Porque DOM QUIXOTE é um clássico?

Porque DOM QUIXOTE é um clássico?

Há um mês atrás o Tiago Souza publicou aqui um texto chamado “Por que ler os clássicos”, numa referência ao Livro de Ítalo Calvino, o qual determina uma obra clássica como “[…]aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”. Lá o “Tiagão” falava sobre a constante presença deste tipo de referências em nosso cotidiano contemporâneo, além de utilizar a análise de Calvino que propõe a existência de três aspectos fundamentais que determinam uma obra clássica. São eles:

1 – A obra tem que resistir ao tempo, esse é um dos pontos principais.

2 – A obra precisa ter uma qualidade técnica ou algo inovador que confira a essa obra um status de reconhecimento.

3 – Muitas vezes são obras de caráter universal.

Tendo isso em mente, me lembrei de um vídeo do nosso já conhecido Café Filosófico de maio deste ano, no qual a historiadora Janice Theodoro foi convidada para realizar uma análise da obra clássica espanhola “O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha”, produzida no século XVII pelo autor Miguel Cervantes. Um livro que é, segundo a autora, a obra mais lida no Ocidente (depois da Bíblia) e que trata das duas formas de beleza do homem: a da alma e a do corpo.

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Fotografia do original “El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha”, de 1605, que está no museu Lázaro Galdiano, em  Madri. FONTE BIBLIOTECA LÁZARO GALDIANO

Para entender melhor Dom Quixote (vou dar uma abreviada no nome por aqui, ok?) é importante lembrar que o século XVII é o período durante o qual os espanhóis tiveram sua supremacia naval desafiada por outras nações, após a “A Invencível Armada” de Felipe II foi derrotada pelos ingleses. Após essa derrota, outras nações viram a oportunidade de atacar a então enfraquecida marinha espanhola e declararem a recusa em aceitar a divisão territorial estabelecida pelo famoso Tratado de Tordesilhas. Fato que possibilitou a posterior declaração de independência da Holanda.

Neste período toda “treta” entre nações se resolvia pelos mares nas guerras de corso, como ficaram conhecidas por causa da enorme presença de corsários no exército das nações europeias – piratas e mercenários que passavam a lutar sob a bandeira de uma determinada nação. Por fim, vale lembrar que o controle espanhol sobre o Mar Mediterrâneo se encontrava sob violenta disputa que colocava de um lado o enorme poder do Império Otomano e do outro uma coalizão católica, liderada pela Espanha. Toda essa bagunça teve reflexos até aqui no Brasil, quando fomos invadidos pelos franceses na região do Rio de Janeiro e no momento em que os holandeses conquistaram a região de Recife.

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Retrato de Miguel De Cervantes Y Saavedra (1547-1615) por seu contemporâneo Juan De Jauregui Y Aguilar. A obra se encontra, atualmente, na Real Academia Española. Fonte: WIKIMEDIA

Desta forma, não é nada surpreendente o fato de Cervantes ser um personagem histórico que teve sua vida marcada pela guerra, quando participou da Batalha de Lepanto, na região dos Balcãs – ou Grécia, pra quem não entende muito de mapa, né. Foi neste momento de sua vida, que Cervantes acabou ter o nervo da mão esquerda seccionado por um pedaço de chumbo, sofrer ferimentos em uma das pernas e chegou a ser mantido 5 anos como prisioneiro em Argel, Foi durante este momento que o “manco de Lepanto”, como era conhecido, escreveu sua obra que este ano completa 400 anos!

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Na esquerda, podemos ver a alegoria de 1571 do italiano Paolo Veronese, que representa a Batalha de Lepanto (será que ele era católico?!) e na direita podemos ver um esquema bem legal do Guia do Estudante que explica aspectos dessa batalha. FONTE: Wikimedia e Guia do Estudante

Segundo a Janice Theodoro, o fato de ter vivido a miséria humana e a guerra foram fundamentais para a elaboração desta perspectiva bem-humorada do autor, que escolhe um senhor velho, pobre e louco como herói de sua história, que vaga pelo mundo sobre um cavalo pangaré e é apaixonado por uma mulher feia e fedida! Entretanto o personagem conta com uma dignidade ilibada (quer dizer pura, sem marcas) e, por este motivo foi lembrado e representado por inúmeros artistas como uma figura elegante. Um exemplo disso, é a obra de Pablo Picasso.

“Esses personagens […] têm muita HUMANIDADE.” (Janice Theodoro)

Para Theodoro, é justamente a construção dos personagens que termina por revelar a historicidade de seu autor que, estava muito preocupado com a política de sua época, quando o Concílio de Trento (1545-1563) realizado pela Igreja Católica como uma reação aos movimentos protestantes que se disseminavam por toda Europa tratou da questão de “moralizar os costumes” – se você não tá ligado no que foi a Reforma Protestante, tem um texto meu aqui que fala sobre este momento histórico, “blz”?!. Neste sentido, Cervantes utilizava seus personagens como uma crítica às práticas dos poderosos e, acima de tudo, para exaltar a necessidade em sermos mais justos.

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O famoso e controvérso cineasta norte-americano Orson Welles não conseguiu finalizar seu projeto de realizar um filme sobre a historia de Quixote; Aqui vemos uma fotografia dos ensaios de teste realizado com o ator espanhol Francisco Reiguera. Existe um projeto entre artistas que querem terminar esse filme! Fonte: JonathanRosenbaum.net

Agora pensa comigo! Se ele “mete o pau” nas coisas como estavam, é porque discorda de tudo aquilo e acredita numa visão diferente do que era o recorrente em sua época para um “bom governo”. E, para Cervantes, um “bom governo” deveria ser baseado na consciência de defesa de um bem comum. Vale lembrar que, naquela época não existia a noção de um Estado Nacional como conhecemos, pois esta visão só foi introduzida durante a era industrial do século XIX. #umcarainovador

Com sua obra, Cervantes queria ensinar valores e, ao apresenta o mundo em que Quixote vive como ordenado pela consciência quer levar o leitor a questionar a diferença entre “querer ser bom” e “ter boas atitudes” por meio da constante contraposição que faz entre SONHO e REALIDADE. Desta forma, Theodoro afirma que ele desconstrói as fantasias e oferece uma “…aula do bem viver e como construir uma sociedade justa…”

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Além disso, Theodoro elogia a maestria com a qual Cervantes foi capaz de manipular o sonho e a realidade em sua obra, ao trocar as falas dos personagens e fazer piada com as projeções dos mesmos. Algo que fica muito claro com a icônica cena da luta do protagonista contra os moinhos de vento, enquanto Sancho Pança tenta explicar a ilusão de seu senhor, que acredita que a justiça de sua espada fará do mundo um lugar melhor. Uma situação que reflete o fato de que o sonho só tem força se repercutir dentro de nós. Afinal, se eu acredito que o moinho é um dragão, eu vejo um dragão!

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A esquereda podemos ver a icônica representação do herói dom Quixote, por Pablo Picasso, realizada em meados do século XX e, ao lado, vemos esta fantástica gravura feira por Gustave Dore, durante o século XIX. Duas imagens que tiveram enormes influencias sobre as posteriores representações deste herói literário. FONTE: Artencounter.com e Sul21

“Vivemos em uma crise de responsabilidade” (Janice Theodoro)

E, ao lembrar que as atitudes de Quixote não são influenciadas por outros, a historiadora se explica que ainda naquele contexto passado AS PESSOAS SE RESPONSABILIZAVAM POR SEUS ATOS, algo que não corresponde à nossa sociedade do século XXI. Isto porque, a ética é interpretada na Era Moderna do ser para o exterior e não o contrário, ou seja, era preciso assumir a responsabilidade pelo o que você fazia. Tal fato que permite à esta intelectual afirmar que “…essa loucura de d. Quixote é uma loucura muito especial porque […] é uma loucura do homem que vê”. Isto quer dizer: que vê que “tá” tudo errado no mundo e que coisas precisam mudar!

Contudo, o mais interessante desta obra está, segundo Theodoro, no fato deste livro ser  pouco autoritário, apesar de não haver o conceito de igualdade naquele período. O que existia era uma ideia de EQUIDADE, onde cada pessoa ocupava seu lugar social, segundo a lógica de uma sociedade que estava claramente dividida em estamentos – clero, nobreza, resto da população. Algo que fica bem explícito no fato de Sancho Pança que, apesar de ser de um diferente estamento social, aconselhar bem d. Quixote.

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Por fim, Janice Theodoro expressa sua discordância com as interpretações que entendem o momento da morte de d. Quixote como um momento de morte da utopia. Se você não tá ligado, a ideia de utopia remete a ideia de uma sociedade ideal, que não corresponde à realidade – o termo foi introduzido por Thomas Morus, quando escreveu um livro com este nome.

Para concluir, a historiadora coloca que existe sim um espaço para a construção da utopia no livro e usa de nosso contexto contemporâneo para esclarecer que somos uma sociedade que sofre com “projeções breves e fragmentárias” da realidade, assim como os personagens da obra de Cervantes. Fato que impede o “ressoar dos valores em nós, que não conseguimos mais ver. Assim, o livro oferece um REAPRENDER A VER O MUNDO E A NÓS MESMOS”.

Por tudo isso, podemos perceber que a obra “O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha” é um verdadeiro clássico que conseguiu resistir ao tempo devido a qualidade técnica com que foi escrito e inovar por oferecer uma perspectiva que incentivava as pessoas a serem conscientes de si e defenderem um bem comum. Uma obra que detém um caráter universal por não ter sua interpretação limitada a um tempo ou lugar exatos, uma vez que trata das questões da humanidade.

E para quem quiser ver a fala de Janice Theodoro, íntegra, acesse:

 

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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