Um caracol que ajudou a explicar mudanças climáticas?

Um caracol que ajudou a explicar mudanças climáticas?

No início de 2014 o site da Universidade de Cambridge lançou um artigo polêmico, ao apontar os resultados dos estudos feitos por um grupo de pesquisadores da revista acadêmica Geology com conchas de caracóis que foram preservadas em meio aos sedimentos presentes no leito de um antigo lago, situado na região do atual Paquistão e Índia. Eu sei! Você deve estar pensando que analisar conchas de caracóis pode parecer uma grande bobagem, mas os resultados desta pesquisa lançaram uma nova luz sobre um mistério que intrigava cientistas do mundo inteiro!

Mapa que revela a região pesquisada com as fronteiras políticas entre os Estados contemporâneos que dividem este espaço. FONTE: io9.com

Mapa que revela a região pesquisada com as fronteiras políticas entre os Estados contemporâneos que dividem este espaço. FONTE: io9.com

Isto porque, assim como aconteceu com os rios Nilo, Tigre, Eufrates e Ganges a região próxima ao Rio Indo foi palco do desenvolvimento de grandes civilizações por causa de suas cheias (que fertilizavam as margens do curso d´água) e pela possibilidade de navegação, que facilitava o comércio. Desta maneira, no mesmo período durante o qual os sumérios erigiam suas cidades-estado, estes povos que viviam no sul da Índia fundaram duas enormes cidades, chamadas Mohenjo-Daro e Harappa.

Esquema de parte da cidade de Harappa, baseado nas descobertas arqueológicas. FONTE

Esquema de parte da cidade de Harappa, baseado nas descobertas arqueológicas. FONTE

Estas áreas contavam com uma complexa organização urbana, dotada de celeiros muito bem elaborados, casas de banho público com água aquecida e até mesmo esgoto canalizado subterrâneo – que chegava, inclusive nas casas mais humildes! Todavia a escrita destes povos nunca foi decifrada e, por este motivo, ninguém sabia dizer com certeza qual teria sido o motivo para que seus habitantes tivessem abandonado a região por volta de 2000 a.C.

 E já, de antemão, aviso! O FATO NÃO TEM NADA A VER COM UMA ABDUÇÃO COLETIVA POR ALIENÍGENAS!!!

Naquele período grande parte do moderno Paquistão e muito do oeste indiano serviam de moradia para uma sociedade urbana que floresceu entre o terceiro e segundo milênio antes de Cristo. A maioria da população ainda vivia em vilarejos, mas muitas outras pessoas passaram a viver em “megacidades” (como afirma o arqueólogo de Cambridge, Dr. Cameron Petrie) que chegavam a ter 80 hectares de extensão – algo que equivale a 100 campos de futebol enfileirados. Além disso, estas pessoas produziam artesanatos refinados e desenvolveram uma extensa rede de trocas que envolvia até regiões do Oriente Médio!

Sítio arqueológico de Harappa. FONTE

Sítio arqueológico de Harappa. FONTE

Na tentativa de explicar o motivo para a redução dramática da população destes locais, foram desenvolvidas diversas hipóteses, dentre as quais, podemos citar:

  • O problema de falta de abastecimento de água para a região devido a mudança do curso de água de geleiras que, em teoria, abasteciam estes rios;
  • O aumento populacional teria impossibilitado a sobrevivência da civilização;
  • A ocorrência de invasões ou conflitos internos;
  • Uma mudança climática que teria causado uma seca e as grandes cidades não foram capazes de suportar a situação a longo prazo.

Determinado a resolver de vez esta questão, o professor David Hodell, do Cambridge’s Department of Earth Sciences (Departamento de Ciências da Terra de Cambridge) se uniu ao arqueólogo Dr. Cameron Petrie e a estudiosa Dra. Yama Dixit para realizar um estudo de campo no local onde estavam situadas estas cidades. Para isso, os pesquisadores coletaram conchas de caracóis Melanoides tuberculata dos sedimentos presentes no antigo lago Kotla Dahar, em Haryana, Índia.

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Da esquerda para a direita podemos ver David Hodell, Cameron Petrie e Yama Dixit. FONTE: Universidade de Cambridge

No laboratória, Hodell e Dixit realizaram análises geoquímicas nos isótopos presentes nas conchas dos animais como assinatura principal para traçar o clima histórico da região. Para entender melhor o processo, precisamos saber que o Oxigênio existe em duas formas: o Oxigênio comum, com massa atômica 16 e sua variante mais densa, que tem massa atômica 18.

Dra. Dixit, professora da Universidade Hindu Banaras, afirma: “Assim como hoje, a principal fonte de água para dentro do lago naquele período foi, provavelmente, as chuvas de monções. Mas nós observamos que houve uma mudança abrupta quando a quantidade de evaporação do lago excedeu a precipitação – o que indica o ocorrência de uma seca.” (livre tradução)

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Para vocês terem uma ideia de como é um laboratório de pesquisas de Geocronologia e Geoquímica Isotópica. Este fica na Universidade da Carolina do Norte – EUA

Quando a água evapora de um lago fechado (que é alimentado por chuva e rios, mas não tem fluxo de saída), as moléculas que contém o isótopo mais leve evaporam mais rápido que as de isótopos mais densos. Desta forma, em épocas de seca, quando a evaporação é maior do que a quantidade de chuvas, podemos notar maior concentração de 18-O do que 16-O na água e os caracóis que vivem no lago registram estes valores quando incorporam o oxigênio ao carbonato de cálcio (CaCO3) de suas conchas. Estas informações, junto com as datações de rádiocarbono, podem ser utilizadas para reconstruir o clima desta região há milhares de anos atrás!

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Desta forma, os cientistas puderam dizer qual foi a pluviosidade desta região há milhares de anos atrás e, a partir de então, determinar a ocorrência de um abrupto enfraquecimento das monções de verão, que afetou o nordeste da Índia há 4.100 anos. Este processo, causou uma forte seca na região, que teria afetado a prática da agricultura desta população e, com isso, impulsionou o abandono das grandes cidades que existiam por ali.

Com intuito de reforçar esta teoria, os pesquisadores usaram a estratigrafia para demonstrar que que entre 6.500 e 5.800 anos atrás, Kotla Dahar era um lago profundo e banhado por água fresca. Mas, após este período, os indícios demonstram que as monções de verão indianas começaram a enfraquecer até que, entre 4100 e 200 anos atrás, o lago ficou quase seco.

Parte interna do sítio arqueológico de Mohenjodaro. FONTE

Parte interna do sítio arqueológico de Mohenjodaro. FONTE

De qualquer maneira, o trabalho destes intelectuais e suas equipes foi fundamental para finalmente estabelecer o motivo pelo qual estas antigas civilizações entraram em decadência. Um trabalho que só foi possível com a união de cientistas ligados a diferentes áreas, motivados a encontrar explicações que nos ajudam a entender nossas origens.

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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