Julia Margaret Cameron: uma fotografia, uma paixão

Julia Margaret Cameron: uma fotografia, uma paixão

Galera, hoje estou a fim de bater um “papo cabeça” com vocês e falar sobre uma inglesa que desafiou muito da cultura de seu tempo e deu início a trabalhos fotográfico que hoje consideramos algo muito inovador para a época. Julia Margaret Cameron foi uma fotógrafa que se dedicou a realizar releituras de obras literárias, trabalhando com cenários construídos dentro de casa. Uma coisa que pode parecer super simples mas, no século XIX, apresentava enormes dificuldades, já que um fotógrafo, nesta época, precisava ser um verdadeiro cientista para conseguir revelar as imagens que sacava com sua câmera.

ulia Margaret Cameron, fotografada por seu marido, Henry Herschel Hay Cameron, por volta de 1870. O mais impressionante foi que esta mulher começou seus estudos com fotografia já com 48 anos de idade!!

ulia Margaret Cameron, fotografada por seu marido, Henry Herschel Hay Cameron, por volta de 1870. O mais impressionante foi que esta mulher começou seus estudos com fotografia já com 48 anos de idade!! A imagem é parte do acervo do Victoria e Albert Museum, na Inglaterra. Fonte: Wikimedia

Por este motivo, para compreender o trabalho de J.M. Cameron, é necessário ter em mente que o século XIX resulta um período de grandes transformações de caráter social, político e cultural que se pauta no desenvolvimento de um sistema econômico que veio a ser definido como Capitalismo Monopolista e caracterizou o período histórico da segunda metade do século XIX, conhecido como a Segunda Fase da Revolução Industrial.

Neste momento, os europeus presenciavam a larga exploração de carvão e ferro, com intuito de suprir a incansável produção siderúrgica, de máquinas pesadas e produtos químicos, que ganhavam o primeiro plano, que inundavam as fábricas da Europa. Houve, a partir de então, uma associação entre os Estados e estas empresas com o mútuo interesse em obter novos mercados consumidores e fornecedores de matéria-prima nos continentes africano e asiático. Dando início a uma prática imperialista sobre estas regiões, por meio do estabelecimento de colônias e protetorados capazes de garantir produtos e mão-de-obra a baixos custos.

Fotografia de Charles Hay Cameron, feita por Julia em 1864. Esta imagem se encontra no Museu J. Paul Getty, em  Los Angeles. Fonte: Wikimedia.

Fotografia de Charles Hay Cameron, feita por Julia em 1864. Esta imagem se encontra no Museu J. Paul Getty, em Los Angeles. Percebam que ela procurou reforçar imagem de um homem forte e áustero do seu marido, que repousa a mão sobre o busto e olha diretamente para a câmera. Fonte: Wikimedia.

Todo este período é algo que costuma aparecer bastante nos vestibulares e, desde aproximadamente meados do século XIX, a Inglaterra já passava por um período que ficou conhecido como a Era Vitoriana (1837-1901), no qual os membros da dinastia Hanover conduziram o país a um enorme desenvolvimento industrial e expansão dos territórios. Desta maneira, esta nação se tornou o maior império deste período, com produtos que eram vendidos por todo o mundo e uma fortíssima produção bélica.

É, em meio a esta sociedade burguesa, Cameron – herdeira de uma família com centenária relação com a Companhia das Índias Orientais –  se desenvolveu e passou a criar suas fotografias. Dentro um modo de vida misógino, marcava esta época, a mulher estava confinada exclusivamente ao espaço privado (dentro de casa), no qual o quadro ideal da felicidade seria o círculo familiar e a satisfação do homem.

 Inserida nesta opressora realidade, a mulher é incumbida ao papel de “senhora do lar” e deveria garantir o perfeito funcionamento da familia e das relações desta com o meio externo, ou seja, as mulheres precisavam se adequar ao espaço interno da casa e só poderia, se aventurar pelas ruas da cidade em horários exatos e com motivos que a permitissem sair. NÃO ERA NADA FACIL!!

Fotografia de Charles Darwin, por Julia Margaret Cameron. Ao ficar conhecida com seu trabalho, esta artista fotografou muitas pessoas famosas da época!

Fotografia de Charles Darwin, por Julia Margaret Cameron. Ao ficar conhecida com seu trabalho, esta artista fotografou muitas pessoas famosas da época!

Desta forma Julia Margaret Cameron, como uma “boa” mulher burguesa, estava confinada num ambiente patriarcal, típico da burguesia inglesa do século XIX e, como forma de ocupar seu tempo, recebeu sua camera como presente de seu marido em 1863. O problema é que, nesta época, você não pegava uma câmera e saía por ai fotografando! Era necessário aprender uma verdadeira ciência para aprender a utilizar este dispositivo  e, conforme o autor de “Julia Margaret Cameron: A Critical Biography”(Julia Margaret Cameron: Uma Biografia Crítica), Colin Ford, que foi diretor e curador da National Portrait Gallery, em Londres, entre 1972-82, sua primeira fotografia foi somente um borrão!

Aos 48 anos de idade, Cameron precisou contar com a ajuda de um amigo da familia, Oscar Gustave Rejlander, que é considerado “o pai da fotografia artística” pelos estudiosos da história da fotografia. Com ele, Julia aprendeu o básico sobre câmera e revelação, pois um fotógrafo precisava aprender a REVELAR SUAS FOTOGRAFIAS TAMBÉM!!

Denominada "Angel of the Nativity, esta fotogradia de uma criança demonstra muito bem a influencia da mentalidade religiosa sobre o olhar de Julia, que conseguiu capturar a ideia de uma inocência angelical com esta imagem.

Denominada “Angel of the Nativity, esta fotogradia de uma criança demonstra muito bem a influencia da mentalidade religiosa sobre o olhar de Julia, que conseguiu capturar a ideia de uma inocência angelical com esta imagem. Esta imagem se encontra no Museu J. Paul Getty, em Los Angeles. FONTE: Wikimedia

Conscientemente, esta artista rejeita o detalhe em favor da luminosidade, conferindo aspectos idílicos às suas imagens, as quais procurarão representar obras literárias e cenas históricas. Mãe devota e muito religiosa, Cameron foi muito influenciada pelo imaginário da literatura vitoriana e, por este motivo, seu assunto girou em torno das mulheres como mães divinas, acompanhadas de crianças com características angelicais.

Sempre voltada para o sentimento, em contraposição à técnica, J. M. Cameron foi (e ainda é) capaz de tocar as pessoas, como demonstra a afirmação do chefe curador do de Young Museum, em São Francisco (EUA), Julian Cox, que é autor do livro “In Focus: Julia Margaret Cameron: Photographs from the J. Paul Getty Museum” (Em foco: Júlia Margaret Cameron: Fotografias do Museu J. Paul Getty):  “She believed passionately in the idealing and transformative power of art and found in the camera a tool of expression that could be used to harness her ‘deeply seated love of the beautiful” [Ela acreditou, de forma apaixonada, no poder idealizador e transformador da arte e encontrou na câmera, uma ferramente de expressão para aproveitar seu “amor profundo pela beleza”].

Incluida no que Michelle Perrot definiu como “processo de nidificação” – no qual a burguesia vitoriana se encerrava em pequenos espaços destinados ao lazer e por onde circulavam membros de círculos aristocráticos e burgueses – o imagético revolucionário de Cameron a fez ganhar respeito pelos críticos na imprensa fotográfica. Neste sentido, ao receber diversas críticas por pessoas que apontavam sua obra como relevante e expressiva, mas que falhava na técnica, esta autora foi capaz de superar a situação ao fazer uso do microcosmo que o espaço privado da casa e dos pequenos grupos de elite lhe oferecem para ter acesso a galerias, nas quais viria a expor suas obras.

Entitulada "Sadness" (Tristeza), esta fotografia revela a atriz Ellen Terry que, na época contava com 16 anos de idade. Olha só essa imagem! Ela conseguiu capturar uma tremenda naturalidade e usar de uma iluminação poderosa. Entretanto, esta técnica dela foi muito criticada, neste perído. Fonte: Wikimedia

Entitulada “Sadness” (Tristeza), esta fotografia revela a atriz Ellen Terry que, na época contava com 16 anos de idade. Olha só essa imagem! Ela conseguiu capturar uma tremenda naturalidade e usar de uma iluminação poderosa. Entretanto, esta técnica dela foi muito criticada, neste perído. Este registro está na Royal Photographic Society e foi tirada em 1864.Fonte: Wikimedia

            Desta maneira, em 1864, Julia Cameron conseguiu expor suas fotografias na Galeria Colnaghi (uma das mais proeminentes galerias do período na área de publicações de fotografia e que existe até os dias de hoje!), onde vendeu diversas obras. Talvez impulsionada por suas vendas, ela registrou 505 fotos pela Copyright Bill entre os anos de 1864-75, fato que mostra o interesse comercial da autora com sua obra.

Em 1875, Cameron muda-se para o Ceilão, onde vem a falecer 4 anos depois. Suas fotografias foram expostas em 1986, em uma exposição denominada  “Whisper of the muse : the Overstone album & other photographs”, situada no J. Paul Getty Museum – California. Esta instituição pôde adquirir 302 fotos realizadas por Cameron, durante 12 anos e, em 1995, realizou um colóquio sobre sua vida organizado por David Featherstone.

Sua obra apresenta uma transição que parte da experimentação no espaço interno da casa e segue para os ambientes externos, evidenciando que primeiro ela conquista seu lar, reelaborando-o a partir de um olhar idílico.

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O astrônomo John Herschel também foi assunto do trabalho de Cameron. Herschel foi capturado com um olhar distante, que remete ao ato de reflexão filosófica que envolve seu trabalho, e o contraste entre as sombras e a luz reforça, os traços de seu rosto. Se você não sabe desse cara, ele nomou 7 luas de Saturno e ofereceu avanços importantes na tecnologia fotográfica, além de ter estudado o daltonismo. Esta imagem é parte do acervo da The National Gallery, de Londres. FONTE: Wikimedia

            Resistente às críticas burguesas, Cameron seguiu em frente e conseguiu publicar, expor, vender suas imagens. A despeito de tudo que a sociedade colocava contra seu desenvolvimento, esta mulher soube usufruiu do espaço de sociabilidade no qual estava inserida como uma força que a impulsionou a galgar espaços nunca antes alcançado por outras.

            Uma mulher doce e com uma educação calcada na religiosidade, esta artista se revelou uma absoluta diretora de arte, ao organizar cenários e composições complexas com os materiais encontrados no interior de sua casa, algo que demonstra a versatilidade de sua imaginação e criatividade, assim como a propriedade de um olhar profundo e encantado. Olhar que, focado na beleza dos padrões de sua época, foi reapropriado e resignificado com um olhar fotográfico que, em nada, condizia à mentalidade e prática feminina de sua época.

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PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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