Cartas do Pós-Segunda Guerra encontradas numa caixa de cereal

Cartas do Pós-Segunda Guerra encontradas numa caixa de cereal

Em Julho deste ano a agência de nótícias americana ABC publicou uma matéria sobre um conjunto de cartas que foram encontradas em uma caixa de cereal de flocos de milho e que revelam relações íntimas entre prisioneiros de guerra alemães e moradores do Tennessee/EUA, com quem viviam e trabalhavam.

Nesta entrevista, Curtis Peters (que é professor de história do ensino médio aposentado e atual presidente do Lawrence County Historical Society) disse que sua cunhada que vive em Lawrenceburg, Tennessee, descobriu cerca de 400 cartas na casa de sua tia-avó quando ela faleceu no final de 1980. As cartas, foram escritas por alemães que viviam em um campo de prisioneiros perto da fronteira sul do Tennessee após a Segunda Guerra Mundial.

ht_letters_3_kab_150713_4x3_992

Uma das cartas encontradas pela família de Peters. Fonte: Kristi Jones/Lipscomb University

A família doou as cartas para Lipscomb University, em Nashville, após o encontro que Peters teve com um de seus professores de história, Tim Johnson. Juntos, analisaram os documentos e revelam que as cartas foram escritas entre 1946 e há até um cartão de Natal enviado em 1976. Segundo Peters, por muito tempo depois da guerra, eles mostram que é o quão próxima era a relação. Essas cartas são documentos de uma “história social, sobre as suas vidas, suas famílias, as dificuldades que sofreram”, disse o historiador Tim Johnson.

De acordo com relatos de jornais locais na época, Peters aponta que: “O tom de tratamento em relação aos prisioneiros mudou: durante um curto período de tempo de aproximadamente dois anos, quando no início eram chamados de “nazistas”, passaram a ser chamados de “soldados alemães” e posteriormente, de “meninos alemães”.” A proximidade entre os prisioneiros e os americanos é evidenciada ainda pelo tipo de vocativo utilizado pelos alemães que abordam americanos como família, como “tia” ou “tio”.

ht_letters_2_kab_150713_4x3_992

Uma das cartas e fotografia encontradas e que estão atualmente sob análise da Universidade de Lipscomb. Fonte: Kristi Jones/Lipscomb University

Nas primeiras cartas, os prisioneiros alemães que trabalhavam na propriedade das famílias Stribling e Brock, pediam ajuda aos americanos. Numa delas, um prisioneiro alemão, que era dentista em sua terra natal pedia aos Stribling e Brock por remédios e roupas a serem enviadas a seus antigos pacientes e amigos na Alemanha, ítens limitados basicamente a um mercado negro por lá em razão do racionamento pós-guerra.

Uma das cartas foi escrita pelo ex-preso Willi Mueller, datada de 3 de setembro de 1948:

“Eu acho que não haveria guerra e inimigos no mundo se as diferentes nações pudessem se entender tão bem como nós. Pagamos caro por iniciar e conduzir a guerra.  Eu desejava que todos pudessem esquecer a guerra e as coisas ruins que aconteceram nela e tentar viver em paz e respeito como vizinhos. O mundo todo se beneficiaria com isso. “

Johnson disse à ABC News: “Eu realmente pensei que isso deveria estar disponível para o público. É raro encontrar uma grande coleção de cartas como esta.” A biblioteca planeja exibi-los no um evento para comemorar o 70º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. O Tennessee Historical Records Advisory Board e a National Historical Publications and Records Commission realizaram uma doação de $1.250 para ajudar na digitalização das cartas. A Universidade de Lipscomb firmou um contrato com o professor de alemão Charles McVey para traduzir as cartas. Ambas as partes originais escreviam em suas línguas nativas e os destinatários procuravam pessoas para ajudar a traduzi-los, disse Peters.

ht_letters_1_kab_150713_4x3_992

Charles McVey, professor de alemão da Lipscomb que atua na tradução das cartas. Fonte: Kristi Jones/Lipscomb University

“É fácil falar de guerra quando está a uma certa distância”, disse Johnson. “Parte de guerra é desumanizar o adversário. Quando você traz no elemento humano, é um jogo completamente diferente. Estas cartas trazem-nos cara-a-cara com a humanidade. “

“Muitos americanos só conhecem a Segunda Guerra Mundial a partir de filmes com Brad Pitt e Tom Hanks,” McVey disse. “Eu mesmo sou um professor de alemão cujo pai foi um prisioneiro de guerra na Alemanha. Eu sabia que alguns alemães eram prisioneiros de guerra aqui na América, mas nunca ocorreu-me que os prisioneiros de guerra alemães fossem tão próximos dos americanos. Através deste projeto, nós estamos encontrando pessoas em todo os EUA que sabiam desses campos e de alemães abrigados neles. Estas cartas trarão algo que era velho e esquecido à vida novamente “.

McVey disse que o intuito da universidade é que a sua biblioteca torne-se um centro de estudos deste aspecto da II Guerra Mundial.

“É um tema muito interessante ligado à história militar, mas também ligada à forma como as pessoas se relacionam entre si hoje em conflitos e na prisão de guerra”, disse McVey. “Nós descobrimos que as pessoas estão cientes desta história, mas parece não haver, até então, um elo para o estudo capaz de recolher e interpretar este nível de informação sobre este tema.”

COMENTÁRIOS

Desembuche aqui:

Share this:

About the Author

Bárbara Gascó

Olá, terráqueos!

Sou Bárbara Gascó, conhecida também como Barbrão por minha conhecida habilidade em várias esferas, tipo faz-tudo =) e esposa do Sr. Denis Gascó, PaleoNerd.

Sou Arquiteta e Urbanista e atuo na área desde 2012. Paralelamente, escrevo sobre Arquitetura+História e, como única representante do sexo feminino neste navio pirata, pautas acerca de questões sobre Feminismo e Igualdade de gêneros.

View all posts by Bárbara Gascó

Leave a Reply