” já publicado aqui no blog para ficar por dentro do assunto.

Da esquerda para a direita, podemos ver retratos de Locke, Rousseau e Voltaire. Percebam O TAMANHO DA NAPA do Locke! Foi mal, não resisti a "zueira", porque "a zueira, never end!"

Da esquerda para a direita, podemos ver retratos de Locke, Rousseau e Voltaire. Percebam o TAMANHO DA “NAPA” do Locke! Foi mal, não resisti, porque “a zueira, never ends!” Fontes1, fonte2, fonte3

Agora, se você está com preguiça de clicar lá, basta lembrar que o Iluminismo corresponde a um movimento intelectual burguês que ocorreu entre fins do século XVII e todo o século XVIII e tinha o objetivo de questionar os paradigmas sociais e econômicos do Antigo Regime. Caracterizado por uma política absolutista e uma organização econômica muito conhecida, chamada mercantilismo, o ordenamento do Antigo Regime tinha raízes nas estruturas da sociedade medieval e favorecia uma rígida hierarquia social, que excluía a participação burguesa nas decisões políticas do local.

Além disso, estes homens se colocavam contra as pregações da igreja e defendiam que as luzes do conhecimento chegavam para anular a ilusão e dissolver mitos e superstições. Por esta razão, podemos afirmar que o Iluminismo, foi um movimento que lutava contra o absolutismo monárquico, contra os monopólios mercantilistas e contra a mentalidade submissa, reforçada pela religião.

Para a galera que tem se preparado para enfrentar os vestibulares, deixo aqui, uma breve lista que aponta as principais características do Iluminismo:

características-iluminismo

Uma vez que estabelecemos o que foi o Iluminismo, posso falar um pouco mais sobre estes três personagens, cujas ideias foram fundamentais para o desenvolvimento das ideias iluministas e terminaram por influenciar movimentos por todo mundo – inclusive no Brasil.

John Locke: Intelectual inglês que viveu entre 1632-1704 e ficou conhecido tanto na filosofia, como no direito, nas ciências políticas e história. Este pensador é, para muitos, considerado o “pai do iluminismo” por desenvolver a proposta dos DIREITOS NATURAIS DO HOMEM (à vida, à liberdade e à propriedade), os quais definia como “direitos inalienáveis” – que não poderiam ser “retirados” – assim como estabeleceu, as bases do Liberalismo Jurídico. Tido como continuador da vertente filosófica empirista, a qual valorizava o uso da experiência sensorial e da reflexão como pontos fundamentais na formação intelectual e moral do ser humano, Locke ficou conhecido no mundo de sua época por ser o primeiro a defender o que chamava de “DIREITO DE RESISTÊNCIA À TIRANIA”. Neste sentido, este autor criticou a filosofia contratualista de Hobbes para defender que a população teria o direito de derrubar do poder um governante que não estivesse interessado em garantir os direitos individuais de todos. Uma ideia que, como vocês podem imaginar, serviu de argumento para muitas revoltas.

Rousseau: Mais conhecido pelo seu sobrenome, o suíço Jean-Jaques Rousseau viveu entre 1694 e 1778. Atuou como filósofo, escritor, compositor e teórico político, tendo sido o primeiro iluminista a falar diretamente sobre as desigualdades do homem, na sociedade do Antigo Regime. Sua obra “O discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens” estabelecia a existência de duas formas de desigualdades fundamentais entre os homens:

  • A desigualdade física, que diferenciava os homens segundo a idade, forças do corpo, saúdes e (vejam só!) qualidades do espírito.
  • A desigualdade política, por sua vez, se daria em função dos privilégios que alguns possuem, em prejuízo de outros.

Já em sua obra “O Contrato Social”, este autor dá continuidade ao debate contratualista (inaugurado por Thomas Hobbes e continuado por seu antecessor iluminista, John Locke), com a qual defende a ideia de que, para acabar com os males da vida em sociedade, os homens precisariam elaborar um acordo para que a segurança e o bem-estar coletivo prevalecessem. Para ele, este acordo deveria ser baseado no modelo democrático clássico, formado por Assembleias.

A inovação de Rousseau, no contratualismo, está no fato dele ter invertido a visão de seus precursores ao defender o estado de natureza como um modelo para a vida do homem. Com este seu olhar sobre o “bom selvagem”, Rousseau lançou fortes críticas à propriedade privada e afirmava que as vontades particulares e individuais não poderiam afetar os interesses da comunidade e do bem comum. Desta forma, o exercício da liberdade do homem só seria possível por meio de um governo que fosse formado pelo próprio povo.

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) é considerada um dos mais importantes documentos da história contemporânea, por considerar todos os homens iguais e garantir seus "direitos inalienáveis". Mas, é claro que muito disso ficou só no papel. Além do mais, este documento não falava nada sobre a escravidão.

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) é considerada um dos mais importantes documentos da história contemporânea, por considerar todos os homens iguais e garantir seus “direitos inalienáveis”. Mas, é claro que muito disso ficou só no papel. Além do mais, este documento não falava nada sobre a escravidão. FONTE: WIKIMEDIA

Voltaire: Talvez um dos personagens mais controversos do iluminismo, Françoise-Marie Arouet (Voltaire era apenas um pseudônimo, ou seja, um apelido que ele utilizava para assinar suas cartas) não era conhecido por valorizar a vontade do povo não! Entretanto, ele foi o cara que mais criticou o fato de estruturas tradicionais (principalmente o clero, para ele) restringirem as liberdades individuais e terminarem por impor uma única forma de pensar. Apesar disso, ele condenava o preconceito religioso e defendia a tolerância, assim como a liberdade de expressão – uma coisa que, na atualidade talvez precisemos retomar, né?!

Como vocês sabem, naquela época, não existiam as formas de comunicação que conhecemos, mas, mesmo assim, estes pensadores costumavam “trocar ideias” entre eles. Para isso eles usavam uma das mais antigas formas de comunicação à distância da História: as cartas!

Agora, imagine VOCÊ – que fica todo desesperado (a) quando o namoradinho (a) ou amigo (a) demora mais que trinta segundos para responder à mensagem do seu “ZAP ZAP” – que estes documentos eram todos manuscritos e levavam MESES para chegar até seu destino!

Mas isto não impediu Voltaire, por exemplo, de escrever cerca de 18.000 cartas às centenas de pessoas e, com base nestes registros, uma equipe de pesquisadores liderados pelo historiador e professor da Universidade de Stanford, Dan Edelstein, foram capazes de criar um mapa, o qual oferece uma perspectiva mais ampla sobre a forma de comunicação entre estes intelectuais do século XVIII.

Captura de imagem do programa Republic of Letters, que mostra os trajetos de cartas durante entre 1667 e 1720. FONTE

Captura de imagem do programa Republic of Letters, que mostra os trajetos de cartas durante entre 1667 e 1720. FONTE

Os intelectuais iluministas foram fundamentais para o estabelecimento de ideias até hoje estão presentes em importantes documentos de Estado, como por exemplo a concepção de tripartição dos poderes (em Executivo, Legislativo e Judiciário), proposta por Montesquieu. Todos estes princípios tiveram papel fundamental no reordenamento político deste período e ficaram expressos em importantes documentos históricos como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, criada durante a Revolução Francesa.

Denominado Mapping the Republic of Letters (Mapeando a República das Letras), este projeto estuda a rede de correspondência entre intelectuais iluministas, que se comunicavam de países e continentes diferentes. Um trabalho que, como é manifesto na descrição do site deste projeto, abarca cartas trocadas desde “a era de Erasmus até a era de Franklin”.

Imagem que traça uma linha do tempo sobre o projeto, no site do Republic of Letters.

Imagem que traça uma linha do tempo sobre o projeto, no site do Republic of Letters.

Toda esta comunicação facilitou a disseminação das críticas e ideias, sobre as quais já falei, assim como notícias sobre política e a circulação de pessoas e objetos pelo mundo durante o que chamamos de Era Moderna. Para isso, estes pesquisadores desenvolveram um programa capaz de cruzar todas as informações que foram retiradas destes documentos e formar uma linha do tempo com estas fontes históricas. UM P&¨%$ TRABALHÃO que durou entre 2008 e 2013, assim como, contou com diversas parcerias internacionais para se ter acesso aos acervos destes pensadores modernos – lembrem-se que, para os historiadores, moderno não tem nada a ver com os dias de hoje, mas sim com o período histórico denominado Era ou História Moderna, que vai desde o século XV até o “finzinho” do XVIII.

Abaixo, deixo o vídeo institucional do projeto para vocês darem uma olhada:

Desta forma, o projeto chegou à conclusão que, durante a primeira metade do século XVIII (1700-1750), Paris e Londres eram, alguns dos destinos de grande parte destes documentos. Entretanto, como podemos ver na imagem acima, Londres foi o destino da maior quantidade destas cartas, enquanto Paris, ocupava o quinto lugar das cidades às quais eram destinados estes registros escritos. Em segundo lugar, fica a cidade de Oats, na Inglaterra, seguida por Amsterdã (Holanda) e Dublin (Irlanda).

Isto ajuda a mostrar que, apesar de usarem uma tecnologia que, para muitos de vocês hoje é ultrapassada, estes intelectuais mantinham contado direto entre si, por onde poderiam se dedicaram a debater ideias iluministas, ou simplesmente contar a fofoca do dia, um para o outro!

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About the Author

PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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