Mini-Série: Flávio de Carvalho (S01E02)

Mini-Série: Flávio de Carvalho (S01E02)

A fama de “baladeiro”, deste artista não é algo novo e, já em fins da década de 20, Flavio de Carvalho mantinha um estúdio na Rua Cristóvão Colombo que agregava modelos, artistas, boêmios desocupados e jornalistas, com o propósito de oferecer um espaço de troca das experiências destes artistas. Além deste lugar, os artistas costumavam também frequentar o salão de Dona Olívia Penteado, que era conhecida por realizar festas que contavam com a participação de artistas e escritores da época. Esta senhora, também participou de forma ativa na luta pelo voto feminino, participou nas mobilizações da Revolução Constitucionalista de 1932 e ajudou a eleger a primeira mulher para uma constituinte – a médica Carlota Pereira de Queirós.

Durante a década de 30 a arte havia já deixado de ser tão marginal e encontrava-se envolvida num processo de consolidação por meio da arte Modernista, a qual passou a corresponder ao interesse de figurar o Brasil. Ao mesmo tempo, estes artistas desenvolviam uma organização pela defesa patrimonial no país, já que a cultura passava a apresentar características de um “negócio oficial”, onde artistas e intelectuais cada vez mais estavam interessados em se envolver.

Fotografias da casa de Dona Olívia, na Av. Conselheiro Nébias (SP). Como parte da camada paulista privilegiada, esta personagem foi muito influenciada pela estética francesa.

Fotografias da casa de Dona Olívia, na Av. Conselheiro Nébias (SP). Como parte da camada paulista privilegiada, esta personagem foi muito influenciada pela estética francesa.

É, em meio a enorme instabilidade política do terceiro decênio do século XX que Flávio de Carvalho, junto com Carlos Prado e Di Cavalcanti, foram responsáveis pela criação do Clube dos Artistas Modernos (C.A.M), em 1932, com o intuito de:

  • estabelecer um espaço que oferecesse diversas palestras e conferências que envolvessem pessoas de variadas vertentes intelectuais – principalmente a psicologia – para falar sobre a relação destas áreas com as artes;
  • conquistar um publico diferente, atraindo pessoas que tivessem interesse pela arte moderna;
  • adequar-se às tendências culturais que fossem pertinentes ao período inicial da década de 30;
  • realizar a promoção dos ideais marxistas, por meio da associação entre política e arte.
Clube dos Artista Modernistas

O grupo CAM reunia personalidades como Antonio Gomide, Carlos Prado, Emiliano Di Cavalcanti e o nosso querido Flávio de Carvalho. FONTE: MAC.USP.BR

Esta iniciativa, apesar de sua origem social relacionada às camadas médias brasileiras, foi muito importante para divulgar a arte moderna brasileira e terminou, posteriormente, por agregar representantes de classes menos favorecidas, assim como pessoas dotadas das mais variadas formações como escritores, médicos e cantores populares – neste ambiente o espírito da mais absoluta camaradagem sempre esteve presente.

Entretanto, com o estabelecimento do Estado Novo, estes espaços entraram em processo de decadência, pois os espaços de cultura e lazer passaram serem organizados pelo governo, com objetivo de atender aos interesses propagandísticos deste poder autoritário. Algo que reunia apoio dos artistas por oferecer certa profissionalização dos artistas, que eram inseridos como funcionários do Estado.

Foi logo abaixo do viaduto Santa Ifigênia que estes artistas criaram o CAM, como uma forma de defender "a suberversão da (des)ordem estabelecida. FONTE: Mac.Usp.br

Foi logo abaixo do viaduto Santa Ifigênia que estes artistas criaram o CAM, como uma forma de defender “a suberversão da (des)ordem estabelecida. “O aspecto napolitano da R. Anhangabaú, entre frutas, imprecações sírias, fileiras de salames, casas suspeitas, molecada suja, pelotões de guarda que entravam e saíam (da guarda civil, que ficava nos fundos) e as sombras dos tabuleiros e treliças do viaduto, que tornavam o ambiente acolhedor e irresponsável”. (Flávio de Carvalho) FONTE: Mac.Usp.br

Mas, e o Flávio?

            Diante da nova situação estabelecida pelo Estado Novo, Flávio de Carvalho começou a se estabelecer em sua residência em Valinhos onde, manteve uma vida menos pública, mas, ainda assim, voltada para relações artísticas e para a promoção da arte por meio de grandes festas e visitas que recebia de artistas e intelectuais de todo tipo. Neste lugar, este artista permaneceu o resto de sua vida causando ainda muitas polêmicas na pacata cidade com estas festividades e onde obteve nos seus últimos anos, o reconhecimento por sua obra – apesar do pequeno interesse que os membros da cidade pareciam ter sobre o artista. Enquanto isso, Flavio continuava a pintar modelos que posavam para ele em sua piscina, acompanhado de boa música e alguns “drinks”…

15 94

92

 

COMENTÁRIOS

Desembuche aqui:

Share this:

About the Author

PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

View all posts by PaleoNerd

Leave a Reply