Monstros marinhos do século XVI

Monstros marinhos do século XVI

Neste fim de semana, tive o enorme prazer de receber meu sobrinho de 8 anos em casa! Ele ficou comigo e, com isso, pudemos jogar um videogame, ver um filme do Bruce Lee e comer um dos deliciosos lanches da Lanchonete do Assis, que fica em Valinhos. Enquanto estávamos na lanchonete, acabamos caindo na conversa sobre Navegações e, por este motivo, contei para ele sobre os MONSTROS MARINHOS que o europeu Moderno acreditava que existiam nos oceanos e que chegavam até a ser representados nos mapas das viagens além-mar.

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Fragmento da “Carta Marina”, com mapa da região Escandinva produzido entre 1527 e 1539 por Olaus Magnus, arcebispo de Upsala. Fonte

O mais legal foi que, ao chegarmos em casa, ele pediu para que eu mostrasse os desenhos dos monstros sobre os quais falei! Por esta razão, decidi escrever um texto especial, que fala um pouco sobre as lendas que costumavam assustar homens barbados, durante os séculos XV e XVIII.

Esse texto vai para você Gui! Um grande beijo do “Tio Dê” 😉

O início do século XVI foi marcado pelo desenvolvimento das Grandes Navegações, nas quais europeus decidiram se lançar em aventuras pelo Oceano Atlântico. Motivados a procurar por novas rotas comerciais que pudessem prover especiarias – os mais valiosos produtos que existiam neste período – estes homens decidiram se arriscar em uma empreitada perigosa.

Muitas tripulações haviam tentado explorar os mares desconhecidos sem nenhum sucesso, já que a enorme maioria nunca voltou e os poucos que conseguiram retornar estavam enlouquecidos ou se recusavam a falar sobre o assunto. Mas a possibilidade de escapar do monopólio marítimo-mercantil estabelecido pelos mercadores italianos no Mar merditerrâneo e otomanos na região do Estreito de Bósforo era um risco que “valia a pena”.

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Representação do monstro marinho “porcachorro” (pig-dog). Fonte

Inseridos numa organização econômica denominada Mercantilismo, estes nobres acreditavam na possibilidade de enriquecimento por meio da descoberta de uma nova rota comercial que possibilitasse trazer para a Europa produtos cujo valor de mercado era exorbitante. Isto porque materiais como o cravo-da-índia, a pimenta do reino, a canela em pau e outros tipos de tempero simplesmente não existiam no continente europeu. Tanto que eram até mesmo deixados como herança entre familiares!

Mas você pode se perguntar por que carambolas um nobre queria enriquecer?

O fato é que, nesta época, as famílias costumavam ter muitos filhos mas somente o primogênito tinha direito de herdar todos os bens do pai. Por esta razão, os irmãos mais novos poderiam se submeter como militares a uma família próxima, entrar para o clero, casar com uma mulher de família nobre ou tentar a sorte como mercador viajante, em expedições financiadas. Este foi o caso de conhecidos “conquistadores” como Hernán Cortez e Francisco Pizarro, que invadiram os territórios Asteca e Inca, durante o período das “descobertas”.

Cristóvão Colombo tinha outro motivo (além da possibilidade de enriquecimento) para realizar a viagem que resultou na “descoberta” do continente americano. Influenciado pelo desenvolvimento científico da época, este viajante tinha o objetivo de comprovar a esfericidade da Terra ao realizar uma viagem que chegaria às Índias por meio da circunavegação.

Desta forma, o desenvolvimento científico e tecnológico desde o Renascimento Cultural favoreceu disseminação de novas teorias que questionavam paradigmas que eram reforçados pela Igreja Católica. Como a ideia de que a terra era quadrada e navegar até seus extremos iria levar os viajantes a um abismo infinito, do qual estes jamais sairiam ou as inúmeras teorias que falavam sobre a existência de monstros marinhos que tinham a capacidade de rapidamente destruir e devorar navios e seus tripulantes.

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Peixes gigantes que ferviam navios. Fonte

Isto por que, apesar do desenvolvimento intelectual, ainda eram muito constantes ideias que apontavam os “perigos” para a realização destas viagens, dentre as quais podemos citar ideia de que, se navegassem muito ao sul dos mares, os marinheiros teriam o sangue de seus corpos fervidos pelas altas temperaturas.

Tudo isso pode parecer, hoje, um monte de bobagens mas é importante lembrar que os mistérios de lugares desconhecidos sempre levaram os homens a criarem mitos e ideias, na tentativa de explicar o que existia nestes espaços. Um grande exemplo medieval deste fato reside nas inúmeras histórias contadas sobre as florestas europeias, nas quais diversas pessoas desapareciam após entrarem ou eram encontradas já mortas muito tempo depois. Para dar sentido a estas situações os homens medievais criaram lendas sobre seres mágicos, demônios e maldições que funcionavam como armadilhas aos desavisados.

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Além de monstros, lendas como as da SEREIA. Fonte

Para entender melhor, basta lembrar aqueles dias de verão, quando vamos à praia! Quem já teve uma alga ou algum pedaço de lixo enroscado no pé, enquanto estava do mar, vai entender muito bem o que é o “medo do desconhecido”, assim como aqueles que já ficaram em casa sozinhos à noite e a energia acabou. Como não conseguimos ver  o que acontece próximo da gente, uma mera alga na canela logo se transforma num “polvo assassino” ou qualquer barulho no escuro parece muito mais com um fenômeno poltergeist dos infernos! O mesmo acontecia nesta época, durante a qual as pessoas tentavam explicar o universo desconhecido dos mares, baseados em uma forte mentalidade religiosa.

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“Valimideusu, Jesuis cristinhoooo!!! É um bicho enormeee” – e era uma alga uahuuha #quemnunca? Fonte

De qualquer maneira, o desenvolvimento científico foi acompanhado pela introdução de instrumentos de navegação como a bússola chinesa, que chegou até a Europa por meio de mercadores sarracenos, assim como o astrolábio, a luneta e o sextante que também foram trazidos por viajantes e tiveram papel fundamental para as navegações. Entretanto, não pense que era simples sair nestas viagens!

Vídeo sobre a Bússola Chinesa:

Era preciso muita coragem e força de vontade para se lançar num caminho do qual existia a possibilidade de jamais retornar. Assim, a falta de voluntários levava estes governos a oferecerem o perdão aos criminosos que aceitassem participar deste tipo de viagens. Algo que os condenados à morte aceitavam de bom grado!

Neste sentido, a ação pioneira de exploração dos mares foi dada por Portugal, que enviou expedições para explorar a costa africana, com objetivo de encontrar uma nova rota para Calicute, na Índia. A próxima nação a realizar este tipo de empreitada foi a Espanha, cujos “reis católicos” financiaram a viagem de Colombo, após este projeto ter sido negado pelos portugueses. Aliado a tudo isso, o proselitismo (empenho em conseguir novos prosélitos) da Igreja Católica favorecia os investimentos nestas dispendiosas viagens, que passavam a levar consigo membros especialmente treinados pela Companhia de Jesus, para enfrentar ambientes hostis, em busca de novos fiéis. Estes caras ficaram conhecidos como jesuítas e foram responsáveis pela fundação de diversas vilas e cidades no Brasil e por toda América Espanhola.

As constantes explorações não acabaram completamante com estas histórias, mas terminaram por demonstrar que era realmente possível dar a volta na terra e, com isso, favoreceu o desenvolvimento da economia mercantilista, que caracterizou esta sociedade moderna do Antigo Regime. Baseada na procura por metais preciosos e na formação de colônias, os países da europa realizaram sistemáticas invasões nestas novas terras, das quais levaram todas riquezas e escravizaram estes povos.

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About the Author

PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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