Como um workshop de fotografia para casamentos melhorou meu olhar sobre História

Como um workshop de fotografia para casamentos melhorou meu olhar sobre História

 

Como vocês já devem saber (afinal, está na descrição do site), além de ser formado em História, realizei uma especialização em Artes Visuais, intermeios e educação pela Escola de Extensão da UNICAMP, onde criei uma monografia destinada a tratar sobre as relações entre fotografia e memória, por meio de uma série de imagens que retratavam ruínas tomadas pela natureza. Desde então, a fotografia cresceu como uma paixão e uma outra forma de expressar meu olhar sobre o mundo. Contudo, a fotografia sempre permaneceu como um hobbie, que utilizo para treinar meu olhar e me auxiliar a entender melhor a realidade.

Aconselhado pela equipe da Dois Filmes, decidi participar de um workshop sobre aprimoramento de técnicas fotográficas para casamentos, organizado pelo casal Fábio e Júlia Borgatto na cidade de Trancoso (BA), entre os dias 13 e 14 de julho. Dotados de grande criatividade e um olhar sensível, esta dupla é especializada em realizar registros artísticos deste tipo de evento e reúnem grande experiência internacional, com passagens pelo Brasil, Irlanda, França, Itália, Inglaterra, Escócia, Espanha e Estados Unidos.

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Para tanto, desenvolveram este workshop que aborda aspectos relacionados a criatividade do olhar fotográfico, bem como questões que circundam o empreendedorismo nesta área. Desta maneira, estes profissionais introduzem na questão da fotografia, memória e identidade como pontos fundamentais a serem considerados durante o processo de captura das imagens.

Mas vocês devem estar se perguntando aí: Que “caçarola” um workshop de fotografia para casamentos tem a ver com História?

Para responder esta pergunta, gostaria de usar um trecho do livro Fotografia & História, do arquiteto, fotógrafo e professor no Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP, Boris Kossoy, para quem:

“O fragmento da realidade gravado na fotografia representa o congelamento do gesto e da paisagem e, portanto, a perpetuação de um momento, em outras palavras, da memória: memória do indivíduo, da comunidade, dos costumes, do fato social, da paisagem urbana, da natureza. A cena registrada na imagem não se repetirá jamais. O momento vivido, congelado pelo registro fotográfico, é irreversível. ”

(Kossoy, B. História & Fotografia, Ateliê Editorial, São Paulo, 5ª ed., 2015, p.171-172)

Agora o assunto fica um pouco mais “cabeçudo”, pois precisamos perceber que é, através da fotografia, que podemos nos remeter ao passado graças ao seu poder de “congelamento”, no qual o passado se torna presente. Como uma mensagem que se processa através do tempo, a fotografia tem seu significado alterado, ou seja, está em constante transformação, já que desenvolve diferentes sentidos e funções com o passar do tempo.

Título: “Padrões Proscritos” Técnica: fotografia, 3456 pixels X 2304 pixels Ano: 2013 Autor: Denis F. Gascó

Título: “Padrões Proscritos”
Técnica: fotografia, 3456 pixels X 2304 pixels
Local/Ano: Vinhedo – 2013
Autor: Denis F. Gascó

Desta forma, devemos ter em mente que toda imagem é histórica e, por este motivo, o marco de sua produção e o momento da sua execução são registrados na superfície da foto. Por conseguinte, a história penetra imagens, de acordo com as opções realizadas pelo fotógrafo, o qual constrói um sentido através de signos de natureza não verbal para expressar sua visão, que é carregada de objetos de civilização e significados de cultura.

Com isso, é importante observar que a imagem fotográfica é constituída por dois sentidos: o denotativo e o conotativo. No sentido denotativo não há espaço para interpretações, uma vez que o que o receptor enxerga e assimila é uma cópia literal, objetiva, prática e – na maioria das vezes – fiel de um determinado referente. Já as diferentes interpretações dão um sentido conotativo à imagem, uma vez que a colocam em outros contextos, dando a ela novos sentidos carregados de valores distintos. Essas são formas conotativas “concretas”, pois interpretam a cena observando os elementos constitutivos da imagem.

Título: “Moldura do Natural” Técnica: fotografia, 10cmX15cm Ano: 2009 Autor: Denis F. Gascó

Título: “Moldura do Natural”
Técnica: fotografia, 10cmX15cm
Local/Ano: Vinhedo – 2009
Autor: Denis F. Gascó

Por este motivo, é possível entender que a fotografia resulta um instrumento de expressão da memória e, devido tal fato, com ela se confunde já que o indivíduo carrega em si a lembrança, mas está sempre interagindo com a sociedade, seus grupos e instituições. É no contexto destas relações que construímos as nossas lembranças, a partir de uma rememoração individual que se faz na tessitura das memórias dos diferentes grupos com que nos relacionamos. A fotografia encontra-se impregnada das memórias dos que nos cercam, de maneira que, ainda que não estejamos em presença destes, o nosso lembrar e as maneiras como percebemos e vemos o que nos cerca se constituem a partir desse emaranhado de experiências.

Neste sentido, ter participado deste workshop me ajudou a entender melhor a constituição desta forma de documentação, destinada a registrar a memória de um momento muito importante para as pessoas que estão envolvidas neste evento; o casamento. A partir disso, comecei a valorizar a necessidade de reconhecer o afeto presente em cada momento da cerimônia e encontrar inspiração para efetuar um registro capaz de dar sentido à memória deste tipo de situação.

Título: “Memória não erigida” Técnica: fotografia, 10cmX15cm Ano: 2009 Autor: Denis F. Gascó

Título: “Memória não erigida”
Técnica: fotografia, 10cmX15cm
Local/Ano: Votorantim – 2009
Autor: Denis F. Gascó

O mais legal de tudo isso foi encontrar referências feitas pelos palestrantes aos princípios artísticos de luz, texturas, ritmo, cor, harmonia, proporção, perspectiva e ângulos como forma de dar ênfase a uma narrativa imagética. Algo que, por ter sido foco de meus estudos na UNICAMP, me animou a abraçar esta nova experiência e dar tudo de mim no exercício de registrar um “mini wedding”, organizado para estudo de técnicas pela Duo Borgatto no espaço Café de La Music, com auxílio da Rockstage Produções.

Ter conhecido outros olhares sobre o mundo foi, com toda certeza, algo que enriqueceu minha perspectiva acerca da fotografia e da memória, assim como me permitiu conhecer pessoas interessantes e apaixonadas por suas profissões. Agora, deixo aqui o resultado de meus estudos. Além disso, gostaria de frisar que deixei as imagens “cruas” sem nenhum tipo de pós-produção, para que vocês possam perceber que fotografar envolve o enorme esforço de regular o foco, a abertura do obturador e o tempo de exposição enquanto as ações acontecem diante de você. Uma experiência que aconselho para todos que se interessem pelos estudos fotográficos.

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About the Author

PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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