Paleotrip: A Biblioteca Nacional

Paleotrip: A Biblioteca Nacional

Como já falei há algum tempo, estas férias foram aproveitadas para realizar uma viagem pelo Rio de Janeiro e para um historiador, é impossível ir até a cidade maravilhosa sem dar uma passada com calma pelo maior acervo de obras escritas do país. Neste artigo, vou contar um pouco mais sobre como foi a visita que fizemos à Biblioteca Nacional.

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Fotografia: Denis Gascó 2016

Ao chegarmos, demos de cara com o prédio todo envolto por uma série de andaimes, que indicavam o processo de reforma a ser realizado no espaço. De qualquer forma, a primeira coisa que chama a atenção ao passar pela Biblioteca Nacional é a imponência deste enorme edifício, cuja construção contou com itens de luxo importados como bronze da Inglaterra nas maçanetas e fechaduras e caixas de energia folheadas a ouro trazidas da Alemanha. Aliás, este foi uma das primeiras construções no Brasil em que instalações elétricas foram previstas desde o projeto.

De seu interior é possível notar com mais detalhes os maravilhosos vitrais franceses que adornam as enormes janelas construídas para oferecer luminosidade natural da luz do dia, uma vez que a energia elétrica, apesar de presente no edifício, era muito cara naquele período. Todos estes materiais ganham ainda maior destaque, quando contrapostos ao mármore branco de Carrara que decoram o interior deste monumental edifício, erigido na primeira década do século XX.

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Fotografia: Denis Gascó 2016

Para nossa sorte, tivemos a felicidade de conseguir nos inscrever na visita guiada pela biblioteca, que foi realizada com auxílio da simpática turismóloga Natália, que começou o passeio pela sala “Referências e Periódicos”, a qual conta com dicionários em mais de 40 idiomas e cerca de 9.000 títulos microfilmados (isso quer dizer que existem mais de 30 milhões de páginas que foram copiadas e armazenadas em rolos de filmes parecidos com os de cinema) que ficam disponíveis para pesquisa à todos que forem até a biblioteca. Entretanto, para acessar documentos produzidos antes de 1945 você precisará escrever uma justificativa.

Já na sala “Iconografia” é possível encontrar fotos da cidade do Rio de Janeiro, projetos arquitetônicos originais e até mesmo fotos do último baile do império, cuja data foi antecipada pela iminente queda do Império. Tudo isso está intercalado com mobílias feitas em aço inoxidável, que foram importadas da Inglaterra.

Detalhe da porta de entrada da Biblioteca Nacional, produzida em bronze.

Detalhe da porta de entrada da Biblioteca Nacional, produzida em bronze. Fotografia: Denis Gascó 2016

Para acessar os documentos desta sala você precisará escrever uma justificativa que explique seu interesse, além de passar por uma entrevista com um bibliotecário!

E se você estiver se perguntando por que motivo é preciso isso tudo, lembre-se que este acervo conta com obras que remontam ao século XV, como a coleção pessoal que pertenceu à imperatriz Tereza Maria Cristina. Como apenas 20% destas obras foi digitalizado, é necessário ter muito cuidado com quem toca nestes antigos livros mas, é possível acessar grande parte do acervo geral da Biblioteca através da internet, em seu acervo virtual.

Natália demonstra uma obra em microfilme.

Natália demonstra uma obra em microfilme. Fotografia: Denis Gascó 2016

A sala “Publicações e Referências Seriadas”, por sua vez, tem um valor histórico especial por ter abrigado o 1º Curso de Biblioteconomia da América Latina, que foi ministrado por figuras célebres como Manuel Bandeira e Cecília Meireles. Além disso, este lugar conta com o documento considerado o mais importante da biblioteca; um fac-símile (do latim fac simele, que quer dizer faz igual, é uma cópia bem detalhada do original) da Bíblia de Gutemberg.

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Fotografia: Denis Gascó 2016

Neste lugar fica, também o “Evangeliae Grecae”, um livro escrito em grego arcaico e datado de 1060 que, é considerado o documento mais antigo da biblioteca e foi doado por um mineiro em 1912 à instituição. Ademais, o acervo conta com milhares de fotos que pertenceram à D. Pedro II e foram cedidas à Biblioteca Nacional pela família, após a morte do antigo imperador. Uma curiosidade:  você sabia que D. Pedro II foi pioneiro na fotografia no Brasil? Ele trouxe a tecnologia da Europa e um de seus hobbies era fotografar! Por isso esta coleção conta com centenas de itens e seu valor é inestimável.

Em seguida, fomos para a sala “Obras Gerais e informação documental” que oferece outros milhares de exemplares bibliográficos, dentre os quais 700 títulos são escritos em braile (escrita tátil, utilizada pelos deficientes visuais). Contudo, seu acervo não fica exposto ao leitor, assim, simplesmente. O usuário da biblioteca deve realizar a pesquisa pelos títulos do acervo por meio de computador ou pelo antigo catálogo de fichas, onde escolhe o compêndio que tem interesse em consultar. Após entregar seu pedido, um bibliotecário busca o material no local indicado, que é enviado ao leitor por meio de um elevador. E, caso você tenha interesse em saber, os três assuntos mais procurados são concursos, História do Brasil e livros de auto-ajuda.

Saguão de entrada da Biblioteca Nacional

Saguão de entrada da Biblioteca Nacional. Fotografia: Denis Gascó 2016

Dentre as diversas mesas que são  utilizadas pelos leitores, a mesa de número 4 tem uma história bem especial, já que era o “xodó” do escritor Carlos Drumond de Andrade que, como frequentador assíduo da biblioteca, fazia questão de sentar sempre na mesma mesa! Mas não fique todo animadinho ai, achando que vai chegar lá e sentar na mesa! Você não pode escolher a mesa em que irá sentar, já que é o atendente quem determina a mesa na qual o leitor deve se sentar, de acordo com a sequência de espaços que são liberados. A Natália nos contou que há relatos de funcionários da Biblioteca contemporâneos de Drummond de que ele dava altos chiliques caso “sua” mesa 4 não estivesse disponível… huahuhuahua

Ao terminarmos nossa volta pelas salas do andar térreo, Natália nos levou a subir pela luxuosa escadaria central que, ao fim de seu primeiro lance mantém uma estátua de D. João que foi esculpida em mármore de Carrara, segundo encomenda do rei. Segundo ela é daí que vem a expressão popular erroneamente usada “cuspido e escarrado” quando se faz referência a algo ou alguém muito parecido. Na verdade a forma correta da expressão é “esculpido em Carrara”.

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A Biblioteca Nacional foi fundada em 1808, por D. João VI mas, como dito acima, este edifício só foi construído no início do século XX. Aqui vemos seu busto esculpido em mármore de Carrara. Este tipo de escultura funcionava como um “photoshop” naquela época, fato que influenciou a expressão popular “esculpido em carrara”. Fotografia: Denis Gascó 2016

Já no 2º andar da Biblioteca Nacional, nos deparamos com quatro bustos que foram importados de Portugal que representam o idealizador do projeto e prefeito do Rio de Janeiro, um dos primeiros diretores do prédio, Rui Barbosa (que teve seu corpo velado no saguão da biblioteca) e José Bonifácio, que é considerado o primeiro bibliotecário do Brasil. Outra curiosidade do prédio: é interessante notar que, com objetivo de manter o aspecto de simetria entre os dois lados do prédio, foram introduzidas portas falsas, ou seja, que estão lá apesar de não levarem a lugar nenhum! =p

De qualquer forma, neste andar é possível encontrar a sala “Intercâmbio e depósito legal”, que leva o nome da lei criada pelo Estado e determina que toda publicação realizada no Brasil deve ter uma cópia enviada para a Biblioteca Nacional. SABIA DESSA?! O.o Além disso, neste lugar é conferida a numeração de ISBN, necessária à todo tipo de publicação seriada que busca devido reconhecimento legal, no país. Neste lugar se encontram 6 andares de estantes de aço e 17 Km de estantes originais, as quais guardam cerca de 2 milhões de livros – dentre os quais podemos encontrar a primeira edição de Dom Casmurro!

Porém existem ainda milhares de livros que ainda não foram catalogados, devido a enorme quantidade de obras que sobrecarregam os funcionários. São tantos livros que há alguns anos os bibliotecários “descobriram” uma obra desconhecida do importante poeta Lima Barreto, chamada “Os portugueses na África”, com data de publicação de 1907 que estava “perdida” pela Bibioteca!

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Esta é uma maquete do anexo da biblioteca, cuja construção está prevista para ser realizada na região do Cais do Porto, na cidade do Rio de Janeiro. Fotografia: Denis Gascó 2016

Na sala “Manuscritos”, encontramos os documentos mais antigos, dentre os quais recibos de compra e venda de escravos, bilhetes e até mesmo documentos que estão relacionados ao Tratado de Tordesilhas. É neste lugar que se encontra a famosa condenação de Joaquim José da Silva Xavier (mais conhecido pela alcunha Tiradentes), além de outros 3 milhões de periódicos e documentos cartográficos.

Por fim, chegamos à sala “Obras Raras”, que é considerada a mais bela de todo o prédio e tem seu acervo organizado segundo o formato e qualidade dos documentos. Lá é possível encontrar edições do primeiro jornal brasileiro, o Correiro Braziliense (que era impresso em Londres já que aqui era proibida a existência de imprensas), a primeira partitura escrita por Vila Lobos e o documento de catequese de Ancheita. Este espaço costuma abrigar exposições temporárias e, durante nossa visita, tivemos a grande alegria de admirar uma exposição com obras de Dante Alighieri.

Gravura de Dante Alighieri, que estava em exposição. Note a coroa de louros em sua cabeça, que é uma antiga forma de homenagear a importância da pessoa.

Gravura de Dante Alighieri, que estava em exposição. Note a coroa de louros em sua cabeça, que é uma antiga forma de homenagear a importância da pessoa para a história e cultura. Fotografia: Denis Gascó 2016

Assim chegamos ao fim de nossa visita por este imponente edifício, cuja arquitetura apresenta o predomínio de características ecléticas (mistura de vários estilos arquitetônicos, predominantemente Neoclássico e Art Nouveau), que conta com 34 Km de estantes, pelas quais estão distribuídas 9 milhões de obras. O prédio ainda conta com outros andares, cujo acesso só é permitido aos funcionários e pessoas com autorização especial.

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Detalhe inferior da porta de entrada da biblioteca, feita em aço, que revela a imagem de um leão, sempre associada à grandiosidade e coragem. Fotografia: Denis Gascó 2016

Visitar a Biblioteca Nacional nos permitiu ter uma visão muito próxima sobre o processo de manutenção do acervo cultural brasileiro, ao mesmo tempo que nos fez refletir bastante sobre as dificuldades que seus curadores enfrentam com restrições de verba que atravancam a manutenção de importantes espaços culturais como este edifício que, além do mais, é importante parte do processo de construção da identidade nacional de nosso país. Por este motivo, devemos dar maior atenção e cuidado à estes espaços que são verdadeiros guardiões da memória e da História brasileiras.

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About the Author

PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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