Sobre revitalização urbana, arte, música e história

Sobre revitalização urbana, arte, música e história

Ontem em Campinas aconteceu a inauguração da primeira parte das obras de Revitalização da Av. Francisco Glicério. Pra quem não conhece, esta é a avenida principal da cidade, bem no centro.

Segundo comunicado no site da Prefeitura de Campinas, a revitalização não tem como único objetivo a melhoria estética do centro da cidade, mas contempla, acima de tudo, a troca de infra-estrutura antiga e de constante manutenção como a de água (as tubulações anteriores já tinham mais de 100 anos e apresentava rachaduras e considerável desperdício de água) e de energia elétrica, a qual passou a contemplar a partir da revitalização fiação subterrânea.

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Mas vamos ao que interessa: para comemorar a inauguração das obras, com o apoio da CPFL Cultura, aconteceu a apresentação de um dos maiores (se não o maior) músicos do Brasil, João Carlos Martins – pianista e regente junto à Camerata Bachiana, num show que vem rodando o Brasil cuja a proposta é aproximar a música clássica da população em geral, especialmente das comunidades mais carentes. Segundo as palavras do próprio maestro, que tem uma história de amor à música marcada pela adversidade: “…a música tem o poder de mudar vidas e unir as pessoas!” E é verdade.

A inauguração que aconteceu no Largo do Rosário (ponto histórico da cidade),  contou também com a presença do Vídeo Guerrilha, coletivo de intervenção urbana através da projeção de vídeo-arte que atua principalmente na cidade de São Paulo. O Vídeo Guerrilha procura estimular, através das projeções, o diálogo entre arte, arquitetura e urbanismo, projetando em grandes formatos, obras de diferentes linguagens e autores, transformando áreas centrais das cidades em uma galeria de arte ao ar livre e aberta ao público.

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É hipnotizante ver as fachadas mudarem de cor e forma e é incrível a sensação “de deixar-se levar” por essas imagens. A impressão que se tem, ao ver as fachadas históricas iluminadas com arte, é de que a cidade tem vida e nos faz refletir sobre as inúmeras possibilidades das edificações – em comunicar, receber, se revitalizar, como um “imóvel mutante” através de uma intervenção inofensiva como é a projeção. Muito bacana mesmo. Pra quem quiser conhecer mais sobre os projetos, participar das chamadas públicas e acompanhar as próximas intervenções do Vídeo Guerrilha, é só acompanhar a página no Facebook.

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Um pouco Sobre a história e o urbanismo do centro de Campinas

Rua do Rosário x Av. Francisco Glicério
Segundo o site da Prefeitura de Campinas, até 1889 a avenida Francisco Glicério chamava-se Rua do Rosário por passar na frente da Igreja com o mesmo nome. Em 1889 passou a ter o nome de Avenida Francisco Glicério em homenagem ao político campineiro que contribuiu para a implantação da República no Brasil.

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Quem foi esse cara?

Francisco Glicério de Cerqueira Leite nasceu em Campinas, no dia 15 de agosto de 1846, e morreu no Rio de Janeiro em 12 de abril de 1916. Formado em Direito, foi um importante personagem no processo da instituição da República no Brasil, em 1889. Foi ministro da Agricultura em 1890 e 1891 e senador por São Paulo de 1902 a 1916. Seu corpo está enterrado no Cemitério da Saudade, em Campinas.

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Curiosamente encontramos esta imagem de Francisco Glicério datada do início de 1900 que, segundo fontes pesquisadas, estaria num momento de “lazer” justamente no Largo do Rosário engraxando seus sapatos – por um negro, obviamente ¬¬. Fonte

O Largo do Rosário 

Poooorrr falar no Largo do Rosário, sua história e curiosidades: segundo Cleusa Aparecida da Silva, representante da Casa de Laudelina em entrevista para CBN, (Laudelina de Campos Melo, que foi ativista negra, fundadora do primeiro sindicato das domésticas de Campinas em 1936), era proibido negros e negras circularem pelo Largo. Laudelina, na década de 50 e 60, segundo seus depoimentos, marcava piqueniques com as empregadas domésticas no local. Uma afronta, na época!

Esses espaços que eram proibidos para os negros e negras, {…} ela fazia questão de ocupar!

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Imagem de Laudelina de Campos Mello no Baile Perola Negra, organizado por ela. Fonte

Inclusive, agora em novembro foi lançado um livro “Etnicidade, Gênero e Educação: História de Vida de D. Laudelina de Campos Mello” e um documentário “Laudelina: Lutas e Conquistas”,  sobre a vida e luta de Laudelina produzidos pelo Museu da Cidade e o Museu da Imagem e do Som (MIS), da Secretaria Municipal de Cultura. Vale a pena conferir! 😉

Como o próprio nome indica, o Largo em questão recebe este nome por conta da Igreja do Rosário, situada logo em frente. O local também é chamado de Praça Visconde de Indaiatuba por conta de sua proximidade com o Solar do Visconde de Indaiatuba, ainda existente, tombado desde 1988 pela CONDEPACC, onde hoje encontra-se o 7º Cartório.

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Solar do Visconde de Indaiatuba tombado em 1988. Apesar de ter sofrido um incêndio em 1994 que deteriorou seu interior, sua frachada foi mantida e conservada e hoje acolhe as funções do 7º Cartório de Campinas. Fonte

Em razão de um alargamento da Avenida Francisco Glicério na década de 1950, a Igreja do Rosário foi demolida em 1956 apesar dos protestos gerados na época.

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Demolição da Igreja do Rosário, em 1956. Autor amador. Fonte

Vestígios arqueológicos na praça

Durante as escavações realizadas em razão das obras de revitalização da Avenida, foram encontrados vestígios históricos no local. Primeiramente, foram encontrados ossos. Sim, muito provavelmente ossos humanos! Alguns dias depois, foram localizadas as fundações da antiga Igreja do Rosário demolida.

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Fotos dos restos mortais encontrados nas escavações. Fonte

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Imagem dos elementos estruturais das fundações da antiga igreja do Rosário demolida em 1956. Fonte

Não é de se surpreender, já que a grande maioria dos cemitérios antigamente localizavam-se “à sombra” das igrejas. Segundo uma reportagem, a historiadora e coordenadora da Coordenadoria do Patrimônio Cultural de Campinas, Daisy Ribeiro, afirma que há grandes chances do material ser humano devido ao cemitério que funcionou na área até que uma legislação criada no auge da epidemia de febre amarela o desativasse.

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A doença atingiu a cidade seis vezes em dez anos a partir de 1889 e reduziu o número de habitantes de 15 mil para 5 mil. Ainda de acordo com a reportagem, os ossos retirados dos cemitérios desativados na época foram relocados no Cemitério da Saudade, hoje também tombado por ter abrigado os restos mortais dos antigos cemitérios centrais da época da febre amarela.

Os restos mortais encontrados foram devidamente cadastrados, catalogados e estão sob os cuidados da Coordenadoria do Patrimônio Cultural. Depois de análise laboratorial deverão seguir para algum museu.

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About the Author

Bárbara GascóOlá, terráqueos! Sou Bárbara Gascó, conhecida também como Barbrão por minha conhecida habilidade em várias esferas, tipo faz-tudo =) e esposa do Sr. Denis Gascó, PaleoNerd. Sou Arquiteta e Urbanista e atuo na área desde 2012. Paralelamente, escrevo sobre Arquitetura+História e, como única representante do sexo feminino neste navio pirata, pautas acerca de questões sobre Feminismo e Igualdade de gêneros.

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