O “look” da Revolução Francesa

O “look” da Revolução Francesa

A Revolução Francesa é entendida como um processo fundamental para a história do homem contemporâneo por ter marcado a decadência da política absolutista e da organização econômica mercantilista que marcaram o Antigo Regime. Como consequência, a Europa foi tomada pela ascensão de políticas inspiradas na democracia e foi introduzida em um sistema econômico capitalista.

É claro que estas mudanças não aconteceram de um dia para o outro, assim como não ocorreram da mesma maneira em todos os lugares e, para tornar claro o entendimento sobre este assunto, podemos lembrar das afirmações do grande historiador Eric Hobsbawn, que denominou o processo de mudanças políticas, sociais e econômicas que ocorreram na Europa entre 1789 e 1848 como as Revoluções Burguesas.

Pintura feita por autor anônimo que retrata o momento da queda da Bastilha e a prisão do governador M. de Launay, em 1789. A Bastilha era um símbolo do Antigo Regime por ter servido como prisão aos que se colocavam contra as imposições da Coroa. Por este motivo, sua destruíção é carregada de poderosa simbologia ao fim dos modelos de política absolutista e economia mercantilista.

Pintura feita por autor anônimo que retrata o momento da queda da Bastilha e a prisão do governador M. de Launay, em 1789.
A Bastilha era um símbolo do Antigo Regime por ter servido como prisão aos que se colocavam contra as imposições da Coroa. Por este motivo, sua destruíção é carregada de poderosa simbologia ao fim dos modelos de política absolutista e economia mercantilista. FONTE: Museu Nacional do Chateau de Versalhes

Este termo é usado pelo “Hobinho” (sim! Eu chamo o Hobsbawn de Hobinho! Lide com isso) para definir o que ele chama de uma “dupla revolução”, ou seja, para deixar claro que as revoluções francesa e industrial trouxeram mudanças importantes para o desenvolvimento da sociedade contemporânea. Isso porque este momento marcou o triunfo da indústria capitalista e dos fundamentos de uma sociedade “burguesa” liberal, marcado pela introdução de novas perspectivas como a introdução desta ideia de partidos de “esquerda” e de “direita” ou a ideia de introduzir uma educação pública e laicas, assim como questionamentos sobre a distribuição de renda ou os direitos e deveres dos cidadãos.

tricolour cockade

Na parte direita do chapéu de duas pontas (datado entre 1790-1815), podemos ver uma ROSETA TRICOLOR. Este objeto foi transformado em um importante símbolo da luta revolucionária e era utilizado por grande parte da população francesa, como forma de expressar a adesão à luta revolucionária, assim como aos seus ideais. Fonte: Museum of Fine Arts – Boston

A Revolução Francesa, em especial, foi a primeira de caráter ecumênico (isso não é palavrão não! Quer dizer que reuniu grupos de diferentes credos, ideologias e classes sociais.) e introduziu valores completamente novos como a ideia de liberdade de pensamento e o direito de luta contra opressão. Além disso, serviu para disseminar valores específicos da burguesia como as ideias de individualismo, meritocracia e não podemos esquecer da perspectiva de um “livre-mercado”.

Tudo isso resultou numa nova sociedade, que veio a ser organizada segundo preceitos iluministas que estão presentes até os dias de hoje como a divisão dos três poderes, a submissão dos governos às Constituições e a expansão de uma economia industrial. Uma mudança tão poderosa que afetou todo o Mundo Ocidental e impulsionou movimentos emancipatórios pelas colônias destas antigas potências mercantilistas da Europa. Para perceber isso, basta lembrar os ideais que inspiraram a Inconfidência Mineira ou a Conjuração Baiana – que é hoje definida pelos historiadores baianos como Revolta de Búzios.

E você deve estar pensando aí: Tá, mas o que tudo isso tem a ver, afinal, com a moda?

Gravura que retoma as vestimentas utilizadas pelos membros dos exércitos revolucionários, durante a revolução francesa. FONTE

Gravura que retoma as vestimentas utilizadas pelos membros dos exércitos revolucionários, durante a revolução francesa. FONTE

 Acontece que no período revolucionário a forma como você se vestia era composta por todo um significado político e quem explicou tudo isso de uma forma muito interessante foi a historiadora Lynn Hunt, quando escreveu um capítulo chamado “Revolução Francesa e a Vida Privada” para uma série de livros chamada “História da vida privada”, que foi organizada por Philippe Ariès e Georges Duby. Esta série é um tremendo trabalho de pesquisa e se você realmente tem interesse em conhecer sobre História, pode sentar para ler uns capítulos OU ler uma versão brasileira desta série, chamada História da Vida Privada no Brasil que também é porreta! As duas séries foram publicadas aqui pela Editora Companhia das Letras, de quem eu sou muito fã – e olha que não ganhei jabá para falar isso aqui!

Este chapéu, chamado "barrete frígio" foi transformado no maior símbolo da revolução francesa e, para falar a verdade, eu precisaria de um texto só para falar sobre ele. Na frente do chapeu está escrito "A Nação Livre". FONTE

Este chapéu, chamado “barrete frígio” foi transformado no maior símbolo da revolução francesa e, para falar a verdade, eu precisaria de um texto só para falar sobre ele. Na frente do chapeu está escrito “A Nação Livre”. FONTE

Enfim, a Lynn Hunt fala que durante o período revolucionário, as pessoas procuraram usar roupas simples e de cores escuras (normalmente preto) para se opor às vestimentas luxuosas que eram utilizadas pelos membros da aristocracia. Isso era considerado pelos franceses uma forma de patriotismo, já que a nobreza costumava gastar horrores em roupas e outras futilidades, sem se preocuparem com as finanças do reino.  Desta forma, vestir roupas mais modestas tinha duas simbologias principais:

  • Era uma forma de mostrar que a pessoa estava mais interessada nos problemas do seu país, do que com a própria imagem.
  • Servia para deixar claro a todos que esta pessoa não concordava com o modo de vida da nobreza, que era baseado na ostentação e no luxo.
Ilustração de edição da Revista da Moda e do Gosto, datada de 25/ agosto/1790. A imagem revela à esquerda, o típico modo de vestir da nobreza, em contraposição à indumentária revolucionária.

Ilustração de edição da Revista da Moda e do Gosto, datada de 25/ agosto/1790. A imagem revela à esquerda, o típico modo de vestir da nobreza, em contraposição à indumentária revolucionária. Percebam a expressão de desprezo da personagem à direita, retratada pelo ilustrador como demonstração de recusa em aceitar a antiga estética. FONTE: Museum of Fine Arts – Boston

E, já naquele período existiam até revistas especializadas em moda que falavam sobre quais as “tendências” da moda, naquela época!

O Journal de la Mode Et Du Goût (Jornal da Moda e do Gosto) é um exemplo deste tipo de publicação que marcou a França de fins do século XVIII. Ele circulou entre 1790-1793 e falava sobre vários assuntos como as maneiras de vestir, assim como oferecia ideias de decoração para os recintos e até mesmo as partituras das músicas que estavam em voga, na época. Tudo sempre fundamentado nos princípios revolucionários, é claro.

A partir de 1792, a formulação da 1ª República Francesa foi marcada pela criação de um órgão de governo chamado Convenção, que durou entre 1792 e 1795. Formado por uma espécie de parlamento, cujos membros eram eleitos pelo voto universal masculino, este governo chegou a criar leis que determinavam as formas de vestir dos franceses e, durante a radicalização do processo revolucionário, com a ascensão dos jacobinos do poder foi decretado que todos os franceses, sem distinção de sexo deveriam usar a roseta tricolor em suas roupas.

Modelo de decoração de um quarto, durante o período revolucionário francês. Percebam a presença das cores azul, branco e vermelho da bandeira francesa. FONTE

Modelo de decoração de um quarto, durante o período revolucionário francês. Percebam a presença das cores azul, branco e vermelho da bandeira francesa. FONTE

Já em 1794, o governo chegou a solicitar ao pintor e deputado jacobino, Jaques Louis David, para criar uma série de modelos para o que seria um “traje nacional”. Entretanto, essa ideia de criar um uniforme “digno de homens livres” a ser usado pelos civis revolucionários ficou somente no papel mesmo. De qualquer forma, Hunt fala que “…a Revolução contribuiu para diminuir o número de peças de roupa e deixar a indumentária mais solta.”

Curtam aí as imagens que encontrei sobre a moda e adaptem os “looks” aí. 😉

Pintura do deputado francês Édouard Jean Baptiste Milhaud, feita por Jaques Louis David. FONTE: Wikimedia

Pintura do deputado francês Édouard Jean Baptiste Milhaud, feita por Jaques Louis David. FONTE: Wikimedia

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PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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