A origem do KAPA HAKA!

A origem do KAPA HAKA!

Mano! Em primeiro lugar, se você não faz ideia do que é o “haka”, dê uma olhada nesse vídeo:

Se você não “tá ligado” esta é a equipe da Nova Zelândia de rugby All Blacks, que ficou muito famosa ao introduzir o canto da etnia Māori em suas aberturas de partida. Como uma forma de intimidar os adversários em campo, o time dos All Blacks decidiu em 1929 introduzir esta dança como forma de iniciar suas partidas.

Os Māori são os povos nativos da Nova Zelândia que ficaram conhecidos por serem corajosos guerreiros que resistiram a todo custo contra as imposições do imperialismo inglês estabelecido nesta região durante o século XIX. Com diversas tatuagens por todo o corpo, estes combatentes desenvolveram uma milenar cultura guerreira como forma de lidar com os constantes conflitos entre as tribos.

A Samambaia prata

A Samambaia prata (nome científico: Cyathea dealbata) é uma planta típica da Nova Zelândia e foi adotada pela primeira fez pelo exército neozelandês durante a Segunda Guerra Böer (1899-1902), entre a Grã-Bretanha e África do Sul. Para esta ocasião os ingleses reuniram membros de várias colônias para os auxiliarem a subjugar a região. O motivo? Diamante.

Mas o que é o “haka”, afinal?

Já aviso! A cultura Māori é extremamente complexa e eu precisaria de muitas páginas (e tempo) para explicá-la de forma mais completa. Por isso eu vou me ater somente à questão da origem do “haka”, beleza?

Na língua Māori, o termo “kapa haka” (kapa= alinhado / haka= dança) significa grupo ou grupos alinhados que realizam performances de danças tradicionais da cultura Māori, acompanhados por palavras entoadas. Esta forma de manifestação cultural é algo que chama muito a atenção por ter transcendido o tempo e permanecer, até hoje, como uma forma viva de arte na Nova Zelândia.

O problema é que a maioria das pessoas costuma usar apenas o termo “haka” como uma forma de definição genérica para o enorme universo que envolve tais expressões.

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Esquema que demonstra a dança do haka, feita pelos All Blacks. FONTE: The Telegraph

Muito diferente do que as pessoas costumam pensar, “haka” não é somente um tipo de dança de guerra e, segundo o especialista na língua Māori, Tīmoti Kāretu, o “haka” oferece uma plataforma na qual o compositor pode exprimir sua cólera, louvar alguém, inaugurar um novo lar, receber um visitante, honrar seus ancestrais e prestar respeito aos mortos. O que cada uma destas manifestações tem em comum é o “mauri” (princípio vital), que está presente em todos os aspectos desta arte, assim como fundamenta o espírito e o pensamentos de quem o realiza.

Além disso, é carregado de enorme valor social, uma vez que a reputação de uma tribo sempre esteve relacionada com a capacidade que seus membros têm de realizar o “haka”. E uma importante variação do “haka” é o “waiata” (canto) que ocupa espaço central no “kapa haka” para transmitir sentimentos de grupo, lembranças pessoais e eventos históricos importantes da narrativa oral. Por isso, o “waiata” é utilizado para transferir conhecimentos da comunidade.

Guerreiro maori contemporâneo com suas tatuagens faciais. FONTE

Guerreiro maori contemporâneo com suas tatuagens faciais. FONTE

O mais antigo registro de “kapa haka” remonta ao mito antigo destas ilhas do Pacífico, que conta a história de “Tirinau e Kae”. O primeiro seria o ancestral de todos os peixes e vivia em sua ilha sagrada, chamada Te Motutapu-o-Tinirau (“A ilha sagrada de Tirinau”) que, em algumas versões da história, estaria situada no fundo do mar. Já Kae era um sacerdote de um povo chamado Te Aitanga-a-Te Poporokewa, que significa “os desendentes de Poporokewa” – um tipo de baleia que existe na região.

Kae teria batizado o primeiro filho de Tirinau e, como pagamento, pediu para montar a baleia de estimação desta divindade e, a contragosto, Tirinau afirmou que quando a baleia chegasse à costa da ilha de Kae e sacudisse, o sacerdote deveria desmontar do animal. Entretanto, o sacerdote levou a baleia até a aldeia e, junto com sua aldeia, cozinhou o animal! #mancada

Capturar

Kapa O Pango. Letra e tradução do haka entoado pelo All Blacks lá no video do início do texto.

Quando soube da notícia, Hineteiwaiwa (esposa de Tirinau) reuniu um grupo de mulheres que viajaram até a ilha de Kae para captura-lo. Mas, como só era possível reconhecer o sacerdote por causa de um dente que crescia sobreposto ao outro em sua boca elas precisariam fazê-lo rir. Para isso, fizeram dançaram e contaram histórias e, no momento em que o malandro soltou uma risada, o capturaram e o levaram para ser executado por Tirinau.

A dança do “haka” pode ser feita com a intenção de intimidar o adversário ou convidar as pessoas para a dança, por meio da utilização de movimentos poderosos, do uso vigoroso do diafragma e grandes vocalizações de mensagens dirigidas à plateia. Além disso, os guerreiros costumam abrir bem os olhos (pūkana) e deixar as línguas para fora (whētero) para dissuadir os ânimos dos inimigos. Esta dança tem um forte apelo psicológico e, segundo o mestre Henare Teowai, é um momento no qual o corpo inteiro deve falar – “Kia kōrero te katoa o te tinana”.

Os naturalistas viajavam por terras desconhecidas com objetivo de registrar e catalogar as formas de vida, cultura e possíveis riquezas destas regiões.Esboço de artista anônimo que retrata a chegada da expedição naturalista liderada pelo Capitão James Cook e o botânico Joseph Banks erguendo a bandeira da Grã-Bretanha em uma das ilhas do Pacífico - provavelmente Austrália.

Os naturalistas viajavam por terras desconhecidas com objetivo de registrar e catalogar as formas de vida, cultura e possíveis riquezas destas regiões. Esboço de artista anônimo que retrata a chegada da expedição naturalista liderada pelo Capitão James Cook e o botânico Joseph Banks erguendo a bandeira da Grã-Bretanha em uma das ilhas do Pacífico – provavelmente Austrália. Fonte: The Australian

No site da Enciclopédia da Nova Zelândia, é possível encontrar um pedaço do relato mais antigo feito um europeu que presenciou o “haka”. Este documento é de autoria dos naturalistas ingleses Joseph Banks e James Cook que, em 1769, escreveram: “O canto de guerra e dança consiste em contorções dos membros, durante o qual a língua é frequentemente colocada para fora a uma incrível distância e as órbitas dos olhos tanto que um círculo branco é claramente visto em volta da íris: enfim, nada que possa render uma deformação assustadora é omitido, algo que acredito que eles considerem terrível.”

Existem diversos “hakas”, que variam de acordo com as tribos e com as mensagens a serem passadas e o All Blacks apresentam versões que variam com o tempo. Eu coloquei aqui a tradução de uma destas versões, apenas.

Abaixo, deixo o emocionante haka feito por toda uma escola em homenagem a chegada do carro funerário do professor de matemática Tamatea. Confesso que até rolou um “suor masculino” aqui nos meus olhos, quando vi. #SNIF

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About the Author

PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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