Por que ler os clássicos?

Por que ler os clássicos?

Sempre quando vamos estudar Grécia e Roma Antiga ouvimos o termo “Antiguidade Clássica” e ouvimos que a arte, a arquitetura, literatura, lendas e toda uma cultura, em geral, que representa essas duas civilizações antigas são clássicas. Mas você já se perguntou o que realmente significa ser clássico?

Pra mim clássico é um bom confronto entre Corinthians x São Paulo, um ótimo game como Street Fighter 2 para Super Nintendo, ouvir Racionais Mc’s ou mesmo um excelente filme como o Poderoso Chefão, coisas que teoricamente não tem nenhuma relação a Roma ou Grécia Antiga.

Mas o que define um clássico, então?

Na verdade, “Por que ler os clássicos” é o título de um ensaio póstumo (isso quer dizer que foi publicado depois que ele morreu) de um escritor italiano chamado Italo Calvino publicado em 1991, que proprõe definições sobre o conceito de clássico. Segundo Calvino clássico é “[…]aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”.

Italo Calvino Fonte: Volcanostatale.it

Italo Calvino Fonte: Volcanostatale.it

Partindo dessa afirmação podemos entender que a nossa definição de clássico não cabe para os estudos históricos e que muitas vezes só irá nos confundir, mas então de onde surgiu a ideia de que há algumas criações da nossa cultura que resistem ao tempo? Foi justamente durante o período da Antiguidade Clássica – paradoxal, não?

Os romanos apreciavam a poesia de Homero, as peças trágicas de Sófocles, entre diversas outras obras de arte gregas e eles também acreditavam serem os herdeiros da cultura helênica e, por este motivo, as criações dos gregos tinham um valor universal para eles. Neste sentido, como fazemos parte da sociedade ocidental, a influência dessas duas sociedades (grega e romana) são enormes em nossa atualidade e podem ser notadas na política, arquitetura, linguagem, alimentação, assim como nas artes plásticas e teatro. Por esta razão, compreender melhor a Antiguidade Clássica significa compreender melhor esse mundo ocidental do qual nós fazermos parte.

Quem nunca ouviu falar de democracia – palavra de origem grega: demo = povo e kratos= poder? Além disso, não tem como não citar as monumentais colunas gregas, utilizadas nos grandes templos, ou os arcos utilizados nos aquedutos romanos, assim como o nosso português que foi baseado no latim vulgar falado durante o império romano.

Nossa sociedade sempre está fazendo referências diretas e indiretas à Antiguidade Clássica, mesmo que em nosso dia-a-dia nós não percebamos. Como exemplo disso, basta lembrar da Odisseia, segundo poema de provável autoria de Homero que conta a saga de Ulisses – Odisseu em grego – que retornava ao seu reino depois de terminada a Guerra de Troia. Uma história muito conhecida e, infelizmente, pouco lida.

Odisséia, de Homero. Publicada em Londres, no século XVIII. Fonte: Biblioteca da Universidade de Michigan

Odisséia, de Homero. Publicada em Londres, no século XVIII. Fonte: Biblioteca da Universidade de Michigan

Agora, e se eu disser que a maioria dos filmes de aventura utilizam o mesmo tipo de narrativa que foi desenvolvida por Homero nos dias de hoje, depois de mais de 2800 anos? Pois é…

De qualquer forma, eu ainda não respondi para você o, afinal, determina uma obra como um clássico e sequer havia mencionado que, além das obras da antiguidade, existem livros, músicas e filmes contemporâneos que são, por muitos, considerados também clássicos. O mesmo acontece com obras de arte, como La Gioconda (mais conhecida como Monalisa), que foi produzida durante a Renascença e também pode ser considerada clássica.

Afinal, por que essas obras são consideradas clássicas?

Segundo Calvino, existem três aspectos fundamentais que determinam uma obra clássica. São eles:

1 – A obra tem que resistir ao tempo, esse é um dos pontos principais.

2 – A obra precisa ter uma qualidade técnica ou algo inovador que confira a essa obra um status de reconhecimento.

3 – Muitas vezes são obras de caráter universal.

“Pérai”, o primeiro e o segundo ponto estão OK, mas e esse terceiro aí? Como assim caráter universal? Para explicar essa ideia, nada melhor do que usar um exemplo: você já ouviu falar de Dom Casmurro, um dos principais livros de um dos maiores escritores brasileiros – Machado de Assis.

dom-casmurro

Representação de Bentinho e Capitu. Fonte: DomCasmurro.com.br

É uma história que se passa no Rio de Janeiro e fala do longo relacionamento de Bentinho e Capitu, porém o que parece ser um romance típico de época se torna uma história totalmente envolvente, pois só podemos observar a narrativa pela visão de Bentinho, que começa a desconfiar da fidelidade de sua esposa (e amor de infância) após se impressionar com o luto feito por Capitu após a morte de seu melhor amigo Escobar. Uma narrativa que fica ainda mais tensa quando seu filho nasce e a criança não parece carregar características do pai.

Desta forma, esta história que parece ser simples e até provinciana, termina por tratar de temas como amor, ciúme, ódio e traição. Sentimentos que qualquer pessoa na face da terra pode experimentar e entender e, por este motivo, esta pode ser considerada uma obra de caráter universal. Isso quer dizer que uma pessoa do outro lado do mundo consegue ler o livro e se identificar com os temas e sentimentos expostos ali mesmo sem saber quem foi Machado de Assis, ou mesmo onde fica o Rio de Janeiro.

“Tcharam!” Assim ficou mais fácil entender?!

Não?

¬¬ …Ok… vamos, então, para outro exemplo.

Já ouviu falar em Beethoven? Se você acha que não, então escuta “aí” esse som:

Música For Alise

Pô, essa é a musiquinha do gás!!!! A musiquinha do despertador!!! Isso é Beethoven?

Claro que sim, e olha só como você conhecia a referência de uma música clássica em ambos os sentidos e não sabia. A música foi composta em 1810 para uma provável pretendente que deixou Beethoven na mão e se casou com outro. Quem imaginaria que essa música fosse usada para coisas tão banais quanto o jingle de um carro de gás, mas é aí que lembramos da definição de Calvino “[…]mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”.

A nossa sociedade atual está permeada (“óia aí” uma palavra boa para se usar em redação!) por referências aos clássicos e nós não sabemos. Porém, tendo a oportunidade de estudar as várias matérias que envolvem o campo de humanas, podemos nos conectar com as fontes dessas referências e sentir o prazer de desfrutar desses bens culturais que atravessaram anos até chegar em nossa atualidade.

A ainda tem idiota que fala que cultura não serve pra nada ou “é coisa de vagabundo”…

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About the Author

PaleoNerdMe chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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