“Baú da felicidade” com cartas nunca entregues do Sec. XVII

“Baú da felicidade” com cartas nunca entregues do Sec. XVII

Baú da felicidade de todo historiador: perfeitamente preservado, cheio de cartas intocadas, nunca entregues. Esse é o caso de um baú encontrado na Holanda, onde 2.600 cartas foram descobertas dentro do baú de um carteiro.

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Estas cartas foram escritas e enviadas na França, Espanha e Países Baixos entre 1689 e 1706 e não chegaram a ser entregues por motivos diversos. Seus destinatários não foram encontrados, recusaram a entrega ou por falta de pagamento pelo envio, relata Maev Kennedy, jornalista e pesquisador do jornal The Guardian. Atualmente o “baú de tesouros” encontra-se num museu holandês dedicado à Comunicação, o Hague Museum for Communication.

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A colação inclui cartas de todo tipo de gente: aristocratas, espiões, merchants, editores, atores e músicos, por exemplo. Fonte da imagem: Hague Museum for Communication

Apesar de uma perda para os destinatários, é um verdadeiro ganho para a História.  Por ser uma fonte extraordinária de documentos históricos, o baú é considerado um “achado” sem tamanho, dado o valor de seu conteúdo, em especial para os estudiosos da chamada História Cultural, sobre a vida de pessoas comuns da época.

Uma equipe internacional de pesquisadores (das universidades MIT, Yale University, University of Leiden, University of Groningen, and Oxford Univeristy), por meio do incrível projeto chamado “Escrito, enviado, nunca recebido” mergulha no enorme maço de cartas contidos dentro do baú de couro forrado de linho. Além das cartas, o baú também contém valiosos livros de contabilidade que ajudarão estudiosos compreender melhor as finanças e rotas postais da época. Kennedy explica que há cartas dos mais variados tipos de remetentes:

A coleção inclui cartas de aristocratas, espiões, comerciantes, editores, atores, músicos, camponeses mal alfabetizados e pessoas altamente educadas com bela caligrafia, e são escritos em francês, espanhol, italiano, holandês e latim.

As cartas, por si só, são tão interessantes quanto seu conteúdo, já que são recheadas com dobraduras, desenhos, pinturas e lembrancinhas. E mais: em um comunicado, a equipe de pesquisa explica que identificaram um sistema específico de dobradura das cartas, conhecido como “letterlocking” (trava de cartas, em tradução livre), e apresenta um verdadeiro desafio para os estudiosos pois as cartas não são apenas seladas um tipo de cera específico (que inclusive capturou as impressões digitais de alguns remetentes), mas também foram dobradas para ser seus próprios envelopes.

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Selo em cera utilizada nas cartas que nunca chegaram. Fonte

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Um exemplo das lembrancinhas que costumavam ser enviadas. Este é com o tema do Espírito Santo, simbolizado pela pomba com a frase “Don de pieté” – Dom da piedade Fonte

Por esta razão, há uma nova linha de pesquisa sendo desenvolvida em parceria com Universidades com o intuito de desvendar esses fechamentos/dobraduras tão intrincados. A chefe desta pesquisa é Jana Dambrogio, a curadora das Bibliotecas do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) que foi convidada a se juntar ao time por conta de sua expertise em intervenção mínima e conservação em documentos, bem como em letterlocking. Ela afirma em um artigo para o MIT News que

“A complexidade dos letterlocking encontrados nesse baú é algo nunca visto antes e, sendo o letterlocking uma área de estudos inteiramente nova, este baú nos oferece uma oportunidade incrível de pesquisa“.

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Letterlocking em formato que os pesquisadores tem chamado de “Diamante”. Fonte

Os historiadores não sabem muito sobre o costume popular predominante da época em que foram escritas. Por isso os pesquisadores estão usando raios-X para ler 600 cartas fechadas, sem “agredir” suas dobraduras. Outras cartas previamente abertas estão sendo desdobradas e estudadas, revelando pregas em estilo origami bastante engenhosas. As cartas que foram estudadas até agora apresentam contos de amor, perda, dor e esperança. Muitas foram recusadas ​​pelos seus destinatários, que teriam de pagar pela postagem.

Abaixo, a técnica de Raio-X utilizada na pesquisa, desenvolvida pelo Apocalypto Team, da Queen Mary University of London, quando da pesquisa que realizaram sobre os pergaminhos do Mar Morto :

Em outra versão sobre o achado, um estudioso de Yale cita uma carta escrita em nome de uma cantora de ópera a um comerciante rico:

Escrevo em nome de nossa amiga em comum para dizer que ela percebeu assim que deixou a Companhia de Opera em Haia [Hague] para ir a Paris que tinha cometido um erro terrível. Agora ela precisa de sua ajuda para voltar para Haia [Hague]. Eu poderia dizer-lhe a verdadeira causa de sua dor, mas eu acho que você pode imaginar.

Será que a cantora obteve a ajuda de que ela precisava? Talvez nunca venhamos a descobrir, mas ler sua correspondência que nunca chegou a ser lida, significa que nunca será esquecida…

Via: Revista do Museu Smithsonian e Jornal The Guardian

 

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Bárbara GascóOlá, terráqueos! Sou Bárbara Gascó, conhecida também como Barbrão por minha conhecida habilidade em várias esferas, tipo faz-tudo =) e esposa do Sr. Denis Gascó, PaleoNerd. Sou Arquiteta e Urbanista e atuo na área desde 2012. Paralelamente, escrevo sobre Arquitetura+História e, como única representante do sexo feminino neste navio pirata, pautas acerca de questões sobre Feminismo e Igualdade de gêneros.

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