Na minha bunda não! – A Revolta da Vacina

Na minha bunda não! – A Revolta da Vacina

Todo mundo sente, ou já sentiu, uma certa angústia naquele instante em que a enfermeira direciona a nós a agulha de uma seringa. Você sabe, né?! Aquele instante que é certamente seguido por uma picadinha e vem acompanhada pela involuntária contração dos glúteos máximos. Algo que os pais conhecem muito bem, já que as crianças costumam criar um verdadeiro escândalo em situações como esta.

Pois bem, agora, você acredita se eu te disser que no início do século XX, o Rio de Janeiro foi tomado por uma revolta popular violenta que foi deflagrada (“óia” que palavra chic) por causa de uma campanha de vacinação do governo carioca?

O fim do século XIX e início do XX é um período que ficou marcado pela ideia de exaltação da modernidade que acompanhava o grande desenvolvimento tecnológico nas mais diversas áreas. Em meio a isso, cada vez mais as elites brasileiras se tornavam adeptas de uma ideologia específica chamada POSITIVISMO e que não tem nada a ver com ver o lado positivo das coisas! Você já vai entender o porquê.

Esta corrente filosófica foi desenvolvida por Auguste Comte na França defendia que somente por meio do conhecimento científico é que a humanidade poderia atingir o progresso, já que esta seria a única forma de um conhecimento verdadeiro. No Brasil, tais ideias tiveram enorme aceitação pela elite e membros do exército – tanto que podemos ver o típico ideal positivista “ordem e progresso” presente na nossa bandeira até os dias de hoje.

Esta é uma imagem que encontrei quando visitei a Biblioteca Real no Rio de Janeiro e revela um pouco sobre as condições sanitárias desta cidade, em fins do século XIX.

Esta é uma imagem que encontrei quando visitei a Biblioteca Real no Rio de Janeiro e revela um pouco sobre as condições sanitárias desta cidade, em fins do século XIX. Além disso, podemos ver as influências da belle epoque sobre as elites brasileiras da época.

Sob influência destas ideias, após ter conhecido as práticas públicas de reordenamento urbanístico em viagem à Paris que, na época foi referência neste aspecto devido à reforma urbanística aplicada pelo prefeito do distrito de Sena de Paris, Barão de Haussmann, ~carinhosamente~ apelidado de “artista demolidor”, o então prefeito do Rio de Janeiro Pereira Passos recebeu o apoio do presidente Rodrigues Alves para reunir uma verdadeira força-tarefa com objetivo de realizar uma completa reforma urbanística nesta cidade portuária, que era afinal, nada mais, nada menos que a Capital do país. Por este motivo nomeou o médico Oswaldo Cruz diretor do Serviço de Saúde Pública e o incumbiu de realizar o que definiam como “melhorias sanitaristas”, realizadas entre 1903 e 1906.

Propaganda da época que revela o medo dos turi

Viagem ao Rio era definitivamente uma aventura. Se voltasse vivo, já estav no lucro! uhauhauha Fonte: Revista Espaço Acadêmico – nº 166 – março/2015.

Neste sentido, teve início a realização de uma prática conhecida pelos arquitetos e urbanistas como política do “bota-abaixo”, que envolvia a demolição de antigos casarões e cortiços do centro velho da cidade para a construção de largas avenidas (a principal delas foi a Rio Branco) e prédios novos. Além disso, foi realizada a reestruturação dos sistemas de água e esgoto de algumas partes da cidade, assim como foi iniciada uma verdadeira guerra contra doenças como a febre amarela, a malária e varíola.

Jornal da época que denuncia a prática do bota-abaixo. Atente para o detalhe abeixo, que fala sobre a proibição de cuspir nos bondes. Fonte: feminismosemdemagogia

Jornal da época que denuncia a prática do bota-abaixo. Atente para o detalhe abeixo, que fala sobre a proibição de cuspir nos bondes. Fonte: feminismosemdemagogia

Desta forma, milhares de pessoas começaram a ser expulsas de suas moradias sem que estes realizadores se preocupassem com a relocação destas famílias humildes, as quais eram forçadas a subir as encostas dos morros. Fato que, gerava uma insatisfação popular cada vez maior com as práticas públicas e é entendido como o início das grandes favelas que existem no Rio de Janeiro. Em meio a toda esta tensão, Oswaldo Cruz decidiu dar início a uma campanha de vacinação contra a varíola no ano de 1904.

 Você deve estar se perguntando, mas qual é o problema em uma campanha de vacinação?

Acontece que havia poucos anos que Pasteur havia desenvolvido a primeira vacina da história (existem historiadores e biólogos que questionam se Pasteur teria realmente sido o primeiro o realizador de tal descoberta, mas isso fica para uma outra hora) e nem mesmo os intelectuais entendiam muito bem como funcionava essa “bagaça”. Algo que deu espaço para a formulação de diversos boatos que reforçavam a descrença da população na eficiência desta técnica e levantava a questão sobre o Estado ter direito, ou não, de impor a vacina às pessoas. Além disso, um governo que nunca mostrou estar preocupado com a população pobre levantava a desconfiança entre as pessoas, que começaram a inventar boatos como de que a vacina seria aplicada na virilha. Tudo isso era largamente veiculado por meio de panfletos e jornais que circulavam pelo país e definiam as medidas sanitaristas como o “Código de Torturas” de Oswaldo Cruz.

Outro agravante dessa situação residia no fato de as autoridades terem estabelecido uma data para a vacinação, mas não tiveram a menor preocupação em explicar para a população o que era a vacina ou como ela funcionava. Por esta razão, no dia marcado para a vacinação ninguém apareceu para colocar o bumbum na reta das agulhas do governo e como reação a isso as autoridades determinaram que a vacinação era OBRIGATÓRIA, ou seja, o documento de vacinação era exigido em matrículas de escolas, admsissão de empregos públicos, casamentos, viagens, etc. E tinha outra coisa também: quem se negasse a ser vacinado iria para a cadeia! Aí lascou tudo!

Gravura que representa as barricadas montadas pelos populares. FONTE:

Gravura que representa as barricadas montadas pelos populares. FONTE: Cadernos da Comunicação – Série Memória – Prefeitura do Rio de Janeiro

O povo montou barricadas nas ruas e arrancaram os trilhos dos bondes, a galera da capoeira usou dos “paranauê” para enfrentar os policiais. Os membros da Escola Militar, que eram contra o prefeito Pereira Passos, aderiram aos protestos e passaram a exigir a renúncia do presidente Rodrigues Alves, incentivados por grupos da elite. Assim, cerca de 3000 revoltosos criaram um cenário de caos entre os dias 10 e 18 de novembro de 1904

A novela Lado a Lado, da Globo, chegou a realizar uma reencenação da Revolta da Vacina. Eu tb nao sabia disso. FONTE: educação.globo.com

A novela Lado a Lado, da Globo, chegou a realizar uma reencenação da Revolta da Vacina. Eu tb nao sabia disso. FONTE: educação.globo.com

A repressão não demorou a chegar e o Exército deu início a um verdadeiro massacre na cidade do Rio de Janeiro, que resultou em cerca de 30 mortos, 110 feridos, 1000 detidos e 460 de pessoas que foram deportadas. Outros 334 presos, acusados de “reincidência na vagabundagem” foram levados de barco para morrer nas matas da Amazônia. De qualquer forma, a obrigatoriedade da vacinação foi revogada.

Agora, você pode me perguntar: “Poxa PaleoNerd, tudo isso por causa de uma simples vacina?”

É claro que não!

A vacinação foi apenas o estopim para que o povo se levantasse contra um governo que estava a realizar a sistemática expulsão da população pobre (que sempre foi a maioria na cidade) sem oferecer nenhum tipo de explicação ou auxílio para a massa de desalojados que se formou naquele lugar. Além disso, é importante lembrar que a revolta foi incentivada por membros da sociedade que estavam insatisfeitos com o governo federal, que não contemplava seus interesses políticos e econômicos. Portanto, a Revolta da Vacina era parte de um complexo processo histórico e, acima de tudo, demonstrou às elites que a população brasileira não estava disposta a aceitar de maneira pacífica toda e qualquer medida realizada por seus governantes.

Jornal que aponta a adesão de membros da Escola Militar a esta revolta.

Jornal que aponta a adesão de membros da Escola Militar a esta revolta. FONTE: Cadernos da Comunicação – Série Memória – Prefeitura do Rio de Janeiro

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PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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