A cúpula do Parlamento Alemão – Memória e significado

A cúpula do Parlamento Alemão – Memória e significado

As cidades como conhecemos hoje são formadas por inúmeras marcas deixadas pelas gerações que por elas passaram, viveram e morreram. Digamos que o território “absorve” as características relacionadas ao cotidiano daquele lugar, algumas benéficas como as relacionadas aos implementos em infra-estrutura, outras trágicas como por exemplo cidades europeias que foram alvo de ataques durante das duas Grandes Guerras que tiveram áreas completamente destruídas. A cidade conta por si só sua História.

A questão da memória das cidades é um debate bastante frequente na área da Arquitetura. Ao mesmo tempo em que não queremos guardar uma lembrança triste, é preciso muitas vezes que ela permaneça, mesmo que ressignificada, de maneira que possa servir como lembrete para as futuras gerações, como é o caso do edifício do Parlamento Alemão, o Reichstag.

O edifício do Parlamento Alemão tem uma história bastante atribulada, marcada por tragédias e sucessivas reconstruções. Foi encomendado pelo Kaiser Guilherme I em 1884, cuja conclusão da construção ocorreu apenas em 1894. O imperador sucessor Guilherme II detestou o resultado final do prédio, em especial sua cúpula que jugava ser de extremo mau-gosto e chegou até mesmo a apelidar o edifício como “Casa de macacos imperial”! A aceitação levou tanto tempo que este passou a ser de fato sede do Parlamento apenas em 1916.

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Gravura do Reichstag em Berlim em seu estado original – entre 1984 e 1905 – Imagem colorida por meio de Photochrom. Disponível em Library of Congress.

Die grosse Verfassungsfeier der Reichsregierung am 11. August 1932 in Berlin ! Blick von der Siegessäule auf den flaggengeschmückten Platz vor dem Reichstag während der Verfassungsfeier.

Fotografia de 11 de agosto de 1932 – antes do grande incêndio. Image © Bundesarchiv, Bild 102-13744, licensed under CC BY-SA 3.0 via Commons

Em 1933, o prédio foi acometido por um incêndio, hoje avaliado como criminoso, que causou danos consideráveis. Alguns anos mais tarde, foi alvo frequente das duas Grandes Guerras, que levaram-no à ruínas. Assim fica difícil, né? =/

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Imagem aérea do Reichstag destruído durante a Segunda Guerra, em 1945. Fonte

Apesar de uma reconstrução parcial realizada entre 1961 e 1971 com projeto de Paul Baumgarten, o local pedia por uma nova reestruturação depois da queda do Muro de Berlim, ocasião em que Foster foi convidado a realizar o projeto para a reabertura do Parlamento da Alemanha reunificada, numa proposta de projeto chamada de Retrofit. Neste caso, mais que um símbolo para a cidade, o Reichstag, passaria a ser o símbolo de uma “nova” nação.

Para esta missão, o governo alemão convidou Norman Foster, um arquiteto britânico mundialmente requisitado por seu estilo inovador, marcado pela aplicação de materiais e soluções altamente tecnológicas, sempre levando em conta a questão ambiental. Sua arquitetura é tão marcante que geralmente suas edificações tornam-se pontos turísticos das cidades em que atua, de tão curiosas e envolventes.

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Foster em seu escritório | Alguns de seus trabalhos que se tornaram icônicos

Sir Foster (sim, ele é um Sir condecorado pela coroa britânica) apresentou ao Governo alemão um projeto grandioso, de ampliação e renovação do Parlamento compatível com a tecnologia dos novos tempos, com uma cobertura de dimensões gigantescas altamente tecnológica que “abraçava” toda a edificação como um grande guarda-chuva, como se protegesse todo o local.

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Imagem da vista do projeto original de Foster, que foi declinada por conta do alto custo de execução. Imagem extraída do documentário “A arquitetura de Norman Foster”, 2014.

Contudo, o governo alemão declinou seu projeto devido ao alto custo de execução. Isso significa que nem o Norman Foster está isento de ter de refazer um projeto! hahahahaha Imagina só, nós, meros mortais! “olha, eu gostei, mas dá pra mudar isso? E isso? E isso, isso, isso aqui….” ¬¬ #ôvida

E como se não bastasse a questão dos custos, o governo alemão solicitou nessa revisão que Foster recriasse uma referência simbólica à cúpula que foi destruída durante a guerra. Aí que o bicho pegou e Sir Foster ficou puto! Em um documentário, ele relembrou que fez o seguinte comentário sobre esta reviravolta no escopo do projeto na época:

Nem pensar que eu vou fazer parte da recriação de um símbolo do passado de um imperador, de um símbolo do autoritarismo! De onde o Kaiser convocava o Parlamento quando bem entendia…

Contudo, ao reavaliar a questão, chegou a uma solução que atuaria não apenas simbolicamente, mas em colaboração com o conforto térmico do local, permitindo melhor aproveitamento da luz solar, reforçando a ideia de transparência no sentido metafórico.

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Seção (corte) do projeto de requalificação realizado por Foster na década de 90. Fonte ArchDaily.

Além das questões técnicas, a nova cúpula permite uma experiência única aos seus visitantes já que enquanto caminham pelas rampas em espiral existentes, podem acompanhar as atividades das sessões do parlamento, abaixo de seus pés.

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Vista a partir da rampa. Ao redor da cúpula de fechamento do recinto de sessões há uma exposição permanente que conta a história do prédio. Fonte

Desta maneira, o arquiteto ressignificou a cúpula com maestria, afastando de vez o símbolo do Imperialismo e afirmando que desta vez é o povo que está no topo, no comando. As obras foram finalizadas em 1999, quando o edifício do Reichstag passa a ser novamente a sede do parlamento alemão.

Muito além disso, o prédio ainda guarda outras marcas deixadas pelo passado, como mensagens deixadas por soldados russos, durante ocupadção da Alemanha Oriental. Norman fez questão de mantê-las, como memória da História recente da Alemanha.

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Mensagens do passado recente da Alemanha dividida. Imagem disponível em ArchDaily.

A partir do caso do Reichstag é possível refletir sobre a importância da memória em nossa sociedade e como ela pode estar representada fisicamente através das edificações, por meio de projetos sensíveis, inteligentes e condizentes com nosso tempo. É importante entender, valorizar e dar nova vida a um prédio cheio de marcas.

Você já parou para pensar o que seria de nossas cidades se cada geração “apagasse” as cicatrizes da História? Especialmente no Brasil, um país ainda jovem, sedento de uma busca por “ser grande” e enterrar seu passado colonial isto ocorre bastante, infelizmente. Contudo, prefiro acreditar que estamos ainda aprendendo a dialogar como nosso passado e presente.

Você conhece alguma construção de relevância histórica que esteja abandonado? Ou que simplesmente foi demolido? O que você gostaria que fizessem com este lugar ao invés de ser simplesmente relegado ao tempo?

Espero que tenham gostado! Até mais 😉

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About the Author

Bárbara GascóOlá, terráqueos! Sou Bárbara Gascó, conhecida também como Barbrão por minha conhecida habilidade em várias esferas, tipo faz-tudo =) e esposa do Sr. Denis Gascó, PaleoNerd. Sou Arquiteta e Urbanista e atuo na área desde 2012. Paralelamente, escrevo sobre Arquitetura+História e, como única representante do sexo feminino neste navio pirata, pautas acerca de questões sobre Feminismo e Igualdade de gêneros.

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