O Ódio Cordial Brasileiro

 O Ódio Cordial Brasileiro

No meio de tantas declarações passionais que tenho visto pela nossa fabulosa internet (que começa a fazer jus à nossa fama de “HUEHUEBRBR”) decidi retomar um importante vídeo de uma palestra realizada pelo historiador Leandro Karnal na CPFL Cultural, em dezembro de 2011. Isto porque essa polarização política, incentivada pela mídia brasileira, começa a descambar para um discurso cada vez mais carregado de ÓDIO e desprovido de uma racionalidade.

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A coisa já “tá” na lógica do “meu time é demais e se você não concorda comigo, eu vou te encher de porrada”… meio hooligans, entende? Cheguei ao meu limite quando comecei a ver até mesmo vídeos de adultos incentivando crianças a manifestarem um discurso de ódio e violência contra os seus opositores políticos. Portanto, senta o bumbum na cadeira, porque eu quero mostrar para você umas ideias que podem te ajudar a entender melhor de onde vêm tanta animosidade entre as pessoas.

Se você não está “ligado” sobre quem é o Karnal, digo a você que esse cara é doutor em História Social e um membro da UNICAMP em Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa (RDIDP). Além disso, este intelectual participa do Jornal Cultura como convidado para debater notícias, faz parte corpo editorial de revistas especializadas em história e já publicou diversos livros que tratam do ensino de História, religião e cultura latino-americana. Seu último livro “A Detração: breve ensaio sobre o mal dizer” acabou de sair do forno e pode ser comprado pelo site da Livraria Cultura. Em resumo, esse cara é F%¨$!

Fonte da imagem: Editora Contexto

Fonte da imagem: Editora Contexto

Pois bem, naquele ano de 2011, o filósofo e professor da Unicamp Luiz Felipe Pondé ficou encarregado de organizar uma série de três palestras para a CPFL Cultural, cujo tema foi por ele definido como Razões do Ódio”, destinadas a oferecer um panorama mais abrangente sobre este assunto. e, para oferecer uma perspectiva ampla acerca do ódio na historia brasileira, Pondé convidou Karnal para presidir esta palestra.

Uma vez que dei essa contextualizada sobre a realização do vídeo e sobre o palestrante, agora eu posso contar um pouco sobre como foi a apresentação do Leandro Karnal, assim como a forma pela qual seu conteúdo pode ser relacionado com toda esta bagunça que estamos vivendo hoje.

Com um humor perspicaz (“óia” só que palavra bonita! Você pode guardar ela para usar na redação do vestibular, tá?!), este autor buscou oferecer um entendimento mais aprofundado sobre a questão do ódio, a partir de interpretações realizadas por historiadores brasileiros considerados fundamentais para entender a realidade deste nosso país: Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire e Caio Prado Jr.

Da esquerda para a direita podemos ver três intelectuais que tiveram um importante papel no desenvolvimento da perspectiva historiográfica brasileira: Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Gilberto Freire. Fontes: ClickRBS, Memorial da Democracia e NaçãoMestiça

Da esquerda para a direita podemos ver três intelectuais que tiveram um importante papel no desenvolvimento da perspectiva historiográfica brasileira: Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Gilberto Freire. Fontes: ClickRBS, Memorial da Democracia e NaçãoMestiça

Ao falar sobre estes autores, Karnal chama atenção para um conceito definido pelo historiador Sergio Buarque de Holanda no 5º capítulo de seu livro, “Raízes do Brasil”, quando afirmou que nós, brasileiros, éramos “homens cordiais”. Uma perspectiva que foi duramente criticada por alguns intelectuais ainda contemporâneos de Holanda, os quais acusaram de sugerir uma mentalidade de submissão, ao definir os brasileiros a partir de uma hospitalidade gratuita. Além disso, estes críticos afirmavam que nosso povo jamais seria capaz de realizar demonstrações de violência. #SQN

“…nosso ódio também é cordial…”

Entretanto, é muito importante compreendermos que, ao falar sobre esta cordialidade, Holanda tinha a intenção de retomar a origem latina da palavra cordes – que significa coração. Isto porque, a grande “sacada” de Sérgio Buarque de Holanda estava no fato de entender que nós, brasileiros, agimos com o coração, ou seja, de maneira passional; fato se aplica, inclusive, quando odiamos.

Para entender melhor esta ideia, nosso querido professor Xavier (ops!), quero dizer, Leandro Karnal, indica que é preciso compreender melhor o período histórico da publicação dessa obra, durante a década de 1930. Isto porque, este é um período que costumamos denominar Entre Guerras (1918-1939) quando a crise econômica do pós-1929 terminou por agravar a polarização dos discursos de uma esquerda radical e da direita ultra-conservadora na Europa. Por isto, esta situação ser entendida como uma das condições fundamentais para a ocorrência da Segunda Guerra Mundial. Um processo que o autor de Raízes do Brasil viu de perto, uma vez que estava na Alemanha nesta época.

O Período Entre Guerras foi marcado pela a ocorrência de diversos atos de violência por toda Europa. Nestas imagens podemos ver os resultados do que ficou conhecido como a Noite dos Cristais, quando a população foi incentivada pelo governo nazista a atacar grupos judeus e incendiar sinagogas.

O Período Entre Guerras foi marcado pela a ocorrência de diversos atos de violência por toda Europa. Nestas imagens podemos ver os resultados do que ficou conhecido como a Noite dos Cristais, quando a população foi incentivada pelo governo nazista a atacar grupos judeus e incendiar sinagogas.

Portanto, o que precisamos entender é que a manifestação de ódio está presente em todos os lugares do planeta, e o Brasil não fica de fora disso. E para reforçar esta afirmação, Karnal lança mão de diversos exemplo de nossa história que demonstram nossa impressionante capacidade de expressar este ódio.  Seja na violência utilizada na execução de Zumbi dos Palmares, no massacre que marcou a repressão de Canudos ou mesmo na decapitação do bando de Lampião, cujas cabeças ficaram expostas por muitos anos, até que fossem enterradas.

Além disso, este intelectual cita que nossa historiografia por muito tempo (e talvez ainda hoje) se recusou a utilizar a expressão GUERRA CIVIL, como forma de amenizar a gravidade de eventos violentos de nossa história. Algo que Karnal deixa bem claro, quando usa os exemplos da Farroupilha, Cabanagem, Sabinada, Balaiada e Revolução Constitucionalista de 1932 para afirmar que negamos a aceitar que somos violentos e divididos pelo ódio. Para isso, preferimos utilizar “expressões eufemísticas”, ou seja, sinônimos que buscam suavizar o peso destes momentos históricos. Mais que isso, NÓS TENDEMOS A PROJETAR A VIOLÊNCIA APENAS NO OUTRO.

A degola do bando de Lampão é, segundo Karnal, um exemplo da violência da qual somos capazes, movidos por este ódio cordial que carregamos dentro de nós.

A degola do bando de Lampão é, segundo Karnal, um exemplo da violência da qual somos capazes, movidos por este ódio cordial que carregamos dentro de nós.

Um aspecto, que segundo Karnal que exemplifica esta nossa tendência em projetar a violência nos outros é o caso das pessoas que vivem em São Paulo acreditarem que o Rio de Janeiro é um lugar violento. Isto porque, para nós a violência só tem sentido no outro, ou seja, é vista por nós como algo impossível de ser encontrado entre os que nos são próximos.

“…nós vivemos ‘agitações’, nunca Guerra Civil…”

Com isso, este autor explica esta nossa surpresa diante da violência com auxílio do termo ESPANTO – já que, na Antiguidade este termo foi cunhado pelo filósofo Aristóteles para definir uma situação de crise interna, que nos leva a questionar nossas crenças mais enraizadas. Karnal indica que costumamos acreditar que somos pessoas cujas atitudes seriam dotadas de bom senso e, neste sentido, todos que nos sãos externos seriam pessoas desprovidas de sensatez. Um raciocínio que desenvolvemos na tentativa de explicar o motivo pelo qual os outros seriam violentos e que reforçam a ideia de que o ódio e a violência são coisa que não existem em nós e nem nos nossos parentes e amigos.

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Além disso, o ódio pode ser também interpretado como um fator capaz de conferir identidade, uma vez que está presente em todos os aspectos de nossa sociedade. Fato que só ganha sentido se levarmos em consideração o falocentrismo que marca a sociedade brasileira. Se você não “está ligado”, uma mentalidade falocêntrica é caracterizada pela ideia de que o masculino seria superior ao feminino. Neste sentido, o masculino e a violência são interpretados como sedutores sinônimos de força, enquanto a abertura para o diálogo é associada ao feminino e interpretada como um sinal de fraqueza.

Assim, o discurso e a narrativa pacíficos passam a representar, segundo Karnal, uma “contra-identidade” e, enquanto isso, a mídia reforça outro sórdido aspecto de nossa sociedade que reside busca por heróis capazes de representarem esta nossa mentalidade violenta e falocentrica. Como exemplo disso, basta acessar o youtube e procurar os vídeos de Bolsonaro, Feliciano e Malafaia para dar de cara com pessoas que buscam personificar este tipo de discurso de ódio.

Este é um trecho da série documental “Out There”, de Steven Fry. Durante este capítulo ele entrevista o político Jair Bolsonaro e se revela surpreso com a naturalidade com a qual este homem expressa um discurso de ódio:

Além disso, Karnal afirma que durante o século XX, quando a decadência das utopias socialistas foi acompanhada pelo abandono da ideia de construir um mundo melhor, se pôde notar a ascensão de um ódio pequeno burguês que ganhou enorme espaço na forma da inveja, ou seja, a tristeza pela felicidade alheia. Desta maneira, é o desejo por bens de consumo o motivador de enorme parte dos atos de violência que marcam nossa contemporaneidade, enquanto as ocorrências dos ditos crimes famélicos (realizados num ato desesperado de uma pessoa tomada pela fome) diminuíram.

A música “Subirusdoistiozin”, do rapper Criolo é um som que trabalha exatamente com esta questão, apontada por Karnal:

Podemos, portanto, concluir que nosso ódio é resultado de uma construção histórica, marcada por tensões que rementem ao período colonial e que estão diretamente vinculadas com a violência. Um ódio carregado de paixão que só tem sentido para o indivíduo, quando projetado no outro (a alteridade), já que recusamos a aceitar que nós (ou pessoas próximas a nós) seriam capazes de odiar e agir de forma violenta.

Fundamentos que rementem ao mito do Brasil como um país pacífico e demonstram um ponto de vista conservador, uma vez que tal proposta foi de fundamental importância para a manutenção da ordem e que sempre foi estimulada pelas elites latifundiárias do nosso país.

A obra “A Primeira Missa no Brasil”, de Victor Meirelles (1860) é um típico exemplo de uso da religião para a construção de um discurso conservador, que sugere a sociedade como resultado de uma construção pacífica e linear.

A obra “A Primeira Missa no Brasil”, de Victor Meirelles (1860) é um típico exemplo de uso da religião para a construção de um discurso conservador, que sugere a sociedade como resultado de uma construção pacífica e linear.

De qualquer maneira, este sentimento se revela um catalizador de papel fundamental no processo de constituição da identidade de grupos que associam sua moral à formas de pensar violentas. Algo que ganha ainda maior força ao ser relacionada com esta busca constante que realizamos por um herói. Um comportamento que precisa ser abandonado e substituído pela meta de sermos capazes de lidar (e respeitar) com o que nos é diferente pois, como fica claro no poema de Clarice Lispector, citado no vídeo: “eu sou o outro”

Por este motivo, quando você se meter numa discussão pela rua ou facebook, procure lembrar-se de que todo esse ódio que você sente no seu coraçãozinho é parte de um longo processo de construção histórica que termina por prejudicar a nossa comunidade. E que, acima de tudo, você tem poder para DESCONSTRUIR isso e participar no processo de elaboração de um novo “modus operandi”, tencionado a valorizar mais a vida em sociedade.

Abaixo você pode ver o vídeo da palestra apresentada por Karnal na integra:

 Frases do autor durante a palestra:

 “Uma das características do pensamento crítico é ter destacado sempre a profunda violência da existência humana e do pensamento conservador foi ter destacado a linearidade pacificadora desta sociedade construída desta forma”.

“…temos uma resistência à ideia de violência…”

“Na verdade o ódio, como bem perceberam os nazistas…é o elemento mais fácil para unir um grupo.

“Cria-se um paradoxo: ‘O ódio é feio – assumi-lo é um horror. Acusar alguém de estourado ou iracundo[…]é acusar alguém de ser desequilibrado […] Mas, com frequência, entendemos que a violência e o ódio estão ao lado. Na torcida do outro […] Somos sempre um monumento pétreo ao equilíbrio.’”

“É PRECISO UMA MUDANÇA TOTAL”

“A medida que estas utopias diminuíram … pequenos ódios cotidianos afloraram com uma força inédita.”

“O inferno são os outros porque também o paraíso está nos outros.”

“Acho de fato que estamos diante de uma revolução da informação – para o bem e para o mal. Esta revolução da informação tem que transformar, em primeiro lugar a escola, que continua ensinando como no século XIII”

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About the Author

PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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