Você conhece a Era Meiji?

Você conhece a Era Meiji?

Sempre que falo sobre os efeitos da Segunda Revolução Industrial no Japão, a primeira coisa da qual me lembro é do anime Samurai X. Isto porque toda a história de Kenshin Himura e seus companheiros são personagens que lutam pela legitimidade de um processo de transição política, econômica e cultural que estava a ser realizado pelo Estado neste pequeno país. Por este motivo, os heróis do anime são forçados a enfrentar grupos rebeldes que buscam, por meio da instabilidade social, tentar tomar o poder à força.

E toda vez que estou a descrever esta situação, sempre tem um aluno que lembra do famoso filme com o Tom Cruise, “O Último dos Samurais”, que conta a história de um norte-americano que no Japão irá encontrar formas de lidar com os demônios internos que assolam sua alma despedaçada, traumatizada pelas atrocidade da guerra. Isso sem nem contarmos as obras clássicas do diretor japones Akira Kurosawa, que muitas vezes apresentam perspectivas sobre este processo que marcou a transição do Japão feudal para o processo de industrialização, típico da segunda metade do século XIX, por todo o mundo.

Samurai X conta a história do ronin Kenshin Himura que, durante o período das guerras de unificação do país foi um assassino que ficou conhecido como Battousai, o retalhador. Entretanto, a série acompanha a intensa busca por uma nova vida para este personagem, que cada vez mais se encontra cercado por um grupo de amigos que se revelam inseparáveis. Fonte: DevianArt

Samurai X conta a história do ronin Kenshin Himura que, durante o período das guerras de unificação do país foi um assassino que ficou conhecido como Battousai, o retalhador. Entretanto, a série acompanha a intensa busca por uma nova vida para este personagem, que cada vez mais se encontra cercado por um grupo de amigos que se revelam inseparáveis. Fonte: DevianArt

Mas a pergunta é: COMO FOI O PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO JAPONÊS, AFINAL?

Os primeiros contatos entre japoneses e ocidentais, na verdade, remetem ao século XVI. Neste momento o Japão se encontrava dividido em guerras entre senhores feudais, chamados “daimiôs”, sendo Oda Nobunaga (1534-1582) o senhor de maior autoridade, que conseguiu submeter mais de 30 províncias ao seu poder. No início deste século, chegavam no Ocidente, as primeiras informações sobre a existência de um arquipélago, descritas pelo viajante Marco Polo.

Os primeiros contatos entre ocidentais e japoneses, teria ocorrido por volta de 1540 com a chegada de um grupo de portugueses sobreviventes de uma tempestade na ilha de Tanegashima – extremo sul do Japão. Desta maneira, os primeiros rifles foram introduzidos na cultura japonesa, fato que é considerado um real divisor de águas para aquele país, que se encontrava dividido por um guerra civil.

gosukun

Na esquerda podemos ver uma GUSOKU (armadura) no estilo Nanban, do século XVI, que está no complexo de templos xintoísta Nikkō Tōshō-gū. Este complexo é parte reconhecida do patrimônio mundial e conta com o apoio da UNESCO. Já na segunda imagem, podemos ver uma ilustração que demonstra as divisões de uma gusoku, também do século XVI. Fontes: Printerest e Printerest

Após décadas de conflitos, a virada do século XVII foi marcada pela asensão de um novo “xogum”, chamado Tokugawa Ashikaga, que passou a centralizar o poder e pôs fim aos últimos focos de resistência de seu governo com a Batalha de Sekigahara – neste momento nasceria a maior lenda do bushido (“o caminho do guerreiro”) no Japão. Shimen Takezo que, posteriormente, ficaria conhecido como Myamoto Musashi foi um personagem conhecido por suas habilidades no kenjutsu (“técnica da espada”) e sua história foi transformada num dos mais conhecidos romances históricos do país e do ocidente.

De qualquer forma, após alguns anos de contatos comerciais, os japoneses, ao perceberem os interesses conquistadores de seus visitantes e logo passaram a hostilizar qualquer ocidental que viesse a aportar na região. Além disso, perseguiram os focos de adeptos do cristianismo – algo que também aparece na série do Samurai X!

Baseado no que costumamos chamar de uma “política de isolamento”, o governo nipônico procurou desenvolver novas técnicas de cultivo, mineração e pesca, fato que possibilitou o desenvolvimento econômico e demográfico (isso quer dizer população, cabeçudo!) do país. Este fato favoreceu a formação de zonas urbanas prósperas no arquipélago, que se manteve desta maneira por dois séculos.

Antiga pintura em aquarela (importante técnica de arte japonesa) que representa a personalidade de Myamoto Musashi. Fonte: HamonyBudo

Antiga pintura em aquarela (importante técnica de arte japonesa) que representa a personalidade de Myamoto Musashi. Fonte: HamonyBudo

Foi no ano de 1853 que o Comodoro norte-americano  Mathew Perry adentrou na baía de Edo (atual Tókio) com mais quatro navios e ordenou o disparo de 22 tiros de canhões – isso não foi um ataque direto, mas sim um alerta para o poder bélico que a esquadra carregava consigo. Desta forma, os ocidentais desembarcaram no Japão, munidos de uma carta escrita e assinada pelo então presidente norte-americano Millard Fillmore, que “solicitava” a abertura dos portos japoneses para os EUA.

Sob tamanha pressão, o governo japonês reabriu seus portos, determinado a nunca aceitar o controle imperialista dos ocidentais, todavia, em 1868  um golpe de estado realizado por cinco clãs levou os japoneses darem início ao processo construção de um Estado Burguês, que ficou conhecido como a Revolução Meiji. A partir deste momento, houve a centralização do poder e um completo processo de reconfiguração da educação, que procurou se pautar nos moldes capitalistas.

Commodore_Matthew_Calbraith_Perry

O Comodoro Matthew C. Perry, na época da invasão à baía de Edo já contava com enorme experiência em batalhas pela marinha norte-americana. Além disso esse cara é considerado responsável por ter ajudado a desenvolver um sistema de aprendizado que foi transformado no currículo da Academia Naval dos Estados Unidos. Perry também foi um ferrenho defensor da modernização de toda a marinha norte-americana e é considerado The Father of the Steam Navy (pai da marinha à vapor). Fonte: Wikimedia

Para tanto, universitários foram enviados para a Europa com o objetivo de obter conhecimentos que, posteriormente, deveriam ser aplicados na organização deste novo Estado, cuja economia passou a ser pautada no desenvolvimento industrial. Além do mais, foi estabelecido o fim da classe dos samurais, com objetivo de dar lugar à um exército pautado no modelo ocidental – algo que é trabalhado, de maneira superficial, no filme “O Último dos Samurais”. Neste momento, muitos samurais se tornaram andarilhos, que receberam a denominação de “ronins” e sofriam perseguição das autoridades.

Apesar da oferta de um salário para os samurais dispensados, a enorme desonra que simbolizava este evento, associada à proibição do uso de espadas nas ruas levou estes guerreiros a se unirem numa revolta em 1877, na qual 30.000 samurais enfrentaram o exército japonês durante 6 meses e terminaram derrotados. Com seu poder fortalecido o Estado japonês seguiu a lógica imperialista da época e realizou uma completa reviravolta a respeito de como manter sua política externa.

28F969DF00000578-3092617-image-a-34_1432296568513

Fotografia de grupo de samurais, com provável colorização artesanal, que era bem comum na época. Percebam que estes jovens olham orgulhosos para a câmera, algo que sugere a busca em representar a coragem, um importante princípio dos samurais. O documento é parte do acervo da Galeria Verdeau & London Photograph Fair e foi publicada pelo DailyMail

A partir de então, decidiu dar início a uma série de invasões, que tiveram início com a invasão da China, onde o exército japonês obteve o controle sobre a ilha de Formosa e parte da Manchúria, ao nordeste do país. Posteriormente, no início do século XX, invadiram a Coréia, onde estabeleceram um governo cujo controle tomou por base a violência e o terror. Além disso, este país de pequenas proporções se meteu numa guerra contra a Rússia czarista e, em 1905, obteve um tratado de rendição desta gigante potência.

Por estes motivos, o Japão pode ser entendido como um caso bem especial no processo do neocolonialismo do século XIX, uma vez que foi capaz de contornar a condição que lhe fora estabelecida pelos norte-americanos e, por fim, se transformar numa potência do início do século XX. Entretanto, é fundamental ter em mente que será este interesse imperialista que, na década de 30 terminaria por levar este país a realizar uma associação com a Itália fascista e Alemanha nazista, na formação do grupo que recebeu a denominação de Eixo. Algo que seria finalizado com o trágico evento dos ataques nucleares à Hiroshima e Nagazaki, em agosto de 1945.

 

COMENTÁRIOS

Desembuche aqui:

Share this:

About the Author

PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

View all posts by PaleoNerd

Leave a Reply