Entrevista: Pablo Miyazawa (IGN Brasil)

Entrevista: Pablo Miyazawa (IGN Brasil)

O portal de notícias IGN (Imagine Games Network), é um site especializado em videogames e cultura pop que teve seu modesto início no EUA em 1996 e, com o passar dos anos, se transformou numa das maiores referências em notícias e registros sobre jogos e tudo mais que está relacionado ao universo nerd. Nos dias de hoje, contam com 25 edições do site – distribuídas em 18 línguas diferentes por todo o planeta – e chegam ao Brasil com a proposta de “Fazer o Brasil jogar mais”.

 Em janeiro deste ano, o grupo francês WEBEDIA decidiu trazer também para o Brasil e para iniciar este projeto, convidou o jornalista Pablo Miyazawa, que conta já com uma experiência de 17 anos nos bastidores da imprensa voltada para o público jovem.  Em um “bate-papo” no stand da IGN, pude conhecer melhor o Editor-chefe da IGN-Brasil e retomar um pouco da trajetória deste importante personagem da história das publicações sobre cultura nerd no Brasil, assim como tratar de outros temas relevantes para a história, economia e cultura gamer.

A WEBEDIA é uma "Publisher Boutique" responsável por sites como Adorocinema, IGN, Pure People, dentre outros. FONTE: WEBEDIA

A WEBEDIA é uma “Publisher Boutique” responsável por sites como Adorocinema, IGN, Pure People, dentre outros. FONTE: WEBEDIA

Miyazawa se formou em Comunicação e Jornalismo, pela PUC-SP e desenvolveu uma larga experiência como editor de publicações impressas ao passar por empresas como Nintendo World, Editora Conrad e a Revista Roling Stones. Além do mais, procurou se engendrar no universo das informações on line, ao atuar como blogger para a UOL e IG. Neste período, produziu um interessante artigo que procura interrogar vários conceitos de “cultura pop“; algo que resulta um tanto quanto trabalhoso, uma vez que é necessário ter em mente as várias perspectivas de cultura, além de precisar retomar importantes autores como Theodore Adornor e Max Hokheimer (em “Indústria Cultural de Massas”) Guy Debord (em “Sociedade do Espetáculo”) ou, o que acho mais legal, Jean Baudrillard – em “Simulacros e Simulações”.

Fotografia retirada do artigo "Baudrillard: A Sociedade de Consumo", no site The Philosophy.

Fotografia retirada do artigo “Baudrillard: A Sociedade de Consumo”, no site The Philosophy.

Ao falar sobre sua trajetória, Miyazawa afirma que considera uma mudança de paradigma, uma vez que precisou se adaptar à transformações que envolviam lidar com a velocidade exigida pelo universo virtual:

“No meu tempo as coisas eram mais lentas – digamos assim. Você tinha um mês inteiro para fazer uma revista e hoje, com a internet, existe toda uma velocidade que exige fechamentos diários.  Ao mesmo tempo, a internet (como ela é) já pode ser vista como uma coisa do passado, pois este fenômeno dos ‘youtubers’, como influenciadores de personalidades e como um público que gosta de videogame, é muito diferente da forma como os jornalistas e editores de revistas sobre games eram e o que eles representavam para o público. Não tem nem comparação, pois estas pessoas têm muito mais influência do que qualquer jornalista de games jamais teve!

Precisamos aprender a lidar com esta nova situação, na qual esse público mais novo consome informação de um jeito novo, rápido e sem muito apego. E caras como eu, que são veteranos e sobreviveram temos que aprender a conviver em paz com esses novos formatos e com as expectativas do público, que são bem diferentes das pessoas que cresceram lendo revistas de videogame.

Neste sentido, ao falar sobre a criação do IGN-Brasil, Miyazawa deixa claro que o peso histórico e a credibilidade da marca são importantes para a construção desta versão brasileira, mas é fundamental saber colocar o que ele chama de “o tempero brasileiro”, ou seja, investir em conteúdo que esteja ligado ao consumidor brasileiro. Sobre isso, conclui: “E eu acho que o IGN-Brasil conseguiu fazer essa fórmula! ”.

Matriz da IGN Entertainment´s, na Caligórnia. FONTE: WIKIMEDIA

Matriz da IGN Entertainment´s, na Califórnia. FONTE: WIKIMEDIA

Ao conversar sobre memória e formação de acervos relacionados à cultura gamer no Brasil, Miyazawa reconhece o problema de registros que tivemos, com relação a produção de consoles e títulos piratas (conhecido como “mercado cinza”) e retoma um pouco deste período, da mesma forma que admite a importância em retomar esta história:

Eu sou um fruto dessa época, né! Eu tenho 37 e jogo videogame desde que me conheço por gente e, no Brasil, a cultura de videogame era uma coisa totalmente diferente do resto do mundo!

Enquanto lá fora existia uma guerra de marcas de consoles (Nintendo X Sega) o Brasil experimentava uma guerra parecida, só que a Sega era representada por uma marca de brinquedos e a Nintendo não era representada por ninguém. Todo mundo lançava consoles Nintendo e era um ‘oba, oba’! O Brasileiro daquela época não sabia exatamente que aquilo era pirataria.

Existe todo um momento da história dos videogames no Brasil que se não tiver gente que realmente viveu aquela época, isso vai se perder, porque não tem registro. Ninguém lá fora sabe que isso aconteceu e as revistas de games que estavam em atividade nos anos 90 já não existem mais. As pessoas que trabalhavam naquelas revistas já se aposentaram.

Então é assim: eu, como um cara que viveu aquela época e como um cara que se preocupa com essa coisa da nostalgia e essa coisa da conservação da história, tenho um papel muito importante nisso. Em trazer de volta essas informações e em educar a minha equipe e a mostrar a importância disso.

Mas, realmente a gente sofre com uma falta de bibliografia. É muito memória.

Quem viveu lembra e quem não viveu, não sabe. ”

Pablo Miyazawa, Gustavo Petró e a colunista da IGN, Flávia Gasi. FONTE: GAME BLAST

Pablo Miyazawa, o Editor Gustavo Petró e a colunista da IGN, Flávia Gasi. FONTE: GAME BLAST

A partir de então, adentramos por um interessante diálogo que procurava entender as mudanças na economia brasileira, relacionada ao comércio de eletrônicos no Brasil e um pouco de suas características singulares. Acerca disso, Miyazawa afirma:

“O Atari chegou ao Brasil com bastante atraso, em relação ao mercado mundial e, enquanto o Atari era muito bem vendido no Brasil, a indústria norte-americana de jogos já havia “quebrado”. Hoje você não tem mais isso! Você tem produtos saindo quase simultaneamente no Brasil.

Os preços são altos? Existem muitos impostos? Sim, mas se a gente lembrar o quanto custava para uma família brasileira comprar um videogame novo – é lógico, a gente está numa situação diferente. Era uma situação de hiperinflação constante.

As pessoas enxergam a situação de hoje, de dólar a R$4,00 e ficam falando que é um absurdo, porque elas só têm uma memória recente, ou seja, após 1994, quando “zerou” nossa moeda e passamos a ter uma moeda muito forte, mas esquecem como era antes disso, quando videogame era artigo de luxo. Eu acho que o videogame ainda é um artigo de luxo, mas ele era muito mais inacessível antigamente do que ele é hoje.

Hoje você tem a possibilidade e se precisa muito de um videogame, você consegue comprar ele num magazine e parcelar ele em 10 vezes. É uma coisa que é cara, mas que é possível!

Então, o que a gente tem que colocar em perspectiva é que a gente está em um momento maravilhoso de tudo! De informação, de acesso à tecnologia. No passado é que era difícil. Sempre que eu coloco isso em perspectiva e vejo que realmente estamos num ótimo caminho. E sempre que eu coloco em perspectiva eu falo: – Gente! Vocês não sabem! Vocês que estão reclamando, não sabem o como que era antes!

A rede de departamentos Mappin, foi uma das poucas que ofereciam os games nessa época. Eu mesmo lembro de ser criança e ter ficado dentro dela por horas (!) com meus irmãos, vendo as pessoas jogando Altered Beast

A rede de departamentos Mappin, foi uma das poucas que ofereciam os games nessa época. Eu mesmo lembro de ser criança e ter ficado dentro dela por horas (!) com meus irmãos, vendo as pessoas jogando Altered Beast. Isso lá “pra” década de 1990, em São Bernardo do Campo. Já no fim daquela década, estas e outras grandes lojas, como Mesbla, Jumbo Eletro e Arapuã declararam falência, em função de crises financeiras e processos trabalhistas. Os efeitos da crise na América Latina, após a declaração da moratória mexicana, em 1982, duraram muitos anos. FONTE: UOL

Quando se dedica a falar sobre as possibilidades que se abrem para a economia e cultura da informação com a realização de mais uma edição da Brasil Game Show, Pablo Miyazawa demonstra grande otimismo e segurança num projeto bem organizado, que envolve a criação do IGN NETWORK – uma rede de youtubers que já conta com membros conhecidos como Felipe Neto, Madu Magalhães, Canal do Pit, Rato Borrachudo, dentre outros.

“Não estamos aqui simplesmente para lançar uma marca, tirar dinheiro dos anunciantes e ir embora. Isso aqui é um plano de longuíssimo prazo. Do mesmo jeito que o IGN lá fora tem quase 20 anos, o IGN-Brasil está só começando e vai chegar muito longe.

Porque?

Porque não existe um momento mais propício para um site como o IGN vir para o Brasil! O mercado e o público brasileiro estão mais amadurecidos e (dólar a 4 reais à parte) a situação é maravilhosa!

Você tem um público que entende e que sabe o que quer, então, qualquer tipo de lançamento no Brasil tem substância o bastante para fazer sucesso e as ‘publishers’ olham e decidem lançar o jogo “direitinho” no Brasil porque aqui eu garanto que vendo alguns milhares de cópias.

Então é por isso que o IGN está aqui hoje! Existe uma situação toda que permite-nos estar aqui e torcer para que isso vá durar muito tempo. Então isso aqui, para a gente, é só a consolidação de que estamos certos na aposta da IGN.”

BGS

BGS 2015. FONTE: Portal Cubo

De forma descontraída e bem-humorada chega ao fim nossa entrevista com o Editor-chefe da IGN-Brasil, Pablo Miyazawa, que, junto com uma fantástica equipe de jornalistas de renome, dá sequência ao interessante projeto de estabelecimento desta importante agência de notícias internacional. Desde já, sou muito grato por toda a atenção e pela honra de ter podido conversar com tal personalidade.

Espero que vocês tenham gostado desta conversa!

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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