Vila Maria Zélia – História viva

Vila Maria Zélia – História viva

Conheci a Vila Maria Zélia quase que por acaso. A convite de uma amiga de longa data para assistirmos a uma peça que se passa no fim do Século XIX, sobre a política higienista chamada Hygiene – se quiser entender melhor o contexto retratado, da uma lida nesse texto nosso sobre a Revolta da Vacina. Ela, também arquiteta e cenógrafa, sabendo do meu gosto por história fez o convite citando que a peça é ambientada numa Vila Operária tombada pelo CONDEPHAAT e topei na hora. Para mais informações sobre a peça, clique aqui. Recomendo fortemente à qualquer pessoa a ter a experiência de assistir, é incrível!

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Um dos armazéns da Vila Maria Zelia, localizado em frente à entrada da Vila.

A tarde de “volta ao tempo” na companhia de amigos foi uma ótima oportunidade de avaliar a relevância que a arquitetura e o urbanismo tem na vida das cidades. Com isso, me fez refletir sobre a maneira que construímos e consumimos o espaço hoje poderá influenciar a vida de toda uma comunidade ao longo de muitos anos e por isso temos a responsabilidade de cuidar do hoje e preservar o ontem.

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Chegando à vila nos deparamos com um “cenário” surpreendente: apesar do estado de degradação e de descaracterização de grande parte das edificações, a vila estava cheia de vida. Mais tarde haveria uma festa junina, daquelas bem típicas de quermesse, com as barracas enfileiradas ao redor da igrejinha. Toda a rua estava enfeitada com arcos de bambu e bandeirolas coloridas e já podia se sentir o cheiro do quentão e do milho verde. Ahhhh…nostalgia! =D

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Montagem das barracas da Festa Junina na rua principal da vilinha.

Entramos no prédio que foi um dos armazéns, que ainda contempla o mobiliário original. Hoje este espaço é utilizado para organização das peças e bilheteria, onde é possível tomar um café antes do início da apresentação.

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Interior de um dos armazéns. Esta ainda contempla os armários originais da época da inauguração da Vila. Acervo pessoal.

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Mobiliário original em ótimo estado de conservação.

A peça é itinerante (começa na porta da Capela de São José e termina em uma das escolas – são duas: uma dos meninos e outra das meninas). Atores e espectadores caminham pela vila ao longo da encenação e as construções são o cenário.

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A garrafa de canelinha faz parte da peça: todos os participantes são convidados a “brindar” o casamento da Noiva Amarela – que casa às pressas por conta do acometimento da Febre Amarela.

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O armazém antigo é cenário também. Ver o prédio com vida nos obriga a vê-lo de maneira diferente e distancia brevemente o pensamento do abandono.

Quanto ao roteiro da peça, merece um relato à parte: aborda a questão da “modernização” dos centros urbanos brasileiros, em especial o Rio de janeiro, capital do Brasil. Na época em que a República era recente havia o desejo visceral de se livrar da herança colonial por meio de intervenções urbanas inspiradas nos projetos que Haussmann implantou em Paris em meados daquele século, rasgando a cidade com novas avenidas largas, modernas e “higiênicas”.

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Ator que representa o agente sanitarista em uma das ações de higiene pública. Esses agentes eram responsáveis por visitar locais de maior proliferação de doenças, em especial os cortiços. Além da orientação sobre as práticas higienistas, eles geralmente é que aplicavam as vacinas contra a Febre Amarela. #Medooo uhahuuaha

Para tanto, cortiços foram demolidos e a população, sem alternativa de moradia, foi expulsa do centro da cidade, que teve abrigo no morro da Providência dando origem às primeiras favelas. Para saber um pouco mais sobre a política higienista, conhecida popularmente como “Política do Bota-Abaixo”, sugiro estes artigos: 1 e 2 .

Sobre a Vila Maria Zélia

Era bastante comum durante a Revolução Industrial as fábricas construírem habitações para seus funcionários. Na maioria dos casos eram, na verdade, como uma estalagem, mais para comodidade do empregador do que para o empregado, que exercia longas jornadas de trabalho (alguns casos chegava-se a 15 horas por dia ou mais). Com o avanço das organizações sindicais, as condições de moradia foram aprimoradas e passaram a ser construídas vilas operárias, onde cada família tinha uma habitação concedida pela fábrica.

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Fotografia da tecelagem da Cia Nacional de Tecidos de Juta – Belenzinho. Fonte

No caso da Vila Maria Zélia, foi construída entre 1912 e 1917 para abrigar cerca de 2500 funcionários da tecelagem Cia Nacional de Tecidos da Juta (um tipo de tecido rústico e resistente, geralmente utilizado em sacos como os de café) por encomenda do médico e investidor industrial Jorge Street, com projeto do arquiteto francês Paul Pedraurrieux. A Vila recebeu este nome em homenagem à filha de Street, que faleceu em 1915 (portanto, durante a construção da vila) com apenas 16 anos.

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A inauguração da Vila Maria Zélia em 1917. Fonte

Segundo o site São Paulo Antiga, “O que foi erguido era uma autêntica miniatura de cidade européia dentro da capital paulista, como se fosse um bairro à parte do Belenzinho. Foi construído ali uma capela, dois armazéns, duas escolas (meninos e meninas separado), um coreto, praça, campo de prática esportiva, salão de festas e ainda ambulatórios e consultórios médicos, avanços que não poderiam ser vistos nas demais vilas operárias da época (Nota: a preocupação com o bem estar do trabalhador por parte de Jorge Street era tanta que ele em 1931 chegou a ser diretor trabalhista no governo do Presidente Getúlio Vargas).”

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Desenho original da Implantação da Vila Maria Zélia, com a situação de todas as residências e prédios comunitários. Fonte

Tudo ia bem até 1925, quando Jorge Street teve de vender a fábrica e a vila à família Scarpa por conta de acúmulo de dívidas que, apesar da expansão da fábrica e da produção a todo vapor, não foram suficientes para liquidar o débito. Em 1929, devido à crise mundial a família Scarpa também encontra-se com problemas financeiros e vende a propriedade ao Grupo Guinle até que em meados dos anos 30 tanto a fábrica quanto a vila são confiscadas pela IAPI (atual INSS – atual proprietária). Quanto aos moradores, a partir de 1939 tornaram-se inquilinos, pagando aluguel ao IAPI até o ano de 1968, quando finalmente foram autorizados a comprar os imóveis em que moravam através do sistema BNH.

Os prédios comunitários (identificados no mapa como as manchas mais escuras) como a capela, os armazéns e as escolas ainda são de propriedade do INSS. Exceto a capela, que é administrada e encontra-se ainda em atividade, os demais prédios estão totalmente abandonados há décadas e por isso em pleno estado de ruínas.

Memória e preservação

É através do trabalho da Sociedade Amigos da Vila Maria Zélia liderada pelo Sr. Dedé que a vila se mantém viva e sua memória é preservada por meio da organização de eventos culturais, como a peça, a festa junina e espetáculos de dança e aluguel do espaço para sessões de fotos.

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Sr. Dedé, zelador da vila e representante da Sociedade Amigos da Vila Maria Zelia. Fonte

Ficamos emocionados em ouvir o relato do Sr. Dedé em que nos contou que nasceu e vive até hoje na mesma casa, no mesmo quarto! E que por reunir memórias de uma vida inteira na Vila sua consultoria é frequentemente solicitada por pesquisadores, especialmente da USP. A Universidade, inclusive, o agraciou com um título honorário em agradecimento por sua enorme contribuição à memória e à pesquisa universitária.

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About the Author

Bárbara GascóOlá, terráqueos! Sou Bárbara Gascó, conhecida também como Barbrão por minha conhecida habilidade em várias esferas, tipo faz-tudo =) e esposa do Sr. Denis Gascó, PaleoNerd. Sou Arquiteta e Urbanista e atuo na área desde 2012. Paralelamente, escrevo sobre Arquitetura+História e, como única representante do sexo feminino neste navio pirata, pautas acerca de questões sobre Feminismo e Igualdade de gêneros.

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