Biblioclastia, censura e alienação

Biblioclastia, censura e alienação

Em períodos históricos diversos, líderes por todo mundo conferiram maior ou menor reconhecimento aos meios de acúmulo ou produção da informação e conhecimento, desenvolvendo  práticas como a  biblioclastia, que consiste na destruição sistemática do conhecimento que foi organizado por determinados grupos da sociedade. Como veremos, este processo de destruição resulta parte de um ato político dos novos governos, que procuram acabar com a memória associada ao seu anterior e a criação de uma nova história para o seu Estado. A censura e a alienação também configuram como estratégias de controle, para legitimação e manutenção dos governantes. Um pouco de História nos ajuda a pensar melhor sobre isso.

Dentre os homens e os animais, além da anatomia óbvia e do “telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor” como dizia Jorge Furtado em seu curta-metragem “Ilha das Flores”, podemos nos diferenciar dos segundos pela cultura. Pode ser que alguns animais tenham algum tipo de cultura, mas não é isso o que quero discutir. Vamos nos ater somente na cultura humana e na sua disseminação. Antes de criar os primeiros suportes da informação e do conhecimento, o ser humano já fazia a transferência de suas experiências através da oralidade. A memória humana como repositório cultural nos trouxe avanços tecnológicos desde as culturas ancestrais.

Com o desenvolvimento da escrita e com o registro dos mais diversos tipos de informações, a historicidade passou a ter um papel maior na humanidade e todo tipo de traço cultural pode ser mais facilmente registrado. Avançando um pouco no tempo surgem as primeiras bibliotecas que cumprem a função de repositórios do conhecimento humano acumulado e organizado. Seja de placas de argila cozidas, ripas de madeira, rolos de papiro, pergaminhos, códices até a invenção do tipo móvel de Gutenberg, a transmissão do saber deu passos gigantescos.

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“Um ácido e divertido retrato da mecânica da sociedade de consumo. Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta escancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho.” FONTE: Porta-Curtas

No século III a.C. durante a dinastia Qin cujo governo unificou a China, o primeiro imperador Qin Shi Huang Di, buscava inaugurar uma nova era e destruir vestígios do Período dos Estados Combatentes, fase turbulenta marcada pelas guerras e disputas entre reinos e seus senhores. Para tanto, foi implacável com os livros, promovendo uma queima com o objetivo de destruir toda história, filosofia e literatura que precederam a sua dinastia. Os escritos, que eram feitos sobre ripas de madeira (ou bambu) antes da invenção do papel foram queimados e os sábios seguidores das ideias instituídas por Confúcio foram enterrados vivos! Contudo, apesar de tudo isso, a erudição não desapareceu na China, mas passou a ser controlada pelo Estado para celebrar o poder do imperador chinês.

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Fengshu kengru é o conceito que define a queima dos livros e 460 intelectuais que foram enterrados vivos pelo exército do imperador chinês Qin Shi Huang Di, em 212 a.C. FONTE: Sheng-Nong

Do século XVI em diante, durante a conquista do México, a biblioclastia foi praticada pelos conquistadores espanhóis que, ao perceberem a importância dos registros escritos para os sacerdotes e nobreza asteca, decidiram eliminar todos os documentos, na tentativa de evitar a circulação de ideias que se colocassem contra a dominação destes “colonizadores”. Contudo, além do motivo cultural, temos aqui claramente o religioso, uma vez que qualquer posicionamento que não estivesse alinhado com os dogmas da Igreja seria considerado HEREGE. Portanto, podemos perceber que a colonização não é só física, mas visa também as mentes e os corações dos conquistados.

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Frades franciscanos queimam livros tradicionais e roupas. As imagens incendiadas representam a destruição dos velhos deuses. Meteram fogo na cultura asteca! Fonte: University of Glasgow

Ainda na Idade Moderna, temos a reativação do Tribunal do Santo Ofício e a criação do Index Librorum Prohibitorum¸ documento que continha uma lista de livros proibidos. Para a Santa Igreja Católica pensar diferente era ser herege e tanto o pensador como os seus livros deveriam ser obliterados pelas chamas que, segundo a lógica medieval, terminaria por expurgar os pecados ali existentes. Galileu Galilei foi condenado e abjurou sua teoria conforme a vontade da Igreja. Giordano Bruno defendeu suas ideias até o fim e morreu queimado vivo pelas fogueiras da Santa Inquisição.

Sob a luz do século XX, os livros tiveram como seu algoz a Alemanha hitlerista, que em entre 10 de maio e 21 de junho de 1933 promoveu a Bücherverbrennung (queima de livros) em praças públicas com a presença da polícia, bombeiros e outras autoridades, na qual milhares de livros – de autores como Bertold Brecht, Sigmund Freud, Albert Einstein, Karl Marx só para citar alguns – considerados fora dos padrões nazistas foram empilhados e incendiados. O Terceiro Reich chegou a criar um ministério da propaganda para que a mensagem do partido fosse disseminada através dos livros, teatro, rádio, cinema,  material pedagógico e imprensa. Influenciando a opinião pública e reprimindo opositores, Hitler garantiu a aquisição e manutenção do poder, e pode por em prática todas as suas ambições catastróficas.

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Queima de livros realizada na Praça da Ópera, em Berlim. Que se F*#@ a cultura judaica! Heil Hitler!!! #SQN Fonte: Wikipédia

No mundo contemporâneo, o rádio, o cinema e a televisão têm cada vez mais espaço na formação cultural das pessoas, sendo usado como máquina de doutrinação. Um Brasil com um histórico de 400 anos de analfabetismo passa da oralidade para os novos veículos midiáticos com um público em sua grande maioria iletrado. Os novos meios de comunicação em massa têm moldado opiniões principalmente por intermédio da imprensa. Opiniões essas que, apesar de se pretenderem imparciais, definitivamente não são neutras e sem objetivos. Isto devido ao controle realizado pelos grandes conglomerados da mídia que, cientes de sua influência, dão as cartas sobre como devem ser interpretados os fatos e, infelizmente, quase sempre ganham este jogo. As Oligarquias dão forma as almas.

Entretanto, quando a mídia não é esta alinhada com os donos do poder, surge a censura. Desde o stalinismo ou regimes de extrema direita, assim como a ditadura militar no Brasil, os líderes davam extrema importância para o conteúdo veiculado. Durante a ditadura e principalmente depois do Ato Institucional nº 5, não só os livros, mas também peças de teatro, novelas e principalmente canções eram silenciados pela ordem vigente. Mesmo assim, vários artistas brasileiros fazendo uso de duplo sentido e trocadilhos em suas canções, conseguiram enganar os censores a serviço dos militares, que procuravam barrar qualquer indício de ideia contra o sistema, a moral e a civilidade. Já ouviu falar da disciplina escolar educação moral e cívica?

O Brasil é o país do “dibre”! Apesar da forte censura alguns artistas como Raul Seixas ("Dentadura Postiça", "Rockixe") e Chico Buarque (“Cálice”, “Apesar de Você”), conseguiram momentaneamente driblar o regime ditatorial através de metáforas em suas músicas. Fonte das imagens: Wikipédia

O Brasil é o país do “dibre”! Apesar da forte censura alguns artistas como Raul Seixas (“Dentadura Postiça”, “Rockixe”) e Chico Buarque (“Cálice”, “Apesar de Você”), conseguiram momentaneamente driblar o regime ditatorial através de metáforas em suas músicas.
Fonte das imagens: Wikipédia

Com o advento da internet e a era da informação, o leitor pode seguir o seu próprio caminho, escolher o que quer ler, buscar o conhecimento que deseja, se associar com os seus pares ideológicos, produzir e compartilhar ideias com velocidade e praticidade. Mas aí é que mora o perigo, já que informação por si só não é conhecimento!

Se o que for apreendido em todo esse universo digital não for devidamente processado e filtrado, você se transforma em um dicionário repleto de informações desconexas. Nada que a prática reflexiva de leitura e estudos não resolva. Ler não é somente nos livros, ele é apenas um suporte, outros canais de informação devem ser consultados, como filmes, séries, documentários, animações, jornais, revistas, etc. Mas o livro oferece algo mais do que saudosismo encadernado ou um misoneísmo tecnológico, ou seja, uma forma de aversão a estes novos suportes de informação..

O fundamental é que você controla a velocidade da leitura, as pausas, as retomadas e o ritmo do texto. Grifos, anotações e correlações são feitas ao seu tempo. No livro, você prova, degusta, mastiga e digere o texto de forma mais reflexiva, de uma maneira que não ocorre em outras mídias. Deixar a preguiça de lado, não ficar só na manchete, textos curtos ou sair correndo de medo quando vê um “textão” e virar um “alienadão”.

O Golpé militar estabelecido no Chile em 1973 foi acompanhado de violenta perseguição aos opositores do regime e da sistemática queima de todo tipo de material que fosse por eles considerado subversivo. FONTE: Wikimedia

O Golpe militar estabelecido no Chile em 1973 foi acompanhado de violenta perseguição aos opositores do regime e da sistemática queima de todo tipo de material que fosse por eles considerado subversivo. FONTE: Wikimedia

Nos mundos distópicos da literatura, seja “Fahrenheit 451”, “1984” ou em “Admirável Mundo Novo”, os livros são ignorados respectivamente pela queima, censura ou excesso de informação. Se Hoje não temos nem queima nem censura (pelo menos por enquanto), mas com certeza temos o excesso e a superficialidade da informação. Fico feliz ao ver amigos antenados e ligados, comentando e debatendo política entre outros assuntos de seu interesse, mas ao mesmo tempo lamento ao ver uma grande maioria alienada, graças aos maiores veículos de comunicação da atualidade, como a TV e a internet, que muitas vezes presta um desserviço aos seus consumidores ávidos e assíduos com conteúdos mercadológicos e idiotizantes.

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Comparação entre as obras de George Orwell e Aldous Huxley. Fonte: BaconFrito

Se o conselho fosse bom, eu não distribuía gratuitamente. Eu o patentiava, capitalizava, privatizava. Mas não é o caso. Então vá ler um livro, assistir uma aula, trocar ideia com os seus iguais e com os diferentes também, de preferência pessoalmente. Faz bem para alma, ao menos para minha.

Agora me dá licença que eu vou “ler” para relaxar…

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About the Author

Hernan Cortês

Professor de História formado com Licenciatura plena em História pela Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009, atua na rede pública de ensino estadual. Entusiasta a game designer, sempre disposto a aprender e ensinar.

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