Galvarino – o guerreiro Mapuche que lutou sem mãos

Galvarino – o guerreiro Mapuche que lutou sem mãos

Não houve jamais rei que conseguisse sujeitar esta soberba gente liberta,
nem estrangeira nação que se jactasse de haver pisado seus territórios,
nem terra comarcana que ousasse mover-se contra ela ou levantar-lhe espada.
Essa gente sempre foi livre, indômita, temida, com lei própria e cerviz erguida.
(La Araucana, poema de Alonso de Ercilla y Zúñiga, 1533-1594)

Em novembro de 1557, o guerreiro Mapuche, Galvarino, liderou uma divisão de seus companheiros guerreiros em uma batalha desesperada contra as forças coloniais espanholas na região de Araucania no centro do Chile. Notavelmente, uma vez que ele não tinha mãos, Galvarino apresentou-se para a luta armado apenas com uma faca amarrada a cada pulso. Por sua bravura, é uma figura emblemática da história do Chile – e da América Latina de maneira geral, como exemplo da resistência nativa à colonização europeia.

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Imagem em litogravura que representa Galvarino, o guerreiro Mapuche que teve ambas as mãos decepadas pelos colonizadores espanhois. La Araucana : de D. Alonso de Ercilla y Zúñiga. Ed. ilustrada. Madrid : Impr. y Libr. de J. Gaspar Editor, 1884. 168 p.

A campanha espanhola para a conquista do Chile começou no século XVI e os conquistadores encontraram pela primeira vez o Mapuche Galvarino em uma batalha em Reynoguelen, em 1536. Ao longo das próximas décadas, os exércitos inimigos lutaram entre si entre os rios Toltén e Itata durante a Guerra de Arauco, como é conhecida atualmente. Uma vez que os Mapuche, nativos da região, negavam a se render à colonização Espanhola, a Guerra de Arauco foi uma série de batalhas que durou 300 anos, com longos períodos de trégua.

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A bandeira Mapuche, “Gente da terra” [ Mapu = Terra / Che = Gente, que significa gente da terra, ou nativo na língua mapudungun]

Em 08 de novembro de 1557, na Batalha de Lagunillas, Galvarino juntamente com outras 150 pessoas foi capturado e feito prisioneiro pelos espanhóis. Condenado por insurreição, alguns desses prisioneiros tiveram seus narizes ou mãos direita amputada, enquanto outros, incluindo Galvarino, tinham as duas mãos removidas.

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Representação iconográfica das mãos de Galvarino decepadas. Imagem do Archivo Fotográfico de la Universidad de Chile

O governador espanhol, Garcia Hurtado de Mendoza, enviou Galvarino amputado de volta ao seu povo para enviar o “recado” de que Mendoza e os espanhóis deveriam ser temidos, com a esperança de que isso resultaria na rendição Mapuche, sem mais derramamento de sangue. Contudo, o plano deu errado. Galvarino pediu ao conselho de guerra Mapuche que continuassem a luta e despertou seu povo ainda mais contra os espanhóis. #deuruim

Recompensado por sua bravura, Galvarino foi colocado no comando de um esquadrão de homens e, a fim de lutar eficazmente, facas foram presas aos seus pulsos. Os dois lados se encontraram novamente na Batalha de Millarapue em 30 de novembro, 1557. Intensos combates continuaram do amanhecer até o anoitecer, com Galvarino na vanguarda, exortando seus companheiros soldados gritando: “vejo que todos vocês lutam muito bem. Não queiram que vocês acabem como eu, sem mãos, de maneira que não sejam capazes de trabalhar ou comer!” (Jerónimo de Vivar, Crónica, Capítulo CXXXIII.)

Com agrupamento de guerreiros muito menor que os espanhóis, os Mapuche acabaram derrotados nesta batalha. Foram contabilizados cerca de 3.000 Mapuches mortos e outros 800 capturados, incluindo Galvarino. Embora a maioria dos líderes Mapuche capturados tenham sido enforcados, há suposições de que Galvarino tenha sido jogado aos cães dessa vez.

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Imagem de um cemitério Mapuche. As “lápides” são de estátuas de madeira, em memória ao finado membro da tribo.

Em Santiago, é comum dizer de uma pessoa que é muito arredia que “é dura como um Mapuche”, uma referência à resistência do grupo perante as autoridades. Os conflitos entre esses povos e o governo intensificaram-se desde que o governo ditatorial de General Pinochet cedeu parte do território deles para a colonização alemã, responsável pela cultura de vinho na região.

O Chile tenta solucionar a questão com os índios mapuches até hoje. Um impasse que se arrasta há séculos e se acentuou nos últimos anos, com ataques contra propriedades privadas, desestabilizando o governo de Michelle Bachelet.

Os mapuches reivindicam a posse das terras na região da Araucanía, sul do país, além da libertação de presos políticos que defendem a causa indígena. Estima-se que haja cerca de 600 mil pessoas da etnia, mas apenas 30% militam na Coordenadora Arauco-Malleco (CAM), um exercito armado que impede a aproximação de fazendeiros na região e atualmente lutam contra a construção de uma hidroelétrica.

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Manifestação Mapuche contra a prisão política de ativistas que lutam a favor da causa indígena. Fonte

Para aprofundar-se no assunto, você pode ver este vídeo/documentário bastante elucidativo sobre a história e a causa Mapuche e dos demais nativos da América Pré-Colonização:

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Bárbara GascóOlá, terráqueos! Sou Bárbara Gascó, conhecida também como Barbrão por minha conhecida habilidade em várias esferas, tipo faz-tudo =) e esposa do Sr. Denis Gascó, PaleoNerd. Sou Arquiteta e Urbanista e atuo na área desde 2012. Paralelamente, escrevo sobre Arquitetura+História e, como única representante do sexo feminino neste navio pirata, pautas acerca de questões sobre Feminismo e Igualdade de gêneros.

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