A máquina de fiar de Samuel Crompton

A máquina de fiar de Samuel Crompton

Sempre que falamos sobre o desenvolvimento da Revolução industrial, nos lembramos das famosas máquinas que produzem tecidos, mas o que esquecemos é que para a criação da malha de tecido é preciso, antes de tudo, formar os fios. Por isso, um importante passo na industrialização do processo de produção de tecidos consistiu na criação de máquinas capazes de fiar e enrolar vários novelos de fios, ao mesmo tempo.

Paleonerd_A máquina de fiar de S. Crompton_Tecelagem inglesa

Gravura que representa uma típica tecelagem inglesa durante a Revolução Industrial. Fonte

É neste contexto que podemos falar sobre a máquina de fiar múltipla, que foi inventada por Samuel Crompton em 1779 que combinava mecanismos mecânicos e hidráulicos e que possibilitou a manufatura em larga escala de fios com alta qualidade para atender a indústria têxtil do século XVIII. Crompton tornou possível para apenas um operador controlar mais de 1.000 eixos de rotação ao mesmo tempo na produção de novelos constituídos por fios delicados e outros mais grossos.

Paleonerd_A máquina de fiar de S. Crompton_Spinning Mule

Equipamento desenvolvido por Crompton, que chamou de Spinning Mule (mula giratória). Fonte

Samuel Crompton foi um inventor inglês que passou sua infância trabalhando junto com sua família no processo de fiação, fato que o inspirou a tentar desenvolver formas mais eficientes de realizar este trabalho. Isto fez com que este personagem investisse todo seu tempo e dinheiro no esforço de criar uma máquina que fosse capaz de enrolar e dar a torcida final nas fibras de algodão simultaneamente, de forma a reproduzir os movimentos que eram realizados manualmente pelas pessoas. Assim ó:

Paleonerd_A máquina de fiar de S. Crompton_Rocas

Pintura de uma oficina de produção manual de fios com o auxílio de rocas. Fonte

Até então, todo o processo de fiação e constituição de tramas de tecido era realizado manualmente por pessoas que passam dias e dias realizando o procedimento de lavar o algodão e tornar suas fibras propícias para a fiação, feita na roca para, então, a trama do tecido ser criada com auxílio de um tear manual. Isso sem contar o largo uso de mão de obra africana escravizada nos Estados Unidos, que produziam esta matéria prima para ser enviada à metrópole inglesa.

(c) Bolton Library & Museum Services, Bolton Council; Supplied by The Public Catalogue Foundation

Esta pintura cria uma cena imaginária em que representa Crompton inventando a máquina de fiadora, spinning mule em Hall i’ th’ Wood. Esta imagem captura o ideal heroico do inventor como um revolucionário tal sua importância para o desenvolvimento da Indústria na época. Atualmente esta pintura encontra-se em exposição na Bolton Library, na Grande Manchester, Inglaterra.

A segunda metade do século XIX foi fundamental na história contemporânea, uma vez que seus personagens presenciaram os primeiros passos da Revolução Industrial, na qual a introdução da maquinofatura impulsionou uma organização completamente nova da sociedade, que incluiu a reconfiguração das relações de trabalho – onde crianças e mulheres eram a mão de obra mais procurada para participar no sistema da produção têxtil. As mulheres, por conta da habilidade com tecidos e, no caso das crianças, eram muito solicitadas para atuar na “manutenção” do maquinário, já que apenas mãos muito pequenas poderiam alcançar certos pontos engripados pelos fios (por este mesmo motivo, muitas tiveram membros amputados nas perigosas máquinas)  #tristerealidade

De qualquer forma, a fiadeira automática só foi patenteada por Richard Roberts, em 1825. Nesta época haviam cerca de 50 mil maquinas de fiar como a criada por Cromptom, somente em Lancashire, que era o destino da maior parte do algodão produzido nos EUA.

Paleonerd_A máquina de fiar de S. Crompton_Richard Roberts 1825

Manufatura de algodão em 1830, com uso da fiadeira automática patenteada por Richard Roberts em 1825. Repare na presença da criança representada dentro do maquinário. Fonte

Entretanto, é irônico pensar que, apesar de todo este desenvolvimento tecnológico e da expansão de ideais que falavam sobre igualdade e liberdade, a presença do uso de mão de obra escrava para fornecer a matéria-prima desta indústria não era entendida como uma contradição por seus membros.

O movimento abolicionista e a consequente pressão aos países que realizavam este mercado só viria a ser forte a partir de meados do século XIX, devido o crescente interesse imperialista dos europeus por matéria-prima e mercados consumidores.

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About the Author

PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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