Arqueologia, o estudo do princípio do presente

Arqueologia, o estudo do princípio do presente

Galera! Gostaria de informar que agora contamos com o jovem colaborador Mario Manzine, que é graduando em arqueologia pela Universidade Federal do Rio Grande. Além disso, ele já trabalhou como voluntário na escavação da Praça Tamandaré em Rio Grande-RS, em um projeto coordenado por professores do curso, durante o mês de março de 2015.

Arqueologia, do grego Arkhaiología  que significa: história relativa à antiguidade, porém, que com o tempo sofreu influência de diversas áreas e agora estuda o trabalho humano desde o seu passado até o seu exato presente, sendo assim, seu significado não deve ser mais o mesmo de seu início.

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O Parque Estadual do Sumidouro concentra 157 sítios arqueológicos e 35 grutas que apresentam cerca de 4.000 pinturas rupestres! Fonte

Se alguém te perguntasse o que é arqueologia, qual seria sua resposta? Provavelmente você responderia que está relacionada à escavação e ao estudo do passado da humanidade, mas será que é somente isso?  No texto abaixo, tentarei esclarecer o porquê do alcance da arqueologia ser tão amplo na escala temporal, englobando não apenas o passado distante da humanidade e técnicas de escavação,  e o que ela estuda de fato.

Um dos desafios que a arqueologia tem é de se firmar como uma ciência e o que dificulta isso é que para ser considerada ciência, ela tem que apresentar um objeto de estudo próprio. Muitos pensam que a técnica da escavação é tudo com o que a arqueologia trabalha, tentando assim definir a escavação como seu único método de trabalho. Esse é um pensamento errôneo e co
mum quando perguntamos para alguém leigo do assunto sobre o que é arqueologia, pois seguindo esse raciocínio se obtém um pensamento de que sem escavação não existe arqueologia e isso só poderia ser real caso a escavação fosse uma técnica exclusiva da arqueologia e não uma compartilhada com outras áreas da ciência, como a geologia, por exemplo.

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Geologia, do grego γη- (ge-, “a terra”) e λογος (logos, “palavra”, “razão”) , é a ciência que estuda a Terra, sua composição, estrutura, propriedades físicas, história e os processos que lhe dão forma. É uma das ciências da Terra. Na fotografia, podemos ver as famosas Salinas da California. FONTE

O fato da arqueologia conter uma multidisciplinaridade é o que dificulta de início a identificação de seu objeto de estudo, fazendo com que muitos pensem que a arqueologia não passa de uma ciência auxiliar das outras ciências. “Segundo o ponto de vista tradicional, o objeto de estudo da arqueologia seria apenas as *coisas*”(FUNARI, 2010:13), mas essa vem a ser mais uma concepção errônea que se tem sobre a arqueologia, pois a mesma vai além do estudo apenas da cultura material, ela se importa também com o humano por de trás do objeto, e por meio dos artefatos estuda tanto o contexto social como o ambiental em que as pessoas que os produziram viveram. Os arqueólogos franceses Bruneau & Balut definem que a arte é o objeto de estudo da arqueologia, pois a arte ( do latim ars,artis “maneira de ser ou de agir, habilidade natural ou adquirida, arte, conhecimento técnico”) equivale a 1/4 do ser humano. Logo, tudo que sofreu intervenção do trabalho humano é objeto de estudo arqueológico, desde a cultura material até os contextos em que foram criados os objetos encontrados, assim conseguimos entender hipoteticamente toda trajetória traçada pela humanidade, em suas diversas áreas de atuação no mundo, estudando tanto seu passado como seu presente.

Então, se fazer arqueologia é estudar os objetos do trabalho humano e por meio deles entendermos  a humanidade nos diferentes contextos que se seguiram durante sua trajetória, devemos mudar o sentido primeiro da palavra “Arqueologia”, que vem do grego arkhaiología, que significa história relativa à antiguidade, pois a mesma já não é mais igual à quando se deu seu início, pelo fato de novos paradigmas terem surgido com o tempo, sempre com novas perguntas a serem respondidas.

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Fotografia do arqueólogo e professor da UNICAMP,Pedro Paulo Funari . Um grande especialista em arqueologia histórica. FONTE: EXAME

Em seu início com o paradigma histórico-culturalista, teoria mais difundida no meio acadêmico arqueológico, a arqueologia se preocupava principalmente em estudar os vestígios materiais, porém, mais tarde, com o paradigma processualista, a arqueologia passou ir além do material, em busca de estudar um certo padrão de comportamento humano, independente da época ou local, e então com o advento do que chamamos de paradigma pós-processualista, a arqueologia abriu suas portas para perguntas que nenhum dos dois outros modelos teóricos puderam responder, o pós-processualismo vai em busca de estudar as subjetividades, “por exemplo, a arqueologia feminista, ligada ao movimento feminista” (FUNARI, 2010:51). Assim vemos como a arqueologia passou de uma ciência ligada apenas ao estudo de vestígios materiais do passado, a uma ciência ligada ao estudo da humanidade tanto em seus aspectos materiais como também sociais, linguísticos e axiomáticos, pois não se tem como estudar o material sem estudar também o que é imaterial, por se tratar de algo impossível de ser separado; é muitas vezes por isso que a arqueologia recebe a fama de ciência auxiliar, pelo fato dela fazer uso, muitas vezes, de técnicas utilizadas por outras ciências, pois, por exemplo, “seria absurdo praticar arqueologia clássica sem usar os textos gregos ou latins”(Bruneau & Balut, 1997). Esse caráter multidisciplinar que a arqueologia possui a torna uma ciência muito ampla, podendo abranger praticamente toda a esfera que engloba o trabalho humano e suas relações tanto em sociedade, como com a natureza, independente do local ou época estudados.

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A Serra da Capivara é um dos sítios arqueológicos mais antigos de toda América e está situado no Piaí. FONTE

Por isso a arqueologia não é apenas uma ciência que estuda as “coisas”, como citado acima, ela é uma ciência que estuda o que é humano, pois tudo que é material está sempre sendo manipulado pelas pessoas em conjunto com certos códigos sociais e culturais, assim, como focar apenas no material e ignorar o social e o ideológico do homem por trás do objeto? O ser humano está sempre em atividade, interagindo consigo mesmo e com a natureza, desde que os ancestrais de nossa linhagem começaram a lascar pedras, para garantir sua sobrevivência, nada parou de ser criado, sempre tentando ao máximo maximizar os resultados enquanto diminui os custos, passamos a criar coisas por diversos motivos, que nos ajudam tanto em aspectos práticos como sociais. Então porque a arqueologia deveria focar apenas no passado do homem, se o próprio homem está em uma mudança contínua, subjugando tanto a si mesmo como a natureza em prol de suas vontades? É isso que faz da arqueologia uma ciência tão fascinante, que pode explorar a intervenção humana no mundo desde o remoto passado, até o exato presente. Pois como disse o arqueólogo Wheeler Mortimer: “ O arqueólogo escava, não coisas, mas sim pessoas.”

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Fotografia de Sir Mortimer Wheeler (à esquerda), com o Dr. Glyn Daniel, de 1958. Sir Mortimer foi um apresentador de TV muito popular nas décadas de 1950 e 1960. Muito alem disso, ele foi Secretaruo da British Academy e Presidente da Sociedade do Antiquários, na Grã-Bretanha. Fonte: BBC.co.uk

Assim podemos ver como as novas correntes teóricas que surgiram na história da arqueologia geraram um impacto em sua concepção primária, de apenas estudar o antigo, abrindo suas portas para uma nova concepção, a de uma ciência que se preocupa em estudar o ser humano em toda sua existência, não somente no seu passado, mas também no seu presente.

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O Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo é o conjuto de remanescentes da antiga redução jesuítica de São Miguel Arcanjo. Situado na história, como parte dos chamados Sete Povos das Missóes, esta região do sul do país foi palco das Guerras Guaraníticas. FONTE: Wikimedia

Referências bibliográficas

・  “arqueologia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/arqueologia [consultado em 13-07-2014].

・  FUNARI, Pedro Paulo Arqueologia / Pedro Paulo Funari. 2ェ ed., 1ェ reimpressão – São Paulo: Contexto, 2010.

・ Bruneau & Balut – Epistemologia da palavra e Eliminação da Escolha – Il pouvait être commandé aux Presses de l’Université de Paris-Sorbonne, 1997

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Mario Manzine, graduando em arqueologia pela Universidade Federal do Rio Grande. Trabalhou como voluntário na escavação da Praça Tamandaré em Rio Grande-RS em um projeto coordenado por professores do curso, durante o mês de março de 2015. Atualmente à procura de um novo projeto para trabalhar.

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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