As técnicas de estudos arqueológicos

As técnicas de estudos arqueológicos

O termo arqueologia é uma adaptação latina dos termos gregos “arkhaio” (antigo,primitivo) e “logia” (estudo, teoria), o qual podemos encontrar em documentos que remontam já ao século VIII – quando foram iniciados os primeiros estudos  sobre estátuas que haviam sido encontradas por um fazendeiro de um pequeno vilarejo em Nápoles. Em meados deste mesmo século, escavações incentivadas pelo próprio rei resultaram na “descoberta” do sítio arqueológico de Pompéia, em 1749.

Contudo foi a partir do século XIX que os estudos arqueológicos cresceram de forma impressionante, a partir da iniciativa de escavações realizadas por homens e mulheres que eram membros de grandes famílias de aristocratas ou burgueses. Ao escavarem locais pela Europa, África e Oriente Médio, estas pessoas ficaram sem saber como definir os períodos históricos aos quais correspondiam os materiais encontrados como pontas de lança, ferramentas e outros tipos de materiais feitos em pedra, bronze e ferro, assim como ossadas de ancestrais hominídeos que, para eles, mais pareciam macacos do que homens.

Tido como o mais antígo fóssil de um hominídeo, este crânio de um Salehantropus Tchadensis é datado (com base na estratigrafia) em aproximadamente 6 milhões de anos e foi encontrado por Michel Brunet, em 2002. Fonte:

Tido como o mais antígo fóssil de um hominídeo, este crânio de um Salehantropus Tchadensis é datado (com base na estratigrafia) em aproximadamente 6 milhões de anos e foi encontrado por Michel Brunet, em 2002. Fonte: Wikimedia

Por este motivo, estes autores criaram um novo período histórico, que chamaram de Pré-História para “encaixar” estes achados numa linha temporal. Este termo significa “antes da História” e trazia a ideia de que, antes de desenvolver a escrita o ser humano não teria uma história. Um termo que, nos dias de hoje consideramos errôneo já que, mesmo sem escrever, os nossos ancestrais foram sim capazes de deixar vestígios de suas histórias por meio de objetos, pinturas rupestres, fósseis e resquícios de ocupações em regiões por todo o mundo.

De qualquer forma, a primeira tentativa de organização temporal destes materiais foi realizada pelo banqueiro escandinavo Christian Jürgensen Thomsen que colecionava antiguidades e decidiu se dirigir até o Museu Nacional da Dinamarca com uma “pilha de tralhas” que contava com pontas de flechas e lanças, assim como lâminas em bronze, ferro e pedra. Neste momento, ele desenvolveu ali um método de datação destes objetos, baseado na tecnologia utilizada para fazê-los. Desta maneira, ele criou a divisão entre a Idade da Pedra, do Bronze e do Ferro.

O trabalho do arqueólogo exige centenas de horas em pesquisas de campo, onde estes estudiosos ficam expostos às interpéries do tempo. Não é facil não!! TEM QUE GOSTAR!

O trabalho do arqueólogo exige centenas de horas em pesquisas de campo, onde estes estudiosos ficam expostos às interpéries do tempo. Não é facil não!! TEM QUE GOSTAR!

A partir de então, o estudo sobre os homens pré-históricos teve enorme desenvolvimento e contou com inúmeras escavações, realizadas por curiosos (como o já citado “Picareta de Machu Picchu”, Hiran Bingham) que viam a possibilidade de lucros com a exploração e venda destes materiais para colecionadores. Fato que deu início a um verdadeiro mercado de contrabando destes objetos, algo que infelizmente permanece até os dias de hoje. Além disso, estes “pesquisadores” perceberam a importante necessidade de desenvolver estudos com auxílio de intelectuais de diversas áreas e, desde então, as escavações arqueológicas contam com métodos de datação muito específicos, e reúnem cientistas internacionais.

Hoje os historiadores dependem do auxílio destes conhecimentos e métodos de pesquisa, que nos ajudam (junto com a arqueologia) a construir um panorama abrangente sobre a História. Dentre ele, podemos citar:

Paleontologia: Estudo da vida de todos os organismos que viveram na Terra. Esta ciência foi fundamental para entendermos melhor “A Origem da Vida” e é a ciência que estuda os Dinossauros…

Esqueleto de Tyrannosaurus Rex, que fica no PAlais de la Decouverte, em Paris. FONTE: Wikimedia

Esqueleto de Tyrannosaurus Rex, que fica no PAlais de la Decouverte, em Paris. RAWR!!! #nãoresisti  FONTE: Wikimedia

Filologia: Estudo das línguas e da literatura, que nos ajuda a compreender melhor as formas de comunicação desenvolvidas pelo ser humano, através do tempo.

Zoologia: fundamental para nos auxiliar a conhecer mais sobre a dieta de nossos ancestrais, assim como as suas relações com a natureza, os especialistas desta ciência biológica estão cada vez mais presentes nos sítios arqueológicos.

Botânica: o conhecimento sobre as plantas e formas de adaptação das mesmas com o passar do tempo é importante para realizar estudos em locais que marcam a presença humana, como restos de fogueiras. Isto porque, os grãos, sementes, madeira (e até mesmo o pólem) encontrados nas escavações nos ajudam a compreender o nível de desenvolvimento agrícola dos homens antigos.

Arqueologia-botanica

Uma laje mostrando samambaia provável ou folhagem “samambaia semente”, bem como gimnospermas de folhas largas e com folhas de agulhas. Este material é parte do estudo do Dr. Patrick Herendeen. Fonte: National Geographic

Antropologia: o estudo das relações humanas é primordial para que possamos encadear melhor os usos de objetos encontrados, assim como a organização social dos hominídeos antigos.

Estratigrafia: o estudo da sequência de camadas de terra pode ser entendido como o primeiro passo para a exploração do sítio arqueológico e determina há quanto tempo vestígio se encontra no lugar. Neste sentido, é importante ter em mente que, quanto mais fundo cavamos, mais antigos são os vestígios que encontramos no sítio arqueológico.

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Modelo de estratigrafia oferecido pelo Centro Arqueológico Crow Canyon.

Decaimento do Carbono-14: uma das mais utilizadas formas para datação dos objetos encontrados em sítio consiste no cálculo de idade do fóssil, baseado na quantidade de isótopo de carbono-14 residual. Este isótopo radiativo é presente na atmosfera terrestre e está presente em todos os seres vivos que o absorvem por meio da respiração. Todavia, com “meia-vida” de 5.637 anos, o carbono-14 nos permite determinar a existência destes fósseis com precisão em até 60.00 anos.

Análise de DNA: Tido como um dos métodos mais atuais de pesquisa, a recuperação de DNA a de ossos e dentes pode ser utilizada para para rastrear trajetória das migrações e investigar origem de plantas e animais domésticos.

Tronco com as marcações temporais, baseado em estudos dendrocronológicos. FONTE

Tronco com as marcações temporais, baseado em estudos dendrocronológicos. FONTE

Dendrocronologia: esta ciência consiste em entender a variação de espessura dos anéis em caules de árvores para determinar o tempo de vida destes seres.

Termoluminescência:  esta é uma técnica de estudo utilizada para determinar o tempo de um objeto de cerâmica e se baseia na luminosidade de certos materiais, quando aquecidos. A Termoluminescência é observada normalmente apenas durante o primeiro aquecimento, e não no reaquecimento, sendo que não é uma forma de transformação do calor em luz.

thermoluminescence

Aplicação de termoliminescência à cerâmica. Fonte: Archaeology Neys Network

Estas são apenas as principais ciências que acompanham o estudo arqueológico, mas existem também pessoas que se especializaram em deduzir usos e formas de construção de objetos em pedra e cerâmica, por meio de tentativas em reconstruir cópias, baseados na tecnologia que era possível utilizar em determinados períodos.

Como podemos ver, conhecer sobre os estudos arqueológicos é algo fascinante e implica conhecimentos interdisciplinares que unem intelectuais das mais diversas áreas, com objetivo de construir um olhar mais abrangente sobre o processo de desenvolvimento do ser humano. Todas estas técnicas exigem paciência, concetração e, acima de tudo, muita força de vontade para passar horas debruçado sobre um objeto, com objetivo de entender melhor sua construção e os usos que teve em um determinado período histórico.

Fonte

Sitio arqueológico de Tianyuan. Fonte Heritagedaily

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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