02 de Julho: A independência no Brasil?

02 de Julho: A independência no Brasil?

Este texto é um resumo que fiz sobre a série documental “Guerra de Independência na Bahia”, realizada pela pela produtora Gaya Filmes e com direção de Renata Barbieri, a qual pode ser acessada no site da TV Escola e se revelou para mim interessante por procurar desconstruir a perspectiva sobre a independência brasileira como um processo pacífico e sem nenhuma participação popular. Ao contrário disso, os autores da série procuram deixar claro que os conflitos armados ocorridos na Bahia em início do século XIX foram determinantes para a manutenção de uma unidade nacional. Além disso, adicionei algumas informações sobre o contexto deste processo histórico, com objetivo de tentar dar uma perspectiva mais abrangente sobre o processo de independência no Brasil.

Entretanto, para poder entender melhor este processo, é importante considerar que o processo de independência brasileiro teve seu início com a vinda da família real (que deslocou toda a administração do Império para o Brasil) e a posterior ocorrência da Revolução liberal do Porto que, influenciada pela ideologia liberal cartistas, determinou o rompimento com o Estado português absolutista, ao exigir o retorno de d. João VI e sua submissão à nova Constituição de Portugal. Além disso, a sequência de eventos foi acompanhada pela tentativa de retirar a condição do Brasil de Reino Unido à Portugal, assim como de liberdades comerciais das quais gozavam as elites brasileira. Fato que levou os políticos brasileiros a abandonarem as negociações nas cortes portuguesas e voltarem para o Brasil, de onde viriam a coordenar a independência brasileira.

Neste momento, estes grupos estavam divididos em três diferentes correntes de opinião:

  • A aristocracia rural brasileira, que temia a perda de seus privilégios, em função do exemplo radical do processo de independência haitiano, motivo pelo qual defendia o estabelecimento de uma monarquia parlamentar independênte.
  • Os comerciantes portugueses, que se colocavam contra a ideia de independência e exigiam o retorno de seus privilégios.
  • Os liberais radicais, membros de uma emergente classe média urbana que atuavam como profissionais liberais e defendiam a realização de profundas alterações políticas, assim como reformas sociais como a redistribuição de terras (mais conhecida como reforma agrária) e a abolição da escravidão.

Neste sentido, a tensão crescia entre Lisboa e Rio de Janeiro até que a chegada dos Despachos de Lisboa – que revogavam os antigos decretos do príncipe regente e exigiam o retorno de D. Pedro I – levaram os membros da elite brasileira a criarem um abaixo-assinado com 8.000 assinaturas que defendia a permanência de d. Pedro I, o qual recebeu a notícia durante sua viagem de retorno da casa de sua amante, a Marquesa de Santos. Este fato resultou no “Dia do Fico” e na subsequênte declaração da independência no Brasil.

Todavia, ainda em fevereiro de 1821 a insatisfação brasileira com a presença portuguesa na Bahia foi desafiada por revoltas realizadas por soldados brasileiros que enfrentaram seus superiores portugueses e foram derrotados pelas forças de repressão do exército português. Por esta razão, os revoltosos decidiram buscar refúgio no Convento da Lapa, enquanto eram perseguidos por soldados portugueses, onde receberam o abrigo da Madre Superiora Joana Angelica a qual, ao tentar impedir a entrada das forças de repressão no edifício, terminou por ser assassinada.

A partir de então, a violência das tropas portuguesas se tornou ainda mais irracional, já que estes passaram a formar bandos armados (chamados “mata cabras”) que surravam e assassinavam todos os quais consideravam suspeitos de insubordinação e traição. Este momento é entendido por alguns historiadores como o estopim para uma revolta generalizada em Salvador, que terminou por se espalhar por outras regiões da Bahia com a formação de milícias chamadas “mata marotos”, destinada a perseguir todos os portugueses que viviam na região, invadindo armazéns e fazendas. Este grupos contaram com a adesão de muitos escravos, libertos, desertores e soldados brasileiros motivados pela indignação com a violência dos militares portugueses.

Foi somente a partir de julho de 1822 que a elite baiana passou a apoiar o movimento de independência, quando a Câmara de Santo Amaro publicou um manifesto em apoio a d. Pedro I e em defesa da manutenção das Províncias Unidas. Fato que desenvadeou uma série de proclamações idênticas por toda a região do recôncavo baiano, assim como a organização de uma impresa liberal dedicada a combater a presença portuguesa e a formação de uma rede unida política e militar entre estas vilas que cercavam Salvador.

É interessante notar que, entre os bahianos, o verdadeiro estopim para a guerra teria se dado no momento em que um cargueiro português bombardeou o distrito de Cachoeira, que teve o jovem “Tambor Soledade” como primeira vítima fatal. A partir de então, foi formada a Confederação das Vilas do Recôncavo, que reuniu um exército de 1500 homens formado por negros libertos, índios flecheiros, vaqueiros do sertão e membros da elite açucareira que procurou cercar Salvador e impedir o abastecimento das tropas portuguesas que etavam entrincheiradas na cidade. Uma estratégia que já era conhecida dos brasileiros, que a usaram para expulsar os holandeses durante o século XVII. Contudo, as péssimas condições de vida que marcavam os dois lados do conflito levaram o historiador Iglesias a Afirmar que esta foi uma “guerra entre carentes e famintos”.

Para oferecer auxílio aos resistentes, d. Pedro I convocou o general francês Pierre de la Bateur, que atuava como mercenário e tinha experiência de combate na Colômbia, onde lutou ao lado de Simón Bolívar. Desta forma, foi formado o “Exército Pacificador”, que chegou a somar cerca de 5000 homens, entre milicianos, mercenários, a guarda imperial e homens recrutados em Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Fato que, segundo o historiador João, reforçava um sentimento de união nacional contra os portugueses. Além disso, é importante lembrar a história da personagem Maria Quitéria de Jesus Medeiros, que participou da Batalha de Pirajá disfarçada entre os soldados do Batalhão dos Periquitos.

Desta forma, o documentário fala sobre as batalhas realizadas e sobre a importâncias da cultura oral, que manteve viva a história de personagens como a catadora de mariscos Maria Felipe, que liderou um grupo de quarenta mulheres e é lembrada por tripudiar sobre seus inimigos, algo que reforça a capacidade dos brasileiros de superar as dificuldades durante todo o cerco à Salvador.

A guerra de independência da Bahia teve seu fim em dois de julho de 1823, quando os portugueses foram derrotados na Batalha na Bahia de Todos os Santos e decidiram optar pela rendição, que foi seguida pelo abandono das terras, escoltados pela frota do almirante mercenário Lord Cochrane. Poucos dias depois os portugueses também foram expulsos do Maranhão e, por fim, do Pará. Tais eventos terminaram por consolidar o processo de independência e tiveram papel fundamental na definição de nossa unidade territorial.

Além disso, a historiadora Consuelo deixa claro que a festa de comemoração de independência baiana “é uma festa cívica popular sem igual no país”, em função de sua origem popular e que persiste na memória da população baiana também como importante ponto de resistência. Já que a população baiana se recusou a aceitar a tentativa do governo de construir de uma memória sobre este processo, associada a figura de La Bateur, cuja figura terminou por cair no esquecimento e desapareceu da celebrações, que exaltam muito a figura de Maria Felipa. Neste sentido, as comemorações de independência na Bahia consistem na real celebração do nascimento da nação brasileira, uma vez que o povo teve atuação como protagonista em todo o processo.

O triste é  ver que este documentário não está mais acessível no site da TV ESCOLA, mas POR ENQUANTO, o vídeo ainda pode ser visto pelo youtube

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PaleoNerd

Me chamo Denis e sou professor de História. Concluí minha Graduação em Licenciatura em História na Universidade Estadual Paulista – UNESP, Câmpus de Assis-SP em 2009. Em 2014 concluí minha Especialização em Educação, Arte e Multimeios pela Unicamp. Atuo na área desde 2010, ministrando aulas para o Ensino Fundamental, Ensino Médio, Cursos Pré-Vestibulares, assim como, palestras e oficinas para jovens e adultos.

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