Você conhece Zygmunt Bauman?

Você conhece Zygmunt Bauman?

Zygmunt Bauman é responsável por introduzir o conceito de MODERNIDADE LÍQUIDA, ao passo que encontramo-nos num constante processo de mudanças seminais e intimamente interconectadas, que estão a propiciar um ambiente completamente novo, no qual as atividades da vida individual enfrentam desafios inéditos. Mudanças advindas, segundo o autor, deste momento de transição dos tempos atuais, onde a civilização abandona sua fase “sólida” para dar lugar à uma nova fase que por ele é definida como “líquida”.

“… a desintegração social é tanto uma condição quanto um resultado da nova técnica do poder, que tem como ferramentas principais o desengajamento e a arte da fuga. Para que o poder tenha liberdade de Fluir, o mundo deve estar licre de cercas, barreiras, fronteiras fortificadas e barricadas. Qualquer rede densa de laços sociais, e em particular uma que estja territorialmente enraizada, é um obstáculo a ser eliminado. Os poderes globais se inclinam a desmantelar tais redes em proveito de sua contínua e crescente invencibilidade. E são esse derrocar, a fragilidade, o quebradiço, o imediato dos laços e redes humanos que permitem que esses poderes operem.” (BAUMAN, Z. Modernidade Líquida, Zahar, 2001, p.21-22)

Tá, o cara é F&¨%$!  Mas o que você sabe sobre ele?

Monumento às vitimas dos campos de trabalho de Poznan, construído durante o 40º aniversãrio do Levante do Gueto de Varsóvia. A memória polonesa está, segundo Bauman, representada segundo uma história do sofrimento, em função das diversas invasões que as populações desta região sofreram durante toda a História.

Monumento às vitimas dos campos de trabalho de Poznan, construído durante o 40º aniversãrio do Levante do Gueto de Varsóvia. A memória polonesa está, segundo Bauman, representada segundo uma história do sofrimento, em função das diversas invasões que as populações desta região sofreram durante toda a História. FONTE: Anthropologu.ua.edu

Filho de judeus não-praticantes, Zygmunt Bauman nasceu em 1927, na cidade de Poznan (Polônia). Aos 12 anos de idade (em 1939) este autor e sua família mudaram-se para a União Soviética em busca de proteção contra a invasão nazista em seu país.  Quando tinha 19 anos decidiu se inscrever no Pierwsza Armia Wojska Polskiego (unidade do exército polonês formada no ano de 1944 em terras soviéticas), onde trabalhou como instrutor de educação política e atuou nas batalhas de Kolberg (atual Kolobrzeg) e Berlim, pela quais foi condecorado em maio 1945 com a Military Cross of Valour.

Cross of Valour (Cruz do Valor) polonesa da década de 1920, que encontrei no site Jkmilitaria.

Cross of Valour (Cruz do Valor) polonesa da década de 1920, que encontrei no site Jkmilitaria.

Em entrevista para a revista The Guardian, Bauman confirmou ter mantido um comitê comunista durante a 2ª G. M. – sobre o qual nunca manteve segredo – da mesma forma que admitiu que entrar para a inteligência do serviço militar, aos 19 anos foi um erro. Entretanto, enquanto servia na KBW (Korpus Bezpieczeństwa Wewnętrznego – Corporação de Segurança Interna), estudou primeiro sociologia na Academia de Ciências Sociais, em Varsóvia. Em seguida, ingressou, no curso de filosofia na Universidade de Varsóvia – o curso de sociologia foi temporariamente cancelado do currículo polonês – onde teve como professores personalidades proeminentes como o propositor de uma sociologia humanística e antinaturalista, Stanislaw  Ossowski (1897 – 1963) e o teórico marxista, Julian Hochfeld (1911 – 1966).

Documento de Bauman, do período em que ele participou

Documento de Bauman, do período em que ele participou da Corporação de Segunrança Interna. FONTE

NA KBW, Bauman chegou à patente de major, quando foi dispensado sem honrarias em 1953, após seu pai ter tentando uma aproximação com a embaixada israelense em Varsóvia, com intenção de emigrar para Israel – fato que não era bem visto entre os soviético, que nutriam uma aversão histórica contra judeus. Entrentanto, este autor não compartia da tendência sionista de seu pai e era, de fato, um anti-sionista. Por este motivo sua dispensa causou um grande, embora temporário, estranhamento com seu pai. Durante o período seguinte, que passou desempregado, completou seu mestrado (M.A.) e, em 1954, se tornou um conferente da Universidade de Varsóvia, onde permaneceu até 1968.

Durante sua estada na London School of Economics, teve como supervisor o cientista político Robert McKenzie, que orientou Bauman a preparar um detalhado estudo sobre o movimento socialista britânico. Esta tese foi publicada em 1959, como parte do primeiro livro deste autor na Polônia, todavia sua tradução revisada só conseguiu chegar à Inglaterra em 1972.

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Bauman, durante o European Culture Congress. Este intelectual, apesar de sua idade mantém um impressionante vigor e lucidez. Foto por Bartosz Trzeskoski. FONTE: BiWeekly.pl

Inicialmente, Bauman permaneceu próximo à doutrina do marxismo ortodoxo, mas sob influência de Antonio Gramsci e Georg Simmel, se tornou cada vez mais crítico sobre o governo comunista polonês, por este motivo nunca conseguiu sua licenciatura – mesmo após ter completado sua “habilitation”. De qualquer forma, após seu professor de graduação Julian Hochfeld tornar-se vice-diretor do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO, em Paris, no ano de 1962, Bauman herdou a  Hochfeld´s chair.

Diante da crescente pressão política e campanha anti-semita, liderada pelo ministro populista Mieczyslaw Moczar, Bauman foi forçado a renunciar ao seu cargo de liderança no Polska Zjednoczona Partia Robotnicza (Polish United Worker´s Party) em janeiro de 1968. Com os eventos de março de 1968, a camapanha anti-semita culminou em uma expulsão em massa de judeus do país; dentre eles muitos intelectuais como Bauman, que perderam suas cadeiras na Universidade de Varsóvia.

Fotografia da década de 1970 de um encontro do Partido dos TRabalhadores Unidos da Polônia, em Bieslko-Biala. As pessoas da foto são desconhecidas.

Fotografia da década de 1970 de um encontro do Partido dos Trabalhadores Unidos da Polônia, em Bieslko-Biala. As pessoas da foto são desconhecidas.

Obrigado a abrir mão de sua nacionalidade polonesa para poder sair do país, Bauman foi primeiro para Israel ensinar na Tel Aviv University, e passou a reconstruir sua carreira no Canadá, EUA e Austrália, até chegar à Grã-Bretanha, onde tornou-se, em 1971, professor titular da University of Leeds, cargo que ocupa há 44 anos. Desde então, ele publicou quase que exclusivamente em inglês (sua terceira língua) e sua reputação cresceu exponencialmente entre o público acadêmico e  comum.

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Zygmunt Bauman. FONTE: Louge.obviousmag.org

Bauman publicou outros livros, incluindo Sicjologia na co dzień (“Sociology for everyday life”, 1964) que alcançou grande popularidade na Polônia e, posteriormente produziu o Thinking Sociologically (1990). De fato, após os anos 90, Bauman exerceu consideravel influência no movimento conhecido como alter-globalization.

Responsável por uma prodigiosa produção intelectual, o marido da escritora Janina Bauman e pai de três mulheres (a pintora Lydia Bauman, a arquiteta Irena Bauman e a professora de matemática Anna Sfard), recebeu os prêmios Amalfi –  1989, por sua obra Modernidade e Holocausto – e Adorno (em 1998, pelo conjunto de sua obra). Atualmente, este autor já conta com 35 livros publicados e é considerado um absoluto fenômeno literário, uma vez que, apesar de suas obras não terem linguagem simples e tratarem de assuntos profundos, este pensador foi capaz de atingir a tiragem de 600.000 cópias vendidas.

Edifício Roger Stevens, na Universidade de Leeds. Este é apenas um dos edifícios que compõem este complexo universitário. FONTE: WIKIMEDIA

Edifício Roger Stevens, na Universidade de Leeds. Este é apenas um dos edifícios que compõem este complexo universitário. FONTE: WIKIMEDIA

Em 2010 o consultor político, graduado pela Universidade de Leeds, Dr. Mark Davis criou o Instituto Bauman com objetivo de desenvolver estudos sobre sociologia do dinheiro, dos mercados e da moralidade, com foco especial sobre as consequências sociais do que define como “consumerism”, ou seja, a ideologia que encoraja a aquisição de bens e serviços em larga escala. Suas obras são publicadas, no Brasil pela Editora Zahar.

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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