Como Leviatã nos ajuda a entender o Brasil de hoje?

Como Leviatã nos ajuda a entender o Brasil de hoje?

Quando estou “de rolê” por aí, uma das perguntas mais frequentes que me aparece é se a tal da HISTÓRIA serve para alguma coisa, já que fala sobre coisas que aconteceram lá atrás, no passado. E muitos não são capazes de notar certas permanências históricas em aspectos da política, cultura e comportamento contemporâneo. Para falar a verdade, foi justamente este o gatilho que me levou a criar este espaço e tentar demonstrar para as pessoas que “TUDO TEM UMA HISTÓRIA”.

O mais legal, para mim, é que sempre que estou a assistir aos episódios do Café Filosófico (organizado pela CPFL Cultura) acabo por encontrar análises de intelectuais “cabeçudos” que me mostram sempre novas relações entre o passado e o presente. Dessa vez, eu encontrei a palestra proferida (é um jeito diferente de dizer “falada”) pela Doutora em Letras e professora de ética e filosofia política no Instituto de filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp, Yara Frateshi Vieira. A apresentação foi parte de uma série de vídeos chamada “Os clássicos e o cotidiano” e se dedicou a interrogar a obra Leviatã, de Thomas e, apesar de ter sido realizada em março de 2015, tem muito a ver com todo o que estamos vivendo ainda hoje.

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Hobbes é tido como um fundamental autor para o desenvolvimento da proposta de governo absolutista na Inglaterra e fundador de uma corrente filosófica denominada contratualismo. Retrato de Thomas Hobbes, executado por John Michael Wright. A obra pode ser encontrada National Portrait Gallery, na Inglaterra. FONTE: Wikimedia

Já de começo, a Frateschi começa citando a obra “Por que ler os clássicos”, de Ítalo Calvino e indica o fato de haver uma identificação entre o leitor e obra como ponto que nos permite refletir sobre nós mesmos. Por este motivo, a autora acredita que a obra de Hobbes é um ótimo “start” para se realizar o que chama de um “experimento mental” de reflexão sobre o humano contemporâneo e sua tendência a agir sempre em benefício próprio, assim como ser presa fácil do medo. Motivos que, segundo a autora, nos levam a desenvolver uma afecção do ódio.

Não! Eu também não sabia o que queria dizer essa tal de “afecção” e tive que procurar no dicionário para descobrir que se refere a um estado de anormalidade psíquica ou patológica do corpo. Desta maneira, entendi que ela entende as manifestações de ódio de nossa contemporaneidade como uma doença da qual a sociedade tem sofrido. Pode até parecer estranho para você, “aBiguinho” (como diria o mascote Dollynho Reaça) mas o negócio é que ela não foi a única a sugerir esta ideia. Já vimos aqui que o sociólogo polonês Zigmunt Bauman e o historiador Leandro Karnal realizaram proposições que embasam/reforçam esta teoria. #leialá

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E aí você me diz: A tá, Paleo, você tá falando de um monte de teoria e “tals”, mas até agora não me falou QUEM FOI ESSE TAL DE THOMAS HOBBES!

Hobbes viveu entre 1588 e 1679 e é conhecido entre os historiadores como um dos “teóricos do absolutismo”, pois em sua obra Leviatã este autor defendia a necessidade de um Estado centralizador, que tivesse força para controlar o indivíduo e garantir a segurança de todos. Já na filosofia, esse cara foi considerado o responsável por introduzir uma linha de pensamento chamada CONTRATUALISMO, segundo a qual a ação do ser humano segue sempre numa constante busca de satisfação dos próprios desejos.

Neste sentido, o ser humano teria passado por um “estado de natureza”, durante o qual a violência permitia que os fortes conquistassem tudo o que quisessem até que, movidos pelo medo, os cidadãos (não, não existe a palavra “cidadões”) aceitariam o estabelecimento de um “contrato social”, segundo o qual eles abririam mão de sua liberdade para que um poder centralizador garantisse a segurança de todos – desta maneira, este autor afirmava que teríamos passado para um “estado de sociedade”. Isto representou não só uma nova proposta para interpretar o Estado e o indivíduo, como também introduziu uma nova concepção de sociedade, que passou a ser vista como uma criação racional.

“Os pactos sem espada não passam de palavras.” (HOBBES)

Publicado em 1651, o livro Leviatã, foi escrito por este autor durante a Revolução Inglesa (1641-1689), um período que ficou marcado na história britânica como repleto de violência e incertezas. Por este motivo, não soa nada estranho que este autor entenda o ser humano como incapaz de existir sem a existência de um Estado, ou seja, uma organização que conte com o monopólio da violência legítima sobre um território, como afirmou o sociólogo Max Weber.

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A Guerra Civil Inglesa foi resultado de um conflito entre o Rei inglês (que queria ampliar seus poderes de decisão de governo) e o Parlamento (que buscava controlar as medidas do imperador. Tida por Eric Hobsbawn como parte das Revoluções Burguesas, este conflito marcou a ascensão politica da burguesia inglesa. O fim de todo este processo histórico se deu, segundo alguns historiadores com a promulgação da “Carta de Direitos” que estabeleceu um sistema de governo chamado como monarquia parlamentarista e viria a servir de modelo para diversos movimentos sociais futuros. Nesta imagem, vemos uma representação da Batalha de Nordlingene (1634), feita pelo artista espanhol contemporâneo Miguel Olazabal. Aqui podemos ver o uso da estratégia das longa lanças pelo exército dos cabeças-redondas (Parlamento), que rechaça o ataque do exército dos cavaleiros, que defendiam os interesses do poder real absolutista. FONTE: pikabu.ru

Mas Frateshi deixa claro, já de início, que seu foco não está na concepção de Estado de Hobbes, mas sim na proposta social deste autor moderno (isso quer dizer que ele viveu na Era Moderna, se liga!) que reconhece a igualdade na diferença e é entendido como o primeiro a formular e justificar, em termos filosóficos, sobre as condições de busca pela felicidade. Inclusive, a professora lembra que a interpretação hobbesniana da lei como aliada do indivíduo deve ser entendida como um ganho político inevitável.

Todavia, apesar de reconhecer a existência de uma pluralidade de valores diferentes, Hobbes, não espera que os outros compartilhem de seus valores e propõe, como solução um poder que seja capaz de dissuadir as pessoas de desejarem desobedecer ao Estado. Isto porque, para ele, enquanto os indivíduos não temessem algo mais que a própria vida ou morte, eles não obedeceriam ao Estado. Fato que, para o autor, justificaria que a Igreja fosse também controlada, já que esta instituição era responsável por algo que ia além da vida e da morte: a salvação ou danação eterna.

Yara Frateshi deixa claro que isso não resolve todos os problemas, uma vez que sabemos existem muitos outros elementos além da punição do Estado para controlar o homem. Além disso, indica que explorar os limites da concepção de Hobbes de indivíduo nos ajuda a entender quem somos, já que esta busca A TODO CUSTO pela satisfação própria em todas as suas ações faz com que o indivíduo passe a ver sua relação com os outros e com o Estado como completamente instrumental.

A pessoa que segue por esta forma de pensamento atribui o valor ao outro, enquanto pessoa, baseado no ELE (o indivíduo) considera bom para si mesmo.

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E É AÍ QUE ESTÁ O PERIGO!

Segundo essa lógica, se eu não considero você como benéfico para minha vida, eu passo a te entender como um obstáculo para mim e, tudo isso, por sua vez, desemboca na tal da afecção do ódio. Nesta forma de pensamento, eu passo a ver todos que não compartilham do meu interesse como uma perigosa “doença” que ameaça os meus interesses e o futuro que EU planejo para minha família. Por isso, tantas manifestações de ódio aos homossexuais, infratores, nordestinos, negros, estrangeiros, etc. A solução, segundo estas ideias, está em ELIMINAR TODO E QUALQUER “OBSTÁCULO” AOS INTERESSES PRÓPRIOS.

Isto é algo que está em todos nós, e criar uma visão DUALISTA (“o bem contra o mal”) limita profundamente nossa capacidade de julgamento, já que ficamos incapacitados de detectar os obstáculos que afetam a perseguição da felicidade dos outros, como disse a própria autora. Algo que explode num discurso de ódio, que tem como principais fontes para sua disseminação o MEDO e a IGNORÂNCIA. Aí que está o grande valor deste clássico do século XVII!

A análise da obra Leviatã nos ajuda muito ao revelar a ausência de uma reciprocidade, de nos vermos enquanto iguais e entendermos o outro (aquele que é diferente de nós) como um indivíduo concreto, dotado de vida e com pretensões próprias. Somente isso, segundo Frateschi poderá nos ajudar a construir uma sociedade pautada na cooperação. E PRECISAMOS DE MAIS DISSO!!

Isso pode ser óbvio, mas reconhecer e aceitar que, assim como nós, os outros buscam pela própria felicidade e precisam contar com as condições fundamentais para seguirem seus sonhos e realizações é algo que tem sido silenciado pelo constante ruído gerado pelas grandes corporações midiáticas, que pautam seu discurso na tônica do MEDO e do ÓDIO, ao mesmo tempo que mantém seu público na mais absoluta IGNORÂNCIA – uma ideia que foi definida pelo próprio Bauman como a “indústria autro-reprodutiva do medo”.

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Como aponta Frateshi, o aspecto disciplinador da proposta de Estado formulada por Hobbes envolve suprimir as opiniões que divergem do interesse de quem governa. Neste sentido, Hobbes discorre de forma longa sobre a importância da educação para “disciplinar” os indivíduos a aceitarem as regras definidas por este Estado. Esse é um dos perigos que podemos notar, também, no projeto “escola sem partido”, que busca definir uma prática educacional que esteja alinhada com os interesses de uma pequena parcela da sociedade. Fonte: Vimeo

Não esqueça! A grande mídia não quer que você saiba. Quer que você acredite!

Como exemplo para sua colocação, Frateshi afirma que o Brasil, entre 1992 e 2013, sofreu um aumento de 318% na quantidade de encarceramentos, fato que nos torna a 4ª sociedade que mais encarcera no mundo. Entretanto, a quantidade de homicídios ocorridos no país durante este mesmo período não diminuiu, mas, pelo contrário, aumentou em 24%!

Pior que isso! A grande maioria de encarcerados e vítimas de homicídios são jovens, do sexo masculino negros e pardos, como aponta o relatório deste ano realizado pelo MapaDaViolência.org. Ponto que é reforçado pelo relatório da UNICEF:

“a face mais trágica das violações de direitos que afetam meninos e meninas no Brasil são os homicídios de adolescentes. De 1990 a 2014, o número de homicídios de brasileiros de até 19 anos mais que dobrou: passou de 5 mil para 11,1 mil casos ao ano (Datasus, 2014). Isso significa que, em 2014, a cada dia, 30 crianças e adolescentes foram assassinados.”.

Isso quer dizer que esses jovens são muito mais vítimas do que autores da violência no país, algo que essa lógica instrumentalista do “indivíduo individualizante” – inaugurada por Hobbes – não permite entender. Afinal, esta perspectiva faz com que o ser humano não reconheça o outro como indivíduo.

Pois é, aí está um outro artigo que mostra que “TUDO TEM UMA HISTÓRIA”, assim como a maneira como podemos usar um documento histórico centenário para nos ajudar a entender melhor a realidade em que vivemos, por meio do reconhecimento das permanências e reconfigurações de práticas e comportamentos passados. A História nos permite imaginar o mundo do ponto de vista do outro e, com isso, sermos capazes de expandir nossos horizontes.

E se tem uma dica que fica nessa história é: não se permita encerrar num mundo próprio, se negando a entender ou aceitar que o outro, assim como você, é um ser humano dotado de sonhos e deve contar com condições iguais às tuas para lutar por eles.

Abaixo segue o vídeo na versão editada pela TV Cultura:

Ao contextualizar a obra de Hobbes, o vídeo acaba por apontar que a obra foi publicada com o fim da guerra, entretanto nós, historiadores, entendemos que este conflito teve uma duração maior, cujo fim se deu somente com a publicação da Declaração de Direitos, em

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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