A ciência por trás das mensagens em garrafas!

A ciência por trás das mensagens em garrafas!

Ontem o Manual do Mundo publicou uma nota que falava sobre um projeto da Associação Biológica Marinha do Reino Unido que, entre 1904 e 1906, lançou mais de 1.000 garrafas ao Mar do Norte com objetivo de entender melhor como funcionavam as correntes marítimas que passavam por esta região. Baseados na notícia emitida pela renomada revista Science Magazine, o pessoal do Manual do Mundo afirma que o objeto foi encontrado por um casal que viva na ilha alemã de Amrum e pode ser a mensagem “engarrafada” mais antiga já encontrada.

Aqui podemos ver o casal Winkler, que encontrou a garrafa com a mensagem. Na mensagem está escrito "Quebre a garrafa". Sobre isso, Marianne Kinkler afirmou: "Meu marido, HOrst, tentou cuidadosamente tirar a mensagem da garrafa, mas não havia como, então seguimos a instrução." FONTE: The Independent

Aqui podemos ver o casal Winkler, que encontrou a garrafa com a mensagem. Na mensagem está escrito “Quebre a garrafa”. Sobre isso, Marianne Kinkler afirmou: “Meu marido, HOrst, tentou cuidadosamente tirar a mensagem da garrafa, mas não havia como, então seguimos a instrução.” FONTE: The Independent

Antes disso, o achado da garrafa que ficou mais tempo no mar à deriva ocorreu também na região do Mar do Norte, quando um pescador escocês a encontrou em meio a sua rede de pesca, em abril de 2012. Esta mensagem, assim como a que acabou de ser encontrada neste ano de 2015, era parte de um experimento destinado a estudar as correntes locais, realizado pelo oceanógrafo e professor da Escola de Navegação de Glasgow, o Capitão C. Hunter Brown. No ano de 1914, este estudioso havia jogado 1,890 garrafas e, segundo afirmação do Dr. Bill Turrell (que é gerente do Programa de Avaliação em Ciências Marinhas e consultor científico do Governo da Escócia) para o site The Atlantic:

“Garrafas à deriva deram aos oceanógrafo do início do século passado informações importantes que lhes permitiu criar imagens dos padrões de circulação de água nos mares ao redor da Escócia.[…] Estas imagens foram utilizadas como base para futuras pesquisas, tais como determinar a deriva de larvas de arenque advindos de zonas de desova, fato que ajudou os cientistas a entenderem o ciclo de vida desta espécie-chave”.

Garrafa do Capitão C. hunter Brown, que era reconhecida como a mais antiga garrafa a ficar a deriva no mar, até este ano. FONTE: National Geographic

Garrafa do Capitão C. hunter Brown, que era reconhecida como a mais antiga garrafa a ficar a deriva no mar, até este ano. FONTE: National Geographic

Quando pensamos em cartas lançadas ao mar em garrafas, na hora costumamos desenvolver um olhar romantizado que nos leva a imaginar cartas de amor, poemas ou pedidos de socorro enviados por pessoas em lugares longínquos deste nosso enorme planeta. Entretanto, tudo isso não passa de resultado da construção de ideias que nos vem da literatura e da cultura audiovisual contemporânea.

Como vocês devem imaginar, enviar garrafas com mensagens pelo mar não é nada recente na humanidade e, segundo o site do Museu Nacional das Ilhas Turcas e Caicos o primeiro registro de uma mensagem lançada ao mar foi realizado pelo filósofo grego Theophrastus que, por volta de 310 a.C. jogou garrafas ao Mar Mediterrâneo para tentar provar que as águas deste mar eram formadas por um fluxo que vinha do Mar Atlântico. Este pensador é considerado o sucessor imediato de Aristóteles, por quem foi nomeado como sucessor e guardião de toda a biblioteca de seu mentor! #Éparapoucos

Estátua de Theophrasus (ou Teofraso) no Horto Botanico de Palermo. FONTE WIKIMEDIA

Estátua de Theophrasus (ou Teofraso) no Horto Botanico de Palermo. FONTE WIKIMEDIA

De acordo com o site da Escola de Graduação Européia Theophrastus procurou dar continuidade às pesquisas de seu professor e ficou conhecido por ser um escritor prolífico (quer dizer que ele escrevia pra C¨%$#&!) que deixou tratados sobre Botânica, Ética e Moral, Geologia e muitos outros assuntos. De qualquer forma, este filósofo não deixou nenhum registro de resposta à sua mensagem.

Muitos séculos depois disso, a Rainha da Inglaterra Elizabet I designou um ofício chamado “Uncover Ocean Bottles” (Descobrimento de Cartas Oceânicas), que tornava crime capital o ato de abrir garrafas encontradas no mar. Se você não sabe, a punição para crimes capitais era a morte e esta medida foi tomada porque a rainha acreditava que estas garrafas poderiam conter mensagens secretas de espiões, assim como informações sobre posições inimigas, enviadas por navios da frota britânica. Mesmo assim, não existe nenhum tipo de documento que colocasse esta forma de mensagem como um meio eficiente de informações – afinal, não tem como controlar a direção da garrafa!

Agora, uma das mais conhecidas (e tocantes) história de mensagem que foi enviada veio de um passageiro do famoso navio Lusitania, que naufragou após o ataque de torpedos alemães próximo à costa da Irlanda, em maio de 1915. Este navio apresentava avanços tecnológicos de engenharia naval da época e comportava uma quantidade enorme de passageiros. Contudo, este veículo náutico foi utilizado durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) para contrabandear munições para os exércitos da Triplice Entente, que era formada pela Inglaterra, França e Rússia.

Fotografia do navio Lusitania, que chegava ao porto de Nova Iorque, em 1907. Tirada da coleção de George Grantham Bain. Fonte: Wikimedia

Fotografia do navio Lusitania, que chegava ao porto de Nova Iorque, em 1907. Tirada da coleção de George Grantham Bain. Fonte: Wikimedia

Os governos dos países da Entente acreditavam que seus adversários da Triplice Aliança (formado pela Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália) jamais iriam atacar um navio cheio de civis. Todavia, os alemães não se importaram com o fato e reagiram à ameaça de invasão da região por eles patrulhada de forma enérgica. Um submarino lançou torpedos contra o navio, que, por sua vez, naufragou nas águas turvas do Mar da Irlanda.

Navio alemão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). As pessoas paravam para vê-lo, enquanto os soldados o lavavam na baía de Hastings, 1919. FONTE The Telegraph

Navio alemão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). As pessoas paravam para vê-lo, enquanto os soldados o lavavam na baía de Hastings, 1919. FONTE: The Telegraph

Em meio ao desespero de milhares de pessoas, um passageiro foi capaz de manter a calma e, enquanto o navio afundava, escreveu uma mensagem sobre o que acontecia no momento:

“Ainda no convés com algumas pessoas. Os últimos barcos já saíram deixaram. Estamos afundando rapidamente. Alguns homens perto de mim estão orando com um padre. O fim está próximo. Talvez esta nota será…”

O fim abrupto e a letra sugerem que o escritor interrompeu sua ação e apressadamente colocou a mensagem dentro da garrafa, enquanto o navio sucumbiu em direção ao fundo do mar. Mesmo assim, existem diferentes versões sobre esta carta, que teria sido encontrada por um pescador.

Seja como for, é importante perceber que as mensagens em garrafas têm uma longa história que remonta ao período anterior à era cristã. O mais interessante é que os primeiros documentos, sobre os quais temos notícia, não estão ligados à visão poética tão apresentada pelos escritores e cineastas, mas sim a tentativas de experimentos que procuravam entender o funcionamento dos mares.

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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