A morte de um pedaço da História da Humanidade

A morte de um pedaço da História da Humanidade

Não tem jeito pessoal, o assunto é sério e não existe uma forma simples de falar sobre um conflito complexo como este. Portanto, “abunde-se” aí na cadeira, porque precisamos falar sobre isso…

O Historiador Khaled al-Asaad foi um dos mais proeminentes intelectuais da Síria, responsável por ter desenvolvido trabalho pioneiros em arqueologia na Síria durante o século XX. Professor universitário e responsável pela curadoria e restauração de objetos arqueológicos do país, este homem devotou sua vida a promover e proteger a história de Palmyra, sua cidade natal.

Fotografia de Khaled al-Assad, ao lado de ruínas romanas, em 2002: FONTE NBCNEWS

Fotografia de Khaled al-Assad, ao lado de ruínas romanas, em 2002: FONTE NBCNEWS

Para quem não sabe ainda, o território sírio detém sítios arqueológicos que remontam ao desenvolvimento das primeiras civilizações mesopotâmicas, as quais introduziram no Ocidente uma importante inovação com a utilização da agricultura irrigada. Fato que, por meio da construção de açudes, diques e canais de irrigação, possibilitou enorme aumento da produção de cereais e, consequentemente, o desenvolvimento de grandes cidades marcadas pelo comércio. Além disso, estas antigas populações foram responsáveis pela organização de Estados complexos que introduziram o uso da escrita no Ocidente. Além disso, a região conta com diversos sítios arqueológicos greco-romanos, onde foram estabelecidas colônias durante a antiguidade.

Vista aérea do templo de Baalshamin, que conferia à cidade de PAlmyra o título de "a jóia do deserto". FONTE

Vista aérea do templo de Baalshamin, que conferia à cidade de PAlmyra o título de “a jóia do deserto”. FONTE

Em 2011, a Síria foi tomada por uma série de manifestações pró-democracia que exigiam a saída do Governador Bashar al-Assad, o qual seguia uma forma de governo autoritária, baseada na hereditariedade de seu cargo, antes ocupado por seu pai durante cerca de 30 anos. A enorme repressão governamental às manifestações, levou à organização de reações populares armadas que, inicialmente, foram lideradas pelo Exército livre da Síria (ELS), o qual contava com militantes islâmicos e o apoio de países como a Turquia, o Catar e a Arábia Saudita. Em contraposição, o governo sírio contou com apoio da Russia, Irã e do grupo xiita libanez Hezbolla.

Já em março daquele ano, a Guerra Civil da Síria contabilizava mais de 93.000 mortos, sem que houvesse qualquer forma de diálogo entre as partes. Neste sentido, os EUA anunciaram em 2013 a entrega de armas para rebeldes, fato que ampliou as proporções deste conflito. Atualmente, a briga entre o governo oficial e rebeldes se mantém, sem sinais de paz e podemos notar a existência de aproximadamente 1000 grupos rebeldes na Síria, os quais contam com mais de 100.000 combatentes.

Militantes do Estado Islâmico, posam para fotografia com armas e a bandeira.

Militantes do Estado Islâmico, posam para fotografia com armas e a bandeira.

Estas organizações paramilitares apresentam perspectivas divergentes (moderados, nacionalistas, esquerdistas, dentre outros) e estão em constante luta entre si, mas, para dar uma esclarecida na situação destes conflitos hoje, podemos apontar os principais grupos rebeldes:

  • Conselho Militar Supremo do Exército Livre da Síria (CMS do ELS), que é tido como o primeiro grupo que se formou a partir de civis e desertores do exército;
  • Frente Islâmica, a qual conta com vários grupos islâmicos e o financiamento de governos externos como a Turquia e outros países do Ocidente;
  • Grupos independentes, que contam com a presença de islamistas moderados, ou seja, mais abertos a um diálogo com outros grupos e dispostos a estabelecer um governo colaborativo;
  • Grupos Jihadistas, dotados de um discurso religioso fundamentalista, nacionalista e anti-imperialista, estas facções apresentam ligações diretas com o Al Qaeda e alegam ter cerca de metade das forças no local – dentre eles podemos citar o ISIS e a Al Usa,
  • Grupos Curdos, que defendem a Unidade de Proteção Popular e procuram se manter afastados destes conflitos, com o objetivo de obter o controle apenas sobre as regiões curdas.
  • Mapa da Sírira que revela os principais grupos que controlam a região.

    Mapa da Sírira que revela os principais grupos que controlam a região. Em preto podemos ver as regiões controladas pelo ISIS. Fonte: Youtube – Reporter da Tv Caltura

No momento, é impossível retomar toda a história do processo de conflitos desenvolvidos na Síria (que remontam ao período posterior à 1ª Guerra Mundial) mas, como afirma a professora de História Árabe Arlene Clemesha, a guerra civil da Síria é parte de um processo muito maior, que está relacionado aos conflitos que envolvem grande parte destas nações árabes – sobre a qual pretendo escrever melhor em um futuro próximo.

Refugiados sírios.

Refugiados sírios em assentamento.

Apesar de a maioria das pessoas acreditar que estes conflitos estão ligados diretamente à questão religiosa, precisamos entender que este é somente um aspecto presente em uma série de CONFLITOS POLÍTICOS, que são resultado de década de influência externa na região. Como afirma Clemesha em entrevista para o jornalista Marcos Carrieri, da Agência de Notícias Brasil-Árabe, no fim de 2014:

“Muitos casos de islamismo político surgem a partir da dominação estrangeira na região. É o que ocorre com o Isis hoje. É resultado da presença dos Estados Unidos no Iraque desde 2003, e é um fenômeno historicamente constituído…”

O triste caso do garoto Adi Hudea, em um assentamento de refugiados sírios. Ao ver a lente objetiva do fotógrafo, o garoto de 4 anos colocou as mãos para cima, por confundí-la com um rifle. Os traumas sofridos por estas crianças neste processo são inimagináveis.

O triste caso do garoto Adi Hudea, em um assentamento de refugiados sírios. Ao ver a lente objetiva do fotógrafo, o garoto de 4 anos colocou as mãos para cima, por confundí-la com um rifle. Os traumas sofridos por estas crianças neste processo são inimagináveis.

Desta forma, Khaled teve seus trabalhos interrompidos por ações dos membros do ISIS que, ainda desde janeiro de 2014 autoproclamou-se Estado Islâmico, situado na porção norte da Síria, onde detém controle militar da região. A partir deste momento, este grupo deu à sistemática perseguição e execução sumária dos seus opositores e, por este motivo, Assad coordenou a remoção de centenas de estátuas antigas, de forma a impedir que estas fossem destruídas pelos membros do Estado Islâmico. Por se negar a entregar o local no qual foram escondidos estes tesouros arqueológicos, este pesquisador de 83 anos foi condenado pelos rebeldes à morte e decapitado em praça pública.

Cabeça de escultura assíria, derrubada destruída também por esses revolucionários.

Cabeça de escultura assíria, derrubada destruída também por esses revolucionários.

Hoje, recebemos a triste notícia de que militantes do Estado Islâmico destruíram o antigo templo de Baalshamin, que, com 2000 anos era considerado um dos sítios arqueológicos em melhor estado de preservação. Anteriormente, este mesmo grupo foi responsável pela destruição de diversos sítios no Iraque (como a antiga cidade assíria de Ninrud) e seus seguidores defendem que qualquer estrutura que implique a existência de outras divindades é um ato de sacrilégio e idolatria, motivo pelo qual acreditam que devam ser destruídas. De qualquer maneira, é importante entender que este fundamentalismo intransigente não é algo que apareceu nos dias de hoje, mas, na verdade, é parte do desenvolvimento de ideologias nacionalistas que remontam a meados do século XX e precisam ser melhor compreendidas.

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About the Author

PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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