Mary del Priori: sexo e amor na cultura brasileira

No dia 08 de março celebramos o Dia da Mulher. Todos os anos, durante a semana da data “comemorativa” há uma série de debates acerca da questão do feminismo, da igualdade de gêneros e o papel da mulher na sociedade contemporânea. Além disso, gostaria de lembrar à vocês que acreditamos que o diálogo é a melhor ferramenta para o desenvolvimento social e, por isso, é sempre bem-vindo.

Por falar nisso…vamos falar sobre a figura feminina na questão do amor e do sexualidade no Brasil?

Numa das edições do programa televisivo Café Filosófico (@cafe_filosofico), a historiadora Mary del Priori abordou a questão da sexualidade em terras brasileiras e, logo de início, deixou claro que o ano de 1808 (que marca a vinda da família real para o Brasil) deve ser entendido como um paradigma na sociedade brasileira, uma vez que trouxe à tona formas de relacionamento até então impensáveis como por exemplo casos extraconjugais. Tanto que, apesar de não ser um motivo de orgulho e inspiração, a própria família real admitia que D. Pedro I mantinha uma amante, Domitila, cujo caso é bastante conhecido. 

Durante a entrevista, Priori aponta a importância de desconstruirmos a imagem da mulher brasileira como 30passiva e, com base em seus estudos feito em correspondências e documentos históricos afirma que as mulheres eram (mesmo que de forma velada) grandes articuladoras sociais e que “sabiam dar o troco”, quando ‘passadas para trás’, mostrando que o papel secundário da mulher não era regra e que haviam exceções interessantes a serem analisadas naqueles registros. Contudo, é fundamental lembrar que não podemos pressupor que  as mulheres brasileiras do século XIX pensassem como as mulheres de hoje, já que estas são realidades bastante distintas!

Segundo Mary, a partir do século XIX, é possível perceber um aumento no número de divórcios, assim como a presença de diversos casais “amasiados”, ou seja, em um relacionamento estável apesar de informal perante à lei e à igreja. Com essas “novas formas de amor” soluções criativas de encontro e conjunção carnal surgiram como o uso de carruagens, que a autora coloca de forma divertida como os primeiros “motéis” por nossas terras. Além disso, a autora do livro “História do amor no Brasil” nos revela outros comportamentos curiosos dos apaixonados personagens coloniais, como a pisadela no pé, que era uma inusitada (e dolorosa) forma de flerte na época.

Além disso, Del Priori indica que a literatura médica sempre esteve determinada em condenar os excessos, procurando entender e “regular” o comportamento sexual. Motivo pelo qual foram os médicos que, durante este período, passaram a postular sobre o que é bom e o que é ruim para o casal por meio de sistemas de controle como a recomendação em manter um caderninho de controle de emissão de esperma, já que acreditavam que até isto poderia fazer o homem adoecer. Isso sem contar que ejacular aos 60 anos de idade era absolutamente proibido pelos médicos! Parece bizarro, né? #NoFAP

A fim de compreender melhor a dinâmica da sociedade brasileira em relação ao tema Mary analisou o papel dos prostíbulos nesse processo e revela que esses estabelecimentos tiveram papel importante na introdução de consumo de novos produtos como o champanhe e bijuterias no consumo dos brasileiros, quando passamos a importar também práticas sociais características da sociedade oitocentista europeia.  Isso se deu por meio da chegada das jovens, que vinham em grande parte da França e do Leste Europeu, denominadas “cocottes”.

Durante o século XIX, existiam garotas chamadas ‘cocottes’, que se transformaram em verdadeiras celebridades por causa de seu estilo de vida. Virginia Olldoni, também conhecida como Condessa de Castiglione, nasceu numa família de aristocratas de La Spezia, durante o século XIX. Esta personagem histórica é conhecida como uma figura significante dos primeiros passos da história da fotografia, além de receber grande atenção entre periódicos e fofocas da época, por ser amante do Imperador Napoleão III, da França. Junto com o fotógrafo Pierre-Louis Pierson, Castiglione produziu centenas de imagens de si mesma. Algo que a autora do site Costume Cocktail analisa da seguinte maneira: “Numa inversão de papéis, aquele que está sentado diridia todo o aspecto da imagem, desde o ângulo até a luz, usando o fotógrafo como mera ferramenta em sua perseguição por auto-promoção e expressão de si mesma. Fonte: CostumeCocktail

Neste sentido a autora demonstra que tanto a vida das mulheres casadas, como a das prostitutas sofreram grandes mudanças com um processo de aburguesamento e “modernidade”. Isto porque, até então, às senhoras de “respeito” lhes cabiam o ambiente da casa, enquanto toda mulher que frequentasse as ruas era entendida como “puta”. Sendo assim, os historiadores concluem que os prostíbulos serviram de espaço para o aflorar de uma nova forma de fazer sexo, dotada de certo refinamento. Mas, muito mais importante que isso, a cocottes, também foram consideradas pelos pesquisadores as maiores difusoras de cuidados para evitar a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis, como a sífilis.

É também neste período que chegaram os primeiros livros eróticos, os quais eram lidos às escondidas. e vinham carregados, em seu conteúdo, de um fundo moralista onde seus personagens sempre terminavam suas vidas doentes. Também neste momento, foi publicada surgiu a primeira revista pornográfica do Brasil, denominada “O Rio Nu”, que oferecia piadas, anunciava quem eram as novas garotas que chegavam nos prostíbulos e realizava até concursos para definir qual a prostituta mais bonita do Rio de Janeiro. Com veiculação até 1916, este periódico trazia uma nova perspectiva, na qual o sexo tinha um “quê” de diversão, motivo pelo qual representou uma grande inovação para o período.

Um problema, contudo, se encontrava nas práticas homoafetivas, que ainda eram entendidas como absolutamente condenáveis, fato que contribuiu para a constituição de guetos, onde estas pessoas procuravam seus prazeres. Além do mais, tal fato favoreceu o desenvolvimento de formas de comunicação veladas e complexas, como por exemplo os nós realizados nas gravatas e outras formas de gestos.

Desta maneira, Priori continua por construir uma linha temporal sobre as formas de amar ao adentrar pela Era Vargas, período durante o qual fica evidente a questão acerca da formulação de uma nova identidade nacional, ja que este governo utilizou da propaganda do Estado para incentivar o aumento populacional. Tudo isso baseado numa perspectiva militarista e misógina, que concebia a mulher como uma “fábrica de filhos”. Entretanto, esta autora aponta também a perspectiva do médico Dr. Wander Vell, que, em sua obra “Um casamento perfeito”, falava sobre a necessidade de harmonia entre o casal, assim como da importância das mulheres se sentirem convidadas ao ato sexual. Todavia, a ideia do sexo como algo proibido e cujo conhecimento gerava, entre as pessoas um enorme sentimento de culpa é algo sempre muito presente neste período.

Todavia, ao se dedicar a falar sobre o período pós Segunda Guerra Mundial, Mary Del Priori cita a importância do rádio e do cinema como definidores da cultura de massa recém-chegada ao país. Pois, em meio a isto, foram introduzidos “novos padrões amorosos” que extravasam para o comportamento, como o novo conceito de beijo ou de pegar na mão ou o fato de o rapaz só ter permissão para entrar na casa da garota depois de noivo. Isto porque perder a virgindade antes de casar era visto como uma “caída” e as mulheres que se permitiam a isso eram constantemente julgadas como “furadas” (pois é…) e tinham isso jogado em suas caras pelos maridos. #imaginasó!

Após tudo isso, muita coisa mudou durante as décadas seguintes, com a introdução da pílula contraceptiva e com a ascensão do movimento feminino durante o período da Contracultura mas, de qualquer maneira, a sociedade brasileira sempre manteve aspectos conservadores e machistas, típicos do que Leandro Karnal, apontou como uma sociedade falocêntrica, segundo a qual o feminino sempre é associado à fraqueza, enquanto o masculino costuma ser vinculado à força e poder.

Mas, como pudemos ver aqui, tudo isso é resultado de uma construção histórica e, por esta razão, perfeitamente possível (e necessário) ser mudado. Para isso, o primeiro passo é deixarmos de entender estes preconceitos e a violência resultante desta forma de pensar como algo natural, mas sim como um infeliz aspecto de nossa sociedade. Uma situação que podemos (E DEVEMOS) ter em mente para poder desconstruir nossas práticas e comportamentos, na tentativa de estabelecer uma sociedade mais voltada à inclusão da alteridade e não ao que Bauman chamou de “mixofobia”, em Tempos Líquidos.

 

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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