Eventos de “unboxing” de múmias na era Vitoriana

Eventos de “unboxing” de múmias na era Vitoriana

Sabe aquela emoção de desembrulhar o pacote de um game novo? Nada melhor do que abrir a caixa e sentir o aroma de aventura embrulhada em isopor, certo?

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Cerrrtttoooo…Mas e se o pacote fosse uma múmia? Pra gente soa muito estranho mas eram comuns eventos entre o meio aristocrático e científico britânicos no Seculo XIX com a finalidade de desembrulhar múmias! Àquela época, a sociedade vitoriana estava tomada por verdadeira fascínio pelas histórias das terras longínquas – Egito, por exemplo -, trazidas pelos exploradores que, além de relatos de viagem traziam consigo diversos artefatos (inclusive múmias) de suas expedições.

De acordo com o Egiptologista Beverley Rogers, desembrulhar múmias como um evento social estava realmente em alta na Grã-Bretanha no início da década de 1820, graças a um ex-artista circense que se tornou colecionador de antiguidades chamado Giovanni Belzoni que fez seu nome em círculos de entusiastas das expedições ao Egito. Em 1821, ele organizou uma performance pública de “desenrolar” durante uma exposição de antiguidades egípcias perto do Piccadilly Circus, em Londres.

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Grupo durante “Unrolling Party”. Fonte

O evento provou ser um enorme sucesso, com mais de 2000 pessoas  – apenas no dia da inauguração! Dentre o público do espetáculo havia um cirurgião e pesquisador, Thomas Pettigrew, que ficou tão encantado com a performance que começou a realizar seus próprios shows com o mesmo tema, geralmente com uma palestra de acompanhamento, pelos quais cobrava ingresso.

Embora houvesse um fundo científico nesses eventos, o fator curiosidade era de fato mais relevante. Bem, ver uma múmia de perto já é suficientemente intrigante; contudo o ponto alto do “unpacking de múmias” era encontrar artefatos e amuletos que frequentemente eram colocados junto aos corpos no processo de mumificação. #todosgritam

A ideia de Pettigrew se espalhou entre os membros da aristocracia da época e eventos desta natureza passaram a ser realizados tanto em grandes espaços públicos quanto em casas particulares. De acordo com Rogers, muitas vezes, a múmia era proveniente da coleção particular do anfitrião e nos convites havia a descrição da atração principal “Uma múmia de Thebas será desenrolada às duas e meia”, como nos enviados por Lord Londesborough em 1850:

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O processo de desenvolvimento de estudos arqueológicos ganhou grande força durante o século XIX, quando ricos burgueses e aristocratas investiam parte de suas fortunas em grandes expedições que tinham o objetivo de encontrar vestígios de grandes civilizações – dentre as quais algumas míticas, como Atlântida. Este fato é parte do que Hobsbawn define como um processo de constituição do ideal nacional burgues europeu, no qual estas pessoas buscavam encontrar a presença de grandiosas civilizações.

Neste sentido, este frenesi científico de busca histórica foi acompanhado da constituição do conceito de “patrimônios”, como afirmou a intelectual Françoise Choay, na tentativa de valorizar antigas contruções presentes no território destas novas nações. Além disso, foram criados os primeiros museus, onde foram travados efusivos debates sobre a descoberta de ossadas e outros objetos que simplesmente não pareciam encaixar na periodização positivista, que vigorava neste momento da história. Desta maneira, foi criado um novo período histórico, por estas pessoas denominado Pré-História. Mas isso já é assunto para outro momento.

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Bárbara GascóOlá, terráqueos! Sou Bárbara Gascó, conhecida também como Barbrão por minha conhecida habilidade em várias esferas, tipo faz-tudo =) e esposa do Sr. Denis Gascó, PaleoNerd. Sou Arquiteta e Urbanista e atuo na área desde 2012. Paralelamente, escrevo sobre Arquitetura+História e, como única representante do sexo feminino neste navio pirata, pautas acerca de questões sobre Feminismo e Igualdade de gêneros.

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